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No início do século XX, um novo concorrente do Catolicismo e do Protestantismo entrou em cena, provocando profundas alterações no cenário religioso, principalmente nas Américas e, posteriormente, nos demais continentes: o Pentecostalismo. Este movimento surgiu dentro do Protestantismo, nos Estados Unidos, no ano de 1906, e espalhou-se rapidamente por toda a América, conquistando adeptos tanto do Catolicismo quanto do Protestantismo.

Na segunda metade do século XIX, o movimento de santidade (holiness), inspirado pelo avivamento metodista do século XVIII, promovido por John Wesley, expandiu-se rapidamente nos países de língua inglesa e penetrou em diversas denominações. 67 Além disso, esse movimento produziu uma variedade de pequenos grupos que buscavam uma experiência mística com o sagrado, acrescentando-se também uma grande expectativa de que o iminente fim do mundo, com a volta de Jesus, fosse precedido por um grande avivamento, tal como ocorrera na Igreja primitiva.

O Pentecostalismo, como movimento distinto, teria se originado no começo do século XX, em uma escola bíb lica dirigida por Charles Parham, em Topeka, Kansas,

65 LEONARD, Émile G. Ibid. p. 140. 66 Idem. Ibid. p. 142.

67 FRESTON, Paul. Breve história do Pentecostalismo brasileiro in Nem anjos nem demônios:

onde a glossolalia (falar em línguas estranhas) era a evidência do “batismo com o Espírito Santo”.68 Parham organizou grandes reuniões em diversas cidades nas quais os participantes se converteram, se santificaram, se curaram das enfermidades e se batizaram do Espírito Santo. Porém, segundo Freston, o estopim do movimento pentecostal ocorreu com um negro chamado W. J. Seymour.69 Ele havia nascido como escravo, era cego de um olho e trabalhava como garçom. Em 1906, Seymour foi convidado a pregar em uma igreja negra holiness em Los Angeles. Nesta reunião ele pregou sobre o fenômeno do “batismo com o Espírito Santo”, acompanhado pela manifestação da glossolalia.

Após esse convite, Seymour alugou um velho templo metodista na Azusa Street para dar início à sua obra missionária, denominado de “Missão de Fé Apostólica”. Inicialmente o movimento era composto apenas por negros, mas devido ao sucesso, muitos brancos passaram a se juntar ao grupo. Pastores brancos, de várias partes do país, iam a Los Angeles para participar das reuniões, juntamente com os líderes negros. Porém essa convivência não durou muito tempo e o movimento pentecostal começou a fragmentar-se em grupos independentes, separados por questões doutrinár ias e raciais.

No Brasil, o Pentecostalismo instalou-se logo após o fenômeno ocorrido nos Estados Unidos.70 No ano de 1910, Luigi Francescon, um pregador ítalo-americano, fundou junto à colônia de italianos, em São Paulo e Paraná, a Congregação Cristã no Brasil. Em 1911, dois missionários suecos, chamados Daniel Berg e Gunner Vingren, iniciaram, em Belém do Pará, um trabalho de avivamento denominado “Missão Fé Apostólica”, que em 1918 adotou o nome de Igreja Assembléia de Deus. O Pentecostalismo, a partir de meados da década de 50, teve várias ramificações, ocasionando o surgimento de uma grande variedade de igrejas pentecostais, tais como: Igreja do Evangelho Quadrangular (1953), Igreja Pentecostal “O Brasil para Cristo” (1956), Igreja de Nova Vida (1960), Igreja Pentecostal “Deus é Amor” (1961), Casa da Bênção (1964), Metodista Wesleyana (1967) e uma enorme quantidade de pequenas denominações.

68 HOLLENWEGER, Walter. El Pentecostalismo: historia y doctrinas. Buenos Aires - Argentina:

Editorial La Aurora, 1976. p. 8.

Paul Freston classifica o movimento pentecostal brasileiro em “três ondas”, a partir de um corte histórico institucional. 71 A “primeira onda” se iniciou, para ele, na década de 1910, com o surgimento da Congregação Cristã (1910) e da Assembléia de Deus (1911). Estas duas igrejas permaneceram durante 40 anos como únicas representantes do movimento pentecostal no campo religioso brasileiro. A “segunda onda” pentecostal, dentro de um contexto paulista, foi a dos anos 50 e início dos anos 60, quando ocorreu a fragmentação do campo pentecostal e surgiram as denominações: Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Pentecostal “O Brasil para Cristo” e Igreja Pentecostal “Deus é Amor”. A “terceira onda” começou no final dos anos 70 e início dos anos 80, dentro de um contexto carioca, com o surgimento da Igreja Universal do Reino de Deus e da Igreja Internacional da Graça de Deus.

Leonildo Silveira Campos observa que a convivência dos protestantes históricos com os pentecostais brasileiros não tem seguido um padrão uniforme.72 Os presbiterianos, entre outros, olhavam os pentecostais com desprezo, considerando-os como “fanáticos” e praticantes de uma “religiosidade inferior”. À medida que o Pentecostalismo multiplicava a quantidade de seus adeptos, o desinteresse passou a se tornar uma competição raivosa. Nesse período, multiplicaram-se nos jornais evangélicos os números de artigos contra os pentecostais. A maior reação ocorreu nos anos 60, com o surgimento do Pentecostalismo de “segunda onda” ou de cura divina. A despeito de todos os esforços empreendidos pelos protestantes, nada impediu a debandada de seus membros em direção ao Pentecostalismo. Assim, o Protestantismo tradicional brasileiro, desde 1950, tem sofrido inúmeras derrotas para o movimento pentecostal.

Segundo Campos, o Protestantismo histórico fazia da cultura letrada o seu centro articulador, enquanto que o Pentecostalismo tem se dado bem com a cultura oral, desvinculada do sistema escolar. No Brasil, onde milhares de pessoas são consideradas analfabetas, torna-se mais fácil atingi- los pelos meios de comunicação de massa. O Protestantismo, até hoje, insiste em uma educação cristã e teológica fortemente teóricas, centradas na literatura. O Pentecostalismo, ao contrário, treina comunicadores e ativistas

70 GUTIERREZ, Benjamim F. e CAMPOS, Leonildo Silveira. Na força do Espírito: os pentecostais na

América Latina: um desafio às igrejas históricas. São Paulo: Pendão Real / AIPRAL, 1996. p. 84.

71 FRESTON, Paul. Ibid. p. 70-71.

de auditório, que dirigem o culto tal como um espetáculo encenado em um palco. Essa visão do culto -espetáculo foi uma estratégia adotada pelos pentecostais, tendo como modelo os tele-evangelistas norte-americanos, que foram sucesso na década de 70 nos Estados Unidos.73

Para Campos, o Pentecostalismo de “terceira onda” reflete o deslocamento da cultura e das instituições tradicionais, e dessa forma a produção, circulação e distribuição de bens religiosos se inserem dentro de uma lógica que fez do rádio, da televisão e dos templos como eficientes pontos de venda. Neste vasto “supermercado religioso”, os pastores e missionários desempenham o papel de técnicos de marketing e especialistas em estratégias de vendas. Para facilitarmos nossa compreensão em termos de classificação, denominaremos essa “terceira onda” do Pentecostalismo, juntamente com as mudanças ocorridas dentro do campo religioso brasileiro, de Neopentecostalismo.

Benzer Belgeler