4. BULGULAR
4.3. Laboratuvar Bulguları
O dia escolhido para a inauguração do Grupo Escolar – 13 de maio – é de forte simbolismo: aquele que ficou registrado como o da libertação dos escravos. Em seu discurso inaugural36, o diretor Firmino Costa rememorou esse dia como uma data gloriosa, pois, além de comemorar o dia da libertação dos escravos, Lavras passava a ser “um centro de instrucção primaria, secundaria, normal e profissional.” (VIDA ESCOLAR, p. 2, 15 maio 1907) O pressuposto era o de uma outra libertação, não mais da escravidão, mas da ignorância pela instrução e, suas palavras, em certos trechos do discurso, reforçaram os ideais republicanos e a missão do Grupo Escolar:
A escola deve, por conseguinte, preparar os alumnos para a sociedade, ensinando-lhes zelar da saude e desenvolvendo-lhes convenientemente as faculdades do espirito, a fim de que cada um delles venha a ser na vida um
35 Atualmente escritos sobre a história do Grupo Escolar Firmino Costa refere-se a ela como sendo o terceiro Grupo Escolar do Estado de Minas Gerais. Não houve uma comprovação de onde teria saído essa classificação, sendo que nos documentos oficiais da Secretaria do Interior, o Grupo Escolar de Lavras jamais foi designado como sendo o terceiro do Estado de Minas Gerais. Provavelmente dividiu-se os grupos escolares em duas categorias: Os grupos escolares da capital, que eram classificados em 1º, 2º, 3º... grupos da capital; e os grupos escolares do Estado, sendo que existia uma classificação por ordem de criação, ficando o 1º e o 2º, criados na cidade de Juiz de Fora, sob a direção de um único diretor, José Rangel, o 3º, o Grupo Escolar de Lavras, e o 4º, o 5º e o 6º Grupos Escolares presentes nas cidades de São João Nepomuceno, de Arassuay e Passa Quatro.
36 O discurso inaugural de Firmino Costa foi impresso pelo Governo do Estado, que distribuiu várias cópias para as outras escolas primárias como incentivo para os trabalhos. Daí seguiu-se a impressão de todos os seus relatórios até 1917, como também vários livros escritos por ele.
homem forte, bom, instruido e trabalhador, util a si, á familia e á patria. Para esse effeito impende ao professor, principalmente com seu exemplo, infundir nos alumnos aversão ao vicio e amor á virtude; cumpre-lhe dar aos discipulos conhecimentos uteis e ensinar a elles o trabalho methodico. (VIDA ESCOLAR, p. 2, 15 maio 1907)
Para Firmino Costa, a construção de um cidadão republicano forte e saudável, apto para o trabalho e para o progresso da Pátria, dependeria de um esforço em conjunto, realizado entre o diretor, professores, alunos e comunidade, e dessa relação resultaria a aceitação, o desenvolvimento e o progresso do Grupo Escolar de Lavras. A base desse empreendimento, para ele, era o novo programa do Ensino Primário cuja finalidade não era simplesmente ensinar a ler, a escrever e a contar, como se fazia na instrução primária anterior à reforma de 1906, mas instruir, educar e dar uma profissão. Vago percebe nessa “tríade educativa” uma nova cultura escolar que se queria ir introduzindo nas práticas sociais, para civilizar o ignorante, produzindo um cidadão ordeiro: “Revela-se uma pretensão de fazer com que essa cultura invadisse as entranhas mais remotas da vida das crianças, para nelas tentar implantar novos comportamentos, fundar novas sensibilidades, produzir outra corporeidade.” (VAGO, 2002, p. 59)
O diretor assumiu o compromisso de desenvolver um curso profissionalizante que oferecesse aos jovens conhecimentos úteis e que os habituasse a trabalhar metodicamente, antecipando as vantagens que o curso traria: “De sorte que no futuro lhes será mais facil conquistar uma posição na sociedade”, quando terão se desenvolvido fisicamente e aprendido “as necessarias noções de hygiene para a conservação da saude”, conhecendo os preceitos morais, “que lhes hão de inspirar bons habitos e o cumprimento do dever.” (VIDA ESCOLAR, p. 2, 15 maio 1907)
Convocando a comunidade a ajudá-lo na direção do Grupo Escolar, seja por meio da experiência ou pelo entusiasmo que muitos demonstravam pela educação popular, Firmino
Costa instou a todos a “conhecer as vantagens do Grupo Escolar, porque desta fórma todos se convencerão de que é de seu proprio interesse auxiliar, prestigiar, engrandecer e prezar este estabelecimento de ensino, onde se vae formar, em grande parte, o caracter do povo lavrense.” (VIDA ESCOLAR, p. 2, 15 maio 1907)
Diversas autoridades fizeram-se presentes na inauguração do Grupo Escolar: o juiz de Direito, dr. Alberto Luz, representando o secretário do Interior, Carvalho Brito, que não pôde comparecer; o dr. Gomes Pinheiro, promotor de Justiça; os tenentes Alfredo Lacerda e Gastão Maia, juízes de paz; o Poder Legislativo federal, representado por Lamounier Godofredo; e os representantes da Câmara Municipal, Pedro Sales (presidente), dr. Álvaro Botelho (vice- presidente) e dr. Zoroastro Alvarenga (secretário); o delegado de higiene, dr. Costa Pinto e o delegado de polícia, tenente Urbano de Mesquita; o capitão Augusto Sales, provedor da Casa de Misericórdia; os inspetores técnicos João Batista Maciel (de Lavras), Octaviano Alvarenga (de Perdões) e o tenente-coronel Manoel Hermeto, inspetor escolar municipal; o diretor do Ginásio de Lavras, dr. Gammon, acompanhado pelo dr. Christiano Silva (fiscal do Ginásio); Azarias Ribeiro, diretor da Escola Normal; Francisco Marafelli, representante da sociedade M. S. Victor Emanuel III; o diretor do jornal Folha de Lavras, Azarias Ribeiro Junior; e os “alumnos da Escola Normal incorporados, diversos professores, representantes de outras classes, muitas familias e grande numero de povo.” (VIDA ESCOLAR, p. 2, 15 maio 1907)
Essas representações mostram que a inauguração do Grupo Escolar foi um evento que atraiu a atenção de muitos, e que várias autoridades de órgãos públicos estiveram presentes e apoiavam a reforma da instrução produzida pelo governo de João Pinheiro. Muitos usaram a palavra, dentre os quais o vice-presidente da Câmara, dr. Álvaro Botelho, que recordou a parceria feita entre o município e o Governo Estadual, que culminou na efetivação da “[...] grande obra da reorganização do ensino, promessa dos precursores da Republica, que teve
neste município dois de seus primeiros propagandistas – Martins de Andrade e Francisco Salles”.37
Embora estivessem presentes muitos representantes dos órgãos públicos no ato da inauguração do Grupo Escolar, uma significativa ausência percebeu-se: a Igreja Católica. Seria pelo fato de não ser previsto o ensino religioso no novo instituto educacional?
Fundamentando-se no princípio da liberdade e na Constituição republicana, Firmino Costa informou que o Grupo Escolar não ensinaria uma religião específica, dizendo ser de inteira responsabilidade dos pais ensinar aos filhos uma doutrina religiosa. Talvez isso explique a ausência de autoridades católicas como padres e representantes do Colégio católico Nossa Senhora de Lourdes, no ato de inauguração do Grupo Escolar.
A expectativa de ver o Grupo Escolar de Lavras tendo sucesso e desenvolvendo-se a partir da competência e dinamismo de seu primeiro diretor, trouxe-lhe certa insegurança que ele deixou transparecer no discurso inaugural do Grupo, publicado no boletim Vida Escolar de 15 de julho de 1907:
[...] Quanto a mim, poderei dar a este estabelecimento de ensino uma direcção que o torne equiparavel aos seus congeneres de nosso Estado? Só o tempo poderá responder. Si eu, porêm, attingir a esse alvo, bem o sei, não será por meu exclusivo esforço, mas devido principalmente ao nosso meio social. Esta atmosphera de paz e de moralidade, que se respira em Lavras, é em extremo favoravel á educação popular. Num meio tão apropriado não poderá deixar de desenvolver-se esta casa de educação. O povo lavrense comprehenderá que é delle o Grupo Escolar e tratará este estabelecimento como uma de suas mais valiosas propriedades. Elle virá auxiliar minha direcção com sua experiencia e com seu enthusiasmo pela educação do povo. E é o que eu espero – que useis para commigo de toda a franqueza naquillo que for a bem do Grupo Escolar, porque neste meu posto não terei outra vaidade sinão, a de servir ao povo de Lavras, sendo meu único objectivo a educação dos pequenos lavrenses [...]. (VIDA ESCOLAR, p. 3, 15 maio 1907)
37 Martins de Andrade era natural de Uberaba MG, formado em advocacia pela Faculdade de São Paulo, casou-se com uma lavrense. Foi deputado estadual na legislatura de 1888 a 1889, vereador e presidente da Câmara
No boletim Vida Escolar encontra-se uma comunicação significativa entre o secretário do Interior e Firmino Costa, depois da inauguração do Grupo Escolar de Lavras, quando Carvalho Brito, impossibilitado de comparecer, enviou um telegrama com os seguintes dizeres: “Coronel Firmino Costa, Director do Grupo Escolar. Retribuindo congratulações espero de sua competencia que o ensino n’esse município terá êxito esperado. Saudações. Carvalho Britto.” (VIDA ESCOLAR, p. 3-4, 15 maio 1907)
Encerrando a sessão, discursou o Dr. Alberto Luz, expondo as vantagens de se ter um Grupo Escolar na cidade. Elogiou o Dr. Francisco Salles, mostrando que esse lavrense teve uma participação efetiva nessa conquista e concluiu seu discurso “externando num viva seu verdadeiro apreço á Câmara Municipal e ao povo lavrense.” (VIDA ESCOLAR, p. 3-4, 15 maio 1907)
A corporação musical Lyra Lavrense acompanhou a festa e o momento foi registrado por “photographias de ambos os predios do Grupo com todos os professores e alumos presentes.” (VIDA ESCOLAR, p. 1, 15 maio 1907)
A fotografia a seguir mostra o dia de instalação do Grupo Escolar, tirada no pátio. O diretor Firmino Costa está de terno branco à esquerda (no círculo):
FOTO 5 – Título original: Parte interna do Grupo Escolar de Lavras – O pátio com as salas ao fundo, protegidas por uma varanda.
A foto é rica de sentidos e significados: no pátio interno, de terra batida, os alunos, quase todos descalços, com ou sem chapéu, acompanhados pelo diretor Firmino Costa. Ali, receberiam educação moral, intelectual e física; ali eles se tornariam cidadãos republicanos.
Estava instalado o Grupo Escolar de Lavras!
1.6 VIDA ESCOLAR: O BOLETIM QUINZENAL DO GRUPO ESCOLAR DE