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Esse fato também pode ser observado no caso do neopentecostalismo, já a partir dessa nominação. O termo “neopentecostal” significa literalmente “novo pentecostal”. Seria, portanto, um novo tipo, ou uma nova forma de ser pentecostal, o que por si, já indica duas coisas a respeito dessa expressão religiosa: ela mantém certas características do pentecostalismo, porém agrega novos elementos que o tornam distinto dele. Este é um bom ponto de partida para o estudo do neopentecostalismo, ou seja, a identificação dos traços que ele tem em comum com o pentecostalismo e daqueles que representam uma inovação ou modificação.

Antes, porém, de seguirmos esse caminho, deve-se destacar que essa designação não está fixada e não é utilizada universalmente, nem no meio sociológico, nem no próprio meio religioso. Mendonça (1992) utiliza como sinônimos os termos “pentecostalismo de cura divina”, “neopentecostalismo” e “pentecostalismo autônomo”. Oro (1996) aplica o termo para se referir às seguintes igrejas: Casa da Bênção, Pentecostal Deus é Amor, Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus e Renascer em Cristo. O critério utilizado foi o fato de terem nascido no Brasil, isto é, não foram implantadas aqui por igrejas já existentes em outros países, e por apresentarem características próprias que as distinguem das pentecostais,

ainda que sigam, à sua maneira, os fundamentos doutrinários do pentecostalismo tradicional. Oro apresenta os seguintes aspectos comuns a pentecostais e neopentecostais:

Religião de camadas mais baixas da população,

Exclusivismo, ou pouca inclinação à tolerância religiosa e ao ecumenismo,

Emocionalismo, que consiste no uso e no incentivo de expressões emocionais nos cultos e na experiência pessoal,

Espiritualização da realidade social, que Oro chama de atribuição de um sentido ideológico aos problemas e angústias das pessoas, que consiste numa “explicação transcendental para sua origem, em especial uma demonização dos problemas sociais” (1996, p. 52).

Os traços característicos do neopentecostalismo, que o distinguem do pentecostalismo são os seguintes, segundo Oro:

Líderes fortes: os fundadores das igrejas neopentecostais saíram de igrejas pentecostais ou de protestantes históricas, legitimando seu procedimento a partir de uma inspiração divina. Como líderes carismáticos, exercem um acentuado controle doutrinário e administrativo-financeiro sobre as igrejas e pastores sob sua jurisdição. Sua imagem e de sua família é divulgada em “santinhos”, fotografias, cartazes, capas de discos e de livros, o que expande o seu prestígio e reconhecimento por parte dos seguidores.

Liberalismo: as igrejas neopentecostais abandonaram as exigências de usos e costumes que estavam presentes nas pentecostais. Os fiéis podem acompanhar, até certo ponto, os hábitos da sociedade em geral, com relação ao modo de se vestir, ao uso de adornos e cosméticos femininos. O neopentecostalismo não proíbe o usufruto de bens deste mundo e alguns de seus prazeres. Não há proibições legalistas, mas sim uma flexibilização ética e estética, em relação à rigidez tradicional e ao repúdio ao “mundo”, rigidez característica do pentecostal. A aceitação de elementos do mundo se estende também aos recursos tecnológicos modernos. O neopentecostalismo, ao contrário do pentecostalismo, não só aceita, como utiliza fartamente os meios de comunicação de massa. Essa abertura ao mundo e sua cultura também se verifica na assimilação de estilos e instrumentos musicais em voga na sociedade, como, por exemplo, o movimento gospel.

Cura divina: o pentecostalismo já dava ênfase à cura divina, mas o neopentecostalismo desenvolveu um enfoque fortemente dualista: as doenças são causadas pelos demônios, para atacar as obras de Deus. Assim, a cura é, na verdade, um exorcismo, ou libertação, como costumam dizer, libertação do domínio do diabo. O demônio ocupa um lugar central no neopentecostalismo: ele é a explicação não somente de doenças, mas de outros males, como o

desemprego, os sofrimentos em geral, os males sociais, os vícios, problemas afetivos, econômico-financeiros, etc. O culto neopentecostal é o palco no qual os poderes do mal, sob a representação dos demônios, são confrontados e vencidos pelo poder do Bem, isto é, de Deus. O indivíduo é desculpabilizado, pois o diabo é o verdadeiro responsável pelo mal. A cura/libertação é alcançada pela fé, que tem uma tríplice dimensão: crença do pastor em seus poderes, crença do fiel nos poderes do pastor, ou líder religioso e na eficácia do ritual que o líder preside e - como terceira dimensão – a crença do grupo religioso presente, o qual cria a “atmosfera favorável à eficácia terapêutica” (ORO, 1996, p.59).

Utilização dos meios de comunicação de massa. O uso intenso da mídia, sobretudo do rádio e da televisão, permite que as igrejas neopentecostais possam ser chamadas de “Igrejas Eletrônicas Brasileiras” (p.61), embora nem todas façam uso desses meios. Oro faz um comparativo com as igrejas pentecostais e as protestantes históricas e conclui que “as igrejas evangélicas históricas trabalham mais com a palavra enquanto que as pentecostais mais com a imagem” (p.66).

Modelo empresarial: as igrejas neopentecostais são estruturadas segundo um modelo empresarial, adotando, portanto, a lógica capitalista:

Possuem uma organização administrativa hierárquica, esperam aumentar sempre mais o seu patrimônio, mantêm uma divisão social do trabalho religioso e administrativo, colocam no mercado serviços e bens simbólicos que são adquiridos mediante pagamento e sustentam uma relação concorrencial com as outras ‘empresas de salvação’ atuantes no mercado religioso nacional (p.70).

Essa característica não é exclusiva do neopentecostalismo, mas, comparado com outras organizações religiosas, ela se destaca fortemente. Também abordaremos mais à frente com maior profundidade esta característica, que o coloca como uma forma de religião amplamente adaptada à cultura e à lógica modernas, em diversos aspectos.

Oro considera a Igreja Pentecostal Deus é Amor como uma igreja neopentecostal. Entretanto, a ela não se aplica uma das características do neopentecostalismo por ele apontada – o liberalismo. Nela estão presentes as mesmas exigências éticas de santidade referentes ao vestuário, corte de cabelo, etc., típicas do pentecostalismo clássico ou tradicional. Por outro lado, a essa igreja podem ser aplicadas todas as demais características neopentecostais apontadas por Oro. Há exemplos de igrejas que possuem todas as características citadas por Oro, exceto a utilização da mídia. Porém, é possível que não o façam por circunstâncias locais e financeiras, e não por rejeição essencial de sua utilização. Quanto à fo rça da figura dos líderes, pensamos que essa característica pode ser verificada em algumas igrejas neopentecostais, não em todas. O próprio Oro atesta que nem todos os pastores ou líderes de

uma mesma igreja neopentecostal possuem a mesma força de liderança carismática de seus fundadores, ainda que, como regra geral, os considerem como modelos.

Em suma, os neopentecostais em geral não impõem uma regra de vestir, não proíbem às mulheres o corte do cabelo, nem o uso de calças ou de cosméticos. Ao contrário, até incentivam o bom trato da aparência pessoal, praticam esportes, utilizam-se de entretenimentos, como cinema, televisão e, diferentemente dos pentecostais tradicionais, os neopentecostais têm assumido abertamente posições políticas, apoiando candidatos a cargos eletivos, ou lançando candidatos publicamente identificados com o seu grupo religioso. Essa não é uma definição completa e precisa, mas serve para dar uma idéia geral do tipo de pentecostalismo que, surgido a partir da década de 70 do século passado, tem crescido e obtido visibilidade social em nosso país. Os principais grupos representantes do neopentecostalismo, são, para citar apenas alguns: Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Apostólica Renascer em Cristo, Igreja Universal do Reino de Deus, Comunidade Sara Nossa Terra, Igreja Nacional Palavra da Fé e outras.

Vê-se pela exposição acima que a definição de neopentecostalismo não é algo tão simples. A categorização de neopentecostal não pode ser definida pela exigência da apresentação simultânea, completa e exterior de todas as cinco características citadas por Oro. Apesar disso, cremos que podemos tomá-las como um bom ponto de partida para ajudar-nos a compreender de modo geral o que é o neopentecostalismo e quais as suas características mais importantes. Todas as características, de uma ou de outra maneira, estão ligadas estreitamente ao tema deste trabalho, ou seja, o exercício e as relações de poder no interior do neopentecostalismo e seu papel no processo de fragmentação típica da modernidade.