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Ao abordar gênero e informação invariavelmente esbarra-se na pergunta: há uma linguagem própria para cada gênero? Não se pode ignorar o poder da linguagem e do envolvimento desta com o poder, seja ele masculino ou feminino, o que não quer dizer que se possa afirmar que mulheres e homens se utilizem de linguagens distintas. A palavra é símbolo de poder e forma de acesso à esfera pública. Sendo assim, apropriar-se do discurso é dominá-lo, apropriar-se do mundo.

Na década de 1970 foram inúmeras as frentes feministas que defenderam a existência de uma linguagem própria das mulheres, que não era reconhecida e legitimada, ou melhor, era tida como inferior à dos homens. Hoje se percebe que essa posição envolveu um gesto político, na tentativa de diferenciar eles delas, porém não há evidências da existência de uma marca linguageira em cada ser em decorrência de seu sexo biológico.

Do contrário, se há uma diferença, ela pode ser encontrada nos estilos, nas estratégias e nos contextos de desempenho linguístico. Ou seja, o que mais influencia as possíveis diferenças são as condições, em que elas e eles constroem suas linguagens, que dependem do contexto social, político e cultural em que cada indivíduo está inserido.

Segundo relata Burke (1995), a partir de movimentos sociais como o feminismo, parte da ciência passou a reconhecer de forma mais clara a linguagem como sendo uma instituição social, cultural e da vida cotidiana repleta de ideologias, um instrumento em potencial nas mãos da classe dominante, que a utiliza tanto para controlar quanto para comunicar. “A língua comum, dominada pelo masculino, não só expressa o lugar subordinado das mulheres, mas, também, as mantém em uma posição de subordinação” (BURKE, 1995, p. 44). Para Showalter (1994, p. 50), toda a linguagem pertence à ordem dominante e não pode haver escrita crítica fora dessa estrutura. “Nenhuma publicação é totalmente independente das pressões econômicas e políticas da sociedade dominada pelos homens”. Ou seja, não que a linguagem seja masculina ou feminina. O fato é que ela pode ser dominada ou ser artifício de dominação de um ou de outro.

Os movimentos de mulheres procuraram e ainda procuram não apenas torná- las presentes e atuantes na história, como, também, escrever acerca do passado da humanidade sob o ponto de vista feminino. Buscam provar que um mesmo evento

pode ser visto e descrito por mais de um ponto de vista a partir de diversas perspectivas e percepções, descobrir que há relação entre linguagem e ideologia. Para Gergen (1993), a crítica feminista62 considerou as reivindicações do conhecimento como compromissos discursivos dependentes do processo social e constitutivo do padrão social.

O reconhecimento das formas de poder associadas à linguagem e ao conhecimento, ocorrido a partir da década de 1970, trouxe novas perspectivas sociais. A realidade sobre a mulher sofreu profundas transformações a partir do momento em que as possibilidades de participação feminina nos campos decisórios foram ampliadas, fruto tanto de uma conscientização quanto de uma vontade coletiva.

Showalter (1994) sugere que, ao longo da história da humanidade, foi negada às mulheres a totalidade dos recursos da língua, forçando-as ao silêncio, ao eufemismo e ao circunlóquio. Para a autora, essa relação com o campo linguístico, marcada pela repressão, impõe o silêncio à mulher e impede que a consciência feminina se revele.

Machado (2006, p.61) não compartilha das teorias que concebem o discurso, suas lacunas e silêncios, enquanto prisão da língua.

Distancio-me de uma concepção de língua fechada, estática e isenta daquilo que estaria fora dela. [...] a resistência na materialidade linguística se caracteriza justamente pela falha, pela equivocidade que são constitutivas da língua e, consequentemente, do sujeito e do seu discurso.

A autora realizou um estudo com objetivo de investigar a dualidade masculino-feminino e sua relação com a escrita pelo viés discursivo. Pediu a um grupo de pessoas que lesse um corpus constituído por cartas de leitores e textos de opinião publicados em jornais, desprovidos de assinatura, e deduzisse a que sexo pertencia seu autor. O grupo deveria também expressar sua opinião sobre o que caracteriza uma escrita quanto ao gênero. A pesquisa ratificou o fato de a autoria poder ser assumida por sujeitos múltiplos e, por isso, pensar a escrita como capaz de representar o gênero de quem a produziu discursivamente não se sustenta.

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A crítica feminista não é uma criação intelectual única, mas coletiva, dependente de muitas correntes diversas do pensamento intelectual. Compartilha perspectivas com as escolas de pensamento interpretativo. Fonte: GERGEN, Mary Mc Canney. O pensamento feminista e a estrutura do conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1993. p. 111.

Strathern (1999) vai ainda mais longe ao afirmar que o que homens e mulheres fazem com a linguagem mostra como o fazer é constrangido por relações de poder existentes. Não seria a linguagem a opressora, mas as formas econômicas, políticas e discursivas que controlam acessos diferenciais.

A forma como a linguagem é usada surge, então, como um reflexo das relações sociais. “Somente quando houver igualdade social, mulheres e homens serão capazes de usar um mesmo estilo interativo” (COULTHARD, 1991, p. 74). Essa ideia é compartilhada por especialistas, como Leitão (1988, p. 81), para quem “mudanças sociais acarretam uma mudança na linguagem, e não o contrário. Em qualquer movimento social, quando alterações são feitas, mais cedo ou mais tarde, refletirá o fenômeno”. Ela lembra que, frequentemente, novas palavras são adicionadas à língua; porém, os pronomes e a concordância nominal são classes inalteradas há anos.

Um episódio recente na história do Brasil comprova a dificuldade que é modificar aspectos linguísticos já enraizados, até porque eles envolvem questões que vão além da própria língua. A eleição de Dilma Rousseff, no final de 2010, para presidir o Brasil lançou uma questão de cunho linguístico, semântico e de gênero: denominá-la presidente ou presidenta? Gramáticos e acadêmicos, em seus pareceres amplamente publicados pela mídia, explicaram que a terminação nte vem do latim e é comum nas línguas neolatinas, como o português, o espanhol e o italiano. Ela indica o executor de uma ação, normalmente tornando a palavra invariável quanto ao gênero. É o chamado substantivo de dois gêneros, o que torna ambas as formas corretas. Cipro Neto citado por França (2011, s. p.), em texto publicado no site da revista Época, disse que a língua é construída diariamente, pelo uso que dela fazem aqueles que a falam e escrevem.

Se até hoje a forma ‘a presidente’ esteve disseminada na imprensa e na literatura brasileiras e espelhou uma realidade quase sem mulheres, um cenário protagonizado por uma delas pode inaugurar uma tendência, a das presidentas. Vai ser o uso que de fato vai definir o termo.

Para Sarney (2011, s. p.), “a forma tradicional, comum de dois gêneros, não tem nenhum sentido discriminatório. Mas presidenta tem mais um peso político que linguístico”. O peso político prevaleceu no caso de Dilma Rousseff. Já na nação vizinha, Argentina, Cristina Kirchner faz questão de ser la presidenta.

Valério (2000) cita a visão de alguns especialistas63 que veem a linguagem não só como reflexo da realidade, mas, também, como elemento determinante dessa realidade. Para eles, a descrição da assimetria nas relações linguísticas pode incitar mudanças no comportamento linguístico, o que, por sua vez, pode trazer mudanças nas relações sociais.

A pesquisadora estudou até que ponto o discurso da mulher, como reflexo de seu papel de gênero, é afetado pelo seu meio social. Percebeu que, à medida que a mulher ganha maior circulação em redes sociais64 do domínio público, se afasta de um falar da esfera do lar, tido como pouco assertivo e demasiadamente íntimo para outros campos de atividade, para se adaptar às normas interativas do meio público.

Já Xavier (1990) prefere dizer que não existe um discurso masculino, porque não existe condição masculina, não podendo o mesmo ser dito quanto ao feminino. A autora estudou a linguagem na obra de escritoras como Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Rachel Jardim, Lya Luft, Adélia Prado e encontrou uma ótica comum entre elas.

A condição feminina vivida e transfigurada esteticamente é um elemento estruturante nos textos destas autoras. Não se trata de um simples tema literário, mas da substância mesma que nutre a narrativa. A representação do mundo é feita, portanto, de uma perspectiva diferente (para não dizer marginal), com relação aos textos de autoria masculina (XAVIER, 1990, p. 236).

Adotou-se aqui a ideia de Fiorin (2006), para quem a linguagem sofre influências do meio social e a visão de mundo de cada sujeito social está vinculada a ela e à ideologia que a rege.

Cada formação ideológica corresponde a uma formação discursiva, que é um conjunto de temas e de figuras que materializa uma dada visão de mundo. Essa formação discursiva é ensinada a cada um dos membros de uma sociedade ao longo do processo de aprendizagem linguística. É com essa formação discursiva assimilada que o homem constrói seus discursos, que ele reage linguisticamente aos acontecimentos (FIORIN, 2006, p. 32).

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SPENDER, D. Man made language. London: Routledge e Kegan Paulk, 1980; e WOOD, J. T. Gendered lives, communication, gender and culture. Belmont: Wadsworth, 1993 apud VALÉRIO (2000).

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Valério (2000) define rede social de um indivíduo como a soma de seus relacionamentos com os outros. Funciona como um mecanismo que possibilita a troca de bens e serviços, que podem incluir cumprimentos, informações, piadas, sexo, assistência na doença etc., ao mesmo tempo em que impõe obrigações e direitos de diversos tipos aos seus integrantes.

Isso torna o discurso, segundo o autor, mais um lugar da reprodução que de criação, ou seja, a formação ideológica impõe o que pensar, a formação discursiva determina o que dizer.

As teses dos autores citados acima levam a ver como dialética a relação entre o conhecimento e a sua base social. O conhecimento produzido socialmente pode ser um fator de transformação e, com isso, o mundo produzido pelos homens e pelas mulheres pode ser por eles/as modificado. Interessa, então, a discussão da legitimação dos discursos construídos por homens e mulheres, enquanto seres que constituem uma sociedade, mas que estão submetidos a desigualdades sociais e culturais que ultrapassam a questão do gênero e se refletem na forma de falar, de escrever e de fazer.

Benzer Belgeler