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Um bom exemplo de artear e de reapropriação dos espaços, tornando-os territórios arteantes, são as intervenções poéticas da multiartista Civone Medeiros, que de vez em quando empresta suas intervenções à atmosfera do Beco da Lama. Em uma de suas intervenções mais recentes, a artista desenhou no chão do Beco (rua Doutor José Ivo), com ajuda dos que passavam no local e mais alguns amigos, um punhado de estrelas, incitando em nosso pensamento a idéia de que a fama que o Beco respira seria tão somente aquela praticada pelas pessoas e pelos artistas que de lá tiram suas noites para construir suas próprias constelações.

Figura 21 - Civone Medeiros realiza intervenção poética, pintando o chão do Beco da Lama com estrelas.

Fonte: <http://www.youtube.com/watch?v=FcNXk1oNkbo>acessado em outubro de 2013.

Conhecemos a artista Civone Medeiros no ano de 2013, justamente no Beco da Lama, mais precisamente no bar “A Toca”. Caminhávamos com o artista plástico Marcelu’s Bob, quando encontramos Civone e o compositor Romildo Soares que em muitos momentos nos acompanhou nesse projeto apresentando-nos algumas facetas do Beco. Conversamos algo sobre os fatos corriqueiros do Beco; logo em seguida, dirigimo-nos ao Bardallo’s para continuar a noite. Assim, entre conversas e bebedeiras, íamos vivendo a noite daquele território e percebendo como se dava o funcionamento daquele espaço, sabendo como e por que a atração de alguns personagens artistas para com aquele ambiente era tão forte, e, ao mesmo tempo, vendo que era forte também a atração que eles exerciam nos demais.

Figura 22 - Calçada da Fama, de Civone Medeiros

Fonte: <http://www.youtube.com/watch?v=FcNXk1oNkbo>.

Retornemos à expressividade do Beco, através de Civone e seu apreço por esse território; mais do que isso, seu devir-beco, devir-artista:

Eu não estou dentro do Beco da Lama, eu não passo pelo Beco da Lama eu não sou o chão do Beco da lama eu não estou embaixo do Beco da Lama. A verdade é que o Beco da Lama sou eu (informação verbal)59.

No período em que encontramos essa artista, ela estava expondo algumas de suas poesias em cordões em alguns espaços do Beco da Lama. Nos cordões, alguns recortes de tecidos viravam telas que acolhiam criações poéticas, onde, mais do que dizer algo com palavras, expressavam pensamentos em cores numa poética singular. Ela nos trazia inventividades sobre o amor, liberdade, desejo e coragem como em uma de suas criações em retalhos: “Amo como quem não teme”60.

A proposta poética de Civone não nos surgiu como informativa, mas transformadora. Seus varais poéticos, suas pichações, suas estrelas, operaram como mecanismos que incitariam criações nossas também.

Figura 23 - Poema de Civone Medeiros exposto no Bardallo´s.

Fonte: Marcilio Façanha, 2013.

Epistoles poéticas como as das figuras 22 e 23 ficavam expostas para serem vistas, mas também se encontravam à venda para todos. Civone nos dizia que vivia apenas do dinheiro que ganhava com algumas de suas intervenções artísticas e que havia abdicado de empregos formais. Ainda segundo a artista, o dinheiro que ela precisava para suas necessidades materiais a arte supria. Cada tecido poético era vendido, em média, pelo preço de dez reais, mas esse valor podia variar de acordo com sentimento que cada pessoa expressava na aproximação com as obras, podendo haver ainda situações em que a artista preferia não vender para determinado comprador, ou mesmo oferecer gratuitamente para outro.

60 Conferir Figura 26

Figura 24 - Varal poético de Civone Medeiros.

Fonte: Civone Medeiros, 2013.

Civone nos disse que ela “era o Beco”, mas não necessariamente seria aquele “Beco”, mas a expressividade que o território Beco transpirava. Ali seria, para ela, uma demarcação de sentimentos de acolhimento. Ainda segundo Civone, os artistas não escolheram o Beco, mas o Beco se encontra com o caminhar deles.

Podemos então entender que é na vivência do lugar que se pode ir construindo a possibilidade de viver e conviver com todos e com tudo, e a vivência praticada no Beco passou a ser instigante para os artistas e, por que não, para a cidade. A poetisa enfatiza que o Beco já foi o lugar da lama; agora, passou a dar também fama a alguns.

O Beco é imenso, ele tem vidas diversas. O comercio surgia na Avenida Rio Branco, as famílias empoderadas moravam aqui. E para onde iam os entulhos, os dejetos? Onde era a porta dos fundos? O Beco. Por isso é que chama-se da Lama. E hoje o Beco da Lama tem muito mais fama do que lama. Tem muito mais alma. Ele é acolhedor, ele liga, ele interconecta diversas escamas da sociedade, do alto político ao cara ao Léo, da mulher passante, da dama (informação verbal)61

Civone Medeiros não é conhecida somente no Beco, mas, conforme constatamos no período da pesquisa, é referenciada por várias pessoas que têm alguma informação sobre as cenas artísticas undergrounds da cidade de Natal. Em seu blog62 nos é informado o interesse da poetisa de que suas expressões sejam acessíveis às pessoas, por isso a escolha de imprimir

61 Declarações de Civone Medeiros cedida a pesquisa no ano de 2013. 62

as manifestações poéticas também em pequenos pedaços de tecido de baixo custo e de fácil manuseio. 63

Vimos que o Beco da Lama opera, tal como anunciou anteriormente a poetisa, como um lugar que acolhe pessoas e expressões poéticas. Não foi por acaso que encontramos Civone Medeiros pelas ruas do Beco, assim como a arte também não agiria ao acaso, mas sim provocada por situações que aguçaram nossa visão e nosso pensar.

Sentindo a dinâmica do Beco, nos perguntamos se os processos de institucionalização não acabariam por promover, junto aos seus dispositivos, o que Agamben (2012) chamaria de “dessubjetivação” (AGAMBEN, 2012), caracterizando, com isso, a ocultação do undergrond, dos acasos, do acolhimento informal etc. Se dispositivos de institucionalização incitariam os afastamentos das sensações que se constroem nos espaços undergrounds, pensamos se “contra-dispositivos”, continuando ainda com Agamben(2012) permitiriam recriar essas sensações e incitar uma produção singular de si, e, até mesmo, um reengajamento de processos artísticos vindos dessas vivências undergrounds, dos excessos e comportamentos desviantes, como construtores de vivências e territorialidades. Ainda para Agamben(2012) um contra-dispositivo viria em forma de profanação dos aparatos institucionais. Talvez, não por acaso, a fama de lugar de profanação é uma das características creditadas ao Beco .

Figura 25 - Poesia de Civone Medeiros em um dos quadros no espaço do Bardallo's.

Fonte: Marcilio Façanha, 2013.

63 A artista compartilha ainda vivências num um bairro próximo ao Beco da Lama, no espaço “LAB com

Vivências” (Laboratório Criativo de Convivência), onde ocorrem oficinas de estamparia e protagonismo poético destinado a todos que o visitem.

Figura 26- Escritos poéticos de Civone Medeiros que foram postos em exposição no Bardallo’s em Setembro de 2013.

Fonte: Marcilio Façanha, 2013.

Benzer Belgeler