Os professores são agentes fundamentais na produção de uma cultura escolar e encontrar vestígios de sua presença no Grupo Escolar de Lavras é um modo de escrever a história dessa instituição.
Um ofício com a data de 8 de abril de 1907, enviado a Carvalho Brito, secretário do Interior, por Firmino Costa informava que as professoras nomeadas para o Grupo Escolar de Lavras e o diretor viajariam para o Grupo Escolar Barão do Rio Branco, em Belo Horizonte, para receber uma preparação sobre o novo método de ensino:
[...]
As professoras estão promptas a seguir para essa capital com o fim de assistir às aulas do Grupo, segundo o sr. me recomendou. Peço-lhe fazer-me, com a necessária antecedencia, a remessa dos passes a fim de que eu possa partir em 14 do corrente [...]Com todo o apreço e estima.Seu amº. e admirador.
(SECRETARIA DO INTERIOR, SI 2829, 1907)
De onde vieram essas professoras para compor o corpo docente do Grupo Escolar de Lavras? Como elas foram recrutadas?
As primeiras professoras do Grupo Escolar vieram removidas das escolas isoladas existentes em Lavras; essa transferência não aconteceu de maneira automática, mas por ordem remetida pela Secretaria do Interior.
O diretor do Grupo Escolar, no mês de abril, em menos de 15 dias, chegou a enviar ao secretário Carvalho Brito, dois ofícios com os mesmos pedidos: abreviar a remoção, pois, juntamente com os professores, ele precisava fazer a classificação dos alunos por escolas ou séries, antes da instalação:
Grupo Escolar de Lavras, 08 de abril de 1907 [...].
Para maior regularidade no serviço de matricula do Grupo torna-se necessaria a remoção [grifo meu] das professoras existentes para o mesmo, e assim também a nomeação da servente e do porteiro. É preciso dentro do praso da matricula classificar os alumnos das escolas que aqui funcionam, e para esse effeito não posso prescindir do auxilio das respectivas professoras. Rogo-vos, pois, a referida remoção [...]
Na segunda edição do boletim Vida Escolar, de 15 de maio de 1907, lançada apenas dois dias após a inauguração do Grupo Escolar, Firmino Costa apresentou os seguintes nomes de professores, do porteiro e da servente, que fariam parte do corpo de funcionários do novo estabelecimento de ensino:
PESSOAL
O corpo docente do Grupo compõe-se do sr. Jacintho Pereira de Almeida, d. Suzanna de Rezende Alvarenga, d. Alda de Moura Carvalho e d. Victoria Maria de Paiva, professores de meninos; d. Maria Magdalena Sarty, d. Rosalina Augusta Ferreira, d. Ignez Cavazza e d. Maria das Dores Pinto, professoras de meninas. É porteiro o sr. Astolpho Costa e servente d. Isabel Hercilia da Silva. (VIDA ESCOLAR, p.4, 15 maio 1907)
Dessas professoras, três vieram removidas de Escolas Isoladas e tinham o Curso Normal: Victoria Maria de Paiva, Maria Magdalena Sarty e Rosalina Augusta Ferreira. (FOLHA DE LAVRAS, p. 2, 8 nov. 1903) Tem-se conhecimento de que o professor Antônio da Rocha Faria, que não tem o seu nome nessa lista, citado no livro número 835, do Arquivo Público Mineiro, como normalista efetivo de uma das escolas isoladas de Lavras, por meio de um comunicado encontrado no jornal Minas Gerais, colocou o seu cargo em disponibilidade, tendo o Estado se prestado em acertar seu pagamento:38
Ao sr. inspector escolar municipal de Lavras, pedindo-se-lhe informar em que data foram os alumnos da escola dessa cidade, regida pelo professor em disponibilidade sr. Antonio da Rocha Faria, incorporados ao Grupo Escolar dalli, afim de que se possa providenciar sobre o pagamento solicitado pelo referido professor. (MINAS GERAES, p. 2, 4-5 nov. 1907)
No caso de Lavras, as escolas isoladas fora do prédio público foram fechadas com a criação do Grupo Escolar, o que pode ser o caso da escola regida pelo professor Antonio da
38
Pagava-se ao professor a metade do salário, enquanto ele ficava esperando a transferência para uma escola isolada ou Grupo Escolar em outra cidade; ou simplesmente encerrava sua carreira de professor público.
Rocha Faria, pois seu nome não era citado na imprensa local, quando publicavam os exames finais das escolas isoladas que funcionavam na Casa de Instrução.39 O professor Tobias Pertence (FOLHA DE LAVRAS, p.2, 8 nov. 1903) já era citado nessa relação, mas, ao contrário do professor Antonio da Rocha Faria, não se pode afirmar que o mesmo aconteceu com ele, por falta de informações.
Maria das Dores Pinto já era professora na Escola Normal de Lavras; d. Alda de Moura Carvalho pertencia à primeira cadeira mista de Perdões e viera transferida. Do professor Jacintho Pereira de Almeida encontrou-se somente o nome de seu pai, Antonio Pereira da Costa, que era professor primário. Tentei investigar se o seu sobrenome “Pereira” era o mesmo da família de Firmino Costa, mas não consegui confirmação. De todo modo, esse professor, além de ter sido escolhido pelo diretor, ocupava-lhe o lugar em suas ausências. No começo de 1907 houve uma acusação de que estaria entre o corpo docente do Grupo Escolar de Lavras uma professora menor de idade: Ignes Cavazza. A denúncia foi apresentada em um artigo denominado “Grupo Escolar: ainda os primeiros actos do director do Grupo Escolar de Lavras”, publicado no jornal O Incentivo, no qual o redator, Pedro Augusto Novaes, acusa Firmino Costa de maneira irreverente:
Bom diplomata ou bom politico é o mentiroso de talento, o farcista de geito, o comediante da vida publica, cuja primeira obrigação deve ser a falta absoluta de sinceridade. Infelizmente é isso um prejuizo arraigado no espirito de muita gente, mesmo entre os que se ornam com o titulo de intelligente. (O INCENTIVO, 1 jan. 1907)
39 Apesar de sua escola ter sido citada por um inspetor, seguidamente, depois da visita à escola de D. Maria Magdalena Sarty, que com certeza funcionava na Casa de Instrução, prefere-se aqui deixar a dúvida prevalecer
O redator do artigo acusou o diretor do Grupo de ter mentido a respeito da idade da professora e ainda apresentado à Secretaria do Interior um documento falso,40 elaborado mediante a apresentação de testemunhas oficiosas ao juiz municipal. Novaes apresenta provas de que Ignez Cavazza tinha 16 anos e 5 meses quando foi requisitada para ser professora no Grupo Escolar de Lavras.
Desse exemplo podem-se levantar questões para futuras pesquisas, referentes à idade do professorado mineiro: teriam todas elas idade igual ou superior a 18 anos? Ou houve casos em que o regulamento foi burlado?
O redator do artigo, porém, não coloca em dúvida a capacidade da professora41: “[...] nenhuma animosidade existe da minha parte contra a mesma professora, que desejo continue no seu lugar, zelosa, em cumprimento de seus deveres, assim concorrendo para o bom conceito que deve ter o estabelecimento de ensino de que faz parte...”. (O INCENTIVO, 1 jan. 1907)
A distribuição dos primeiros professores pelas turmas criadas ficou da seguinte maneira:
40 Pelo Regulamento da Instrução Primário e Normal, Capítulo V, art. 65, parágrafo único, p. 20, caso o professor não possuísse certidão de batismo que comprovasse sua idade, esse poderia recorrer a outro meio legal, o que parece ser o que aconteceu com a professora Ignez Cavazza, que teve sua idade comprovada mediante testemunhas perante o juiz municipal.
41
Acompanhando a trajetória de Ignez Cavazza, o último dado que consegui sobre sua presença no Grupo Escolar de Lavras data de 1926.
TABELA 1
Primeiro Corpo Docente do Grupo Escolar de Lavras
ESCOLA SEXO ANO PROFESSOR(A)
1ª Feminino 1º Maria Magdalena Sarty
2ª Feminino 1º Rosalina Augusta Ferreira
3ª Feminino 2º Maria das Dores Pinto
4ª Masculino 1º Ignez Cavazza
5 ª Masculino 2º /1º Semestre Alda de Moura Carvalho
6ª Masculino 2º Jacintho Pereira de Almeida
7ª Masculino 1º Victoria Maria de Paiva
8ª Masculino 1º Susanna de Rezende Alvarenga
Fonte: Cf. Boletim Vida Escolar. Ano 1907 e 1908.
1.8 O RECRUTAMENTO DOS ALUNOS E O PRIMEIRO CORPO DISCENTE DO