O entusiasmo de Sarmento decorreu provavelmente do facto de a teoria da gravidade permitir explicar um conjunto significativo de fenómenos naturais, incluindo os movimentos dos planetas e dos cometas em torno do Sol e a determinação da forma da Terra, elucidando assim algumas antigas questões da Astronomia.
O autor da Theorica refere a importância dos trabalhos do “Sagacissimo” Kepler na elucidação da forma das órbitas dos planetas e na descoberta de que os períodos de rotação dos planetas em
19 Para mais informações sobre esta temática ver Westfall, 1980. Newton não entrou directamente na polémica, mas instruiu os seus seguidores, como Samuel Clarcke, no modo como deveriam conduzir a questão. Ver também Guerlac, 1981.
141 torno do Sol se relacionam com as distâncias a que se encontram do Sol20. Newton, porém, deste “mesmo Principio fez Demonstraçam, que esta e não outra proporção se devia guardar no movimento dos planetas” (Sarmento, 1737:5), aludindo ao facto de a relação encontrada por Kepler ser uma consequência da Teoria da Atracção Universal.
Outra questão antiga cuja resolução foi possível devido ao trabalho de Newton foi a de qual seria a forma dos planetas. Tendo em conta o seu movimento de rotação em torno de um eixo próprio, Newton concluiu que o diâmetro equatorial da Terra deveria ser superior ao seu diâmetro polar, e que, portanto, a sua forma deveria ser esferoide. Deve ser notado que na altura em que a Theorica foi publicada ainda não existiam provas conclusivas sobre esta questão. Em 1736, a Academia Real das Ciências de Paris patrocinou expedições científicas com o objectivo de verificar a veracidade das conjecturas de Newton (Terrall, 2002), mas à data da impressão da
Theorica ainda não se conheciam os resultados das referidas expedições.
O facto de a Terra ter forma esferoide tinha implicações na determinação da cronologia antiga, tendo Newton dedicado algum tempo a esta questão e publicado uma obra onde a aborda, envolta, de resto, em alguma polémica21. Como consequência do movimento de rotação complexo decorrente da forma esferoide da Terra, Newton previu que deveriam ter ocorrido alguns erros na determinação de datas importantes para a História Antiga.
Sarmento também demonstrou interesse por esta temática tendo feito a tradução da versão resumida da obra de Newton dedicada à cronologia. O manuscrito da tradução, que terá sido feita em 1737, o ano da impressão da Theorica, intitula-se Chronologia Newtoniana
Epitomizada, e foi dedicado22 a José Francisco António Inácio Norberto Agostinho (1714- 1777), filho de D. João V, príncipe do Brasil e futuro rei de Portugal. O autor da Theorica queria certamente continuar a manter abertos os canais de comunicação com Portugal, procurando obter o patrocínio de personalidades importantes23. Ainda assim, deve ser salientado
20 Trata-se da 3.ª lei de Kepler segundo a qual, o quadrado do período de rotação de um planeta é directamente proporcional ao cubo da distância a que se encontra do Sol.
21 Como Sarmento refere na sua Dedicatória, Newton escreveu um resumo da sua cronologia para Carolina, Princesa de Gales, tendo entregado uma cópia desse resumo a Antonio Schinella Conti (1677- 1749), conhecido vulgarmente como Abade Conti, com quem manteve relações de amizade aquando da estadia do clérigo em Londres. Anos mais tarde, Conti decidiu entregar esse manuscrito a um impressor francês, tendo esse facto chegado ao conhecimento de Newton, que não ficou nada satisfeito com a situação, tendo, de resto, publicado um artigo nas Philosophical Transactions onde denuncia o que para si havia sido um acto de pura pirataria. Cf. PT, 33, 389, 1725.
22 No início da Dedicatória ao futuro rei D. José I, pode ser constatada mais uma vez a admiração de Sarmento por Newton. Sarmento indica que “o manuscrito que se segue, e postrado aos pés de V. R. Alteza, lhe offerece como tributo huma vontade toda Lusitana, foi originalmente escrita na Lingoa Ingleza pelo Cavalhero Isaac Newton, bem conhecido no Mundo Literario, por hum dos mayores genios, que produzirão os passados, e assombro do nosso seculo” (Sarmento, 1737ª: Dedicatoria), sendo notório o seu patriotismo. A “vontade toda Lusitana”, a que alude, é um sinal evidente da sua afeição pelo seu país, mesmo que se enquadre na retórica seguida na escrita da dedicatória.
23 O seguinte excerto, retirado da Dedicatória da Chronologia é elucidativo do modo como Sarmento procurava estabelecer o seu prestígio. “E como eu ja mais posso esperar de escrever cousa alguma proprio, que seja digna de chegar as mãos de V. R. Alteza, e o ser esta obra compilada para educaçaõ dos
142 que a obra não chegou a ser publicada, desconhecendo-se qual terá sido a reação do futuro rei de Portugal.
Prosseguindo a descrição de como a teoria de Newton podia ser utilizada em diversos contextos, Sarmento alude ao facto de esta ter permitido a determinação rigorosa da órbita da Lua em torno da Terra, e que esse conhecimento estava a ser utilizado por Halley para encontrar um método fiável para a determinação da longitude24.
Depois de aludir aos fenómenos explicados por meio da teoria desenvolvida por Newton, Sarmento refere quais os princípios em que aquela se baseia: a “Doutrina das Forças Centraes, e a Resistência dos Médiuns para os corpos que se movem nelles” (Sarmento, 1737:8). De acordo com a “doutrina das forças centraes”, os planetas são mantidos nas suas órbitas devido a duas forças, uma “pela qual os Planetas tendem para o Sol”, e outra, perpendicular à primeira que, se não fosse contrariada, faria com que o planeta se movesse em linha recta. Relativamente à resistência dos meios, o autor refere que este princípio é deduzido a partir “da mais infallivel, e profunda Geometria” (Sarmento, 1737:10). É neste contexto que é feita a crítica às ideias de René Descartes, nomeadamente à sua teoria dos vórtices, sendo referido que Descartes inventou “hum Systema de Philosophia inteiramente acomodado às aprehenções, e concepções dos ignorantes, e rudes, em que supõem, que todos os Planetas devem o seu movimento a roda do Sol, a outros tantos Redemoinhos, ou Vortices de Materia Celeste” (Sarmento, 1737:10), notando que, provavelmente por ser fácil de entender, havia alcançado um sucesso significativo. Considerando que o filósofo francês havia contribuído para a ruína das “Physicas de Aristoteles”, Sarmento acusa-o, contudo, de ter caído no mesmo erro ao basear o seu sistema na invenção e na imaginação, em vez de “observar attentamente os Phenomenos da Natureza, e delles deduzir taes Causas, que podiam produzir universalmente os mesmos Phenomenos por Leys Mechanicas; e achadas ditas Causas, se devem admitir como Leys, ou Causas secundarias, pelas quaes se governa, e se conserva a Naturesa” (Sarmento, 1737:11, 12). A teoria dos vórtices teve um sucesso significativo na Europa culta dos finais do século XVII e início do século XVIII. Obras como os Entretiens sur la Pluralité des Mondes (1686), de Bernard de Fontenelle (1657–1757), onde as ideias de Descartes eram apresentadas de um modo simples, elegante e acessível, alcançaram um sucesso significativo um pouco por toda a Europa, incluindo a Inglaterra (Terrall, 2000:242–4). Com o passar do tempo, contudo, e devido à constatação do alcance da teoria newtoniana, cuja aplicação permitia a explicação de diversos Principes de Inglaterra, e originalmente escrita por hum genio, que fes nas principais artes, e sciencias mayores descobrimentos em poucos annos, do que todos os Sabios antes delle puderaõ conseguir em muytos seculos, a fazem huma offerta tam digna por si propria que naõ pode desmerecer pella indignidade de quem a dedica, devo esperar, que na aceitaçaõ, e uso que V. R. Alteza fizer della, fique complectamte satisfeito o trabalho, que seu immortal Autor pôs em compilada, e gloriosamente premiado, o que eu tive em traduzilla, e trazela a esta forma.” (Sarmento, 1737a: Dedicatoria). Sarmento procura minimizar a importância do seu trabalho, enfatizando a importância de Newton.
143 fenómenos, incluindo o fenómeno dos cometas, a teoria dos vórtices foi perdendo influência entre as elites intelectuais europeias.
Notavelmente, e na sequência da referência ao facto de os sistemas aristotélico e cartesiano terem sido suplantados, o autor da obra afirma que, no caso da teoria da atração universal tal seria impossível, dado esta ser baseada na matemática e na geometria25, o que é mais uma manifestação do seu compromisso para com o newtonianismo.
3.3. A óptica de Newton
O Optiks, editado por Newton em 1704, alcançou um sucesso editorial significativo, tendo sido uma das principais referências para a física experimental do século XVIII (Bensaude-Vincent, Stengers, 1996:73). Dado o facto de não estar escrito em linguagem matemática, a obra era muito mais acessível do que os Principia, para além de abordar questões de índole prática, indicando quais os modos como se poderia aceder ao conhecimento dos fenómenos naturais. Assim, e de forma significativa, o médico português dedicou uma parte importante da sua obra a relatar os resultados das célebres experiências ópticas realizadas por Newton com o prisma óptico e as conclusões a que havia chegado.
As experiências com a luz realizadas pelo filósofo inglês permitiram elucidar alguns fenómenos ópticos conhecidos, como a refracção e a dispersão. Quando Newton fez passar um raio luminoso por um prisma, observou a criação de um “corpo de Luz comprido e de varias cores” (Sarmento, 1737:15), tendo verificado que as cores formadas eram sempre as mesmas, aparecendo sempre segundo a mesma ordem. As experiências também permitiram concluir que quando essas cores eram combinadas por meio de uma lente se voltava a observar o aparecimento de luz branca. Tendo em conta os resultados destas experiências e de outras, Newton conseguiu definir cinco princípios que constituem o fundamento da sua teoria sobre a luz. Tendo em conta esses princípios é referido que:
A diferença, e variedade assim das cores símplices, e originaes, como das mixtas, nos corpos naturaes, depende, como nos ensina o nosso Philosopho Illustre, de huma certa e particular structura, textura, e situação das partes dos corpos, que os dispõem differentemente para transmitir, reflectir, refrangir, ou absorber os rayos da Luz (Sarmento, 1737:17),
de onde se podia concluir que qualquer “Causa”, como o ar ou a água, que possa mudar a “estrutura, textura, ou situaçam” das partes de um corpo, pode provocar a alteração da sua cor.
25 A afirmação de Sarmento foi algo premonitória, já que a teoria de Newton continua a ser aplicada em diversas situações. Mesmo se a física einsteiniana tenha de ser considerada em diversas aplicações, a física newtoniana é utlizada vulgarmente para a resolução de problemas quotidianos.
144 De modo a sustentar esta afirmação, o autor da Theorica refere diversas situações experimentais26 em que a acção das referidas “Causas” determinava a alteração da cor de corpos, concluindo que “todos estes experimentos, que a verdadeira Chymica Experimental, e Philosophica nos tem mostrado não somente confirmam o Experimento que se faz com o Prismo, mas tambem a Doutrina Universal das cores do nosso Immortal Philosopho” (Sarmento, 1737:26). Este excerto evidencia a importância atribuída por Sarmento à obra de Newton sobre a óptica, reconhecendo a importância em seguir métodos racionais como única forma de poder aceder ao conhecimento e compreensão dos fenómenos naturais.