• Sonuç bulunamadı

[...] as línguas não são meros instrumentos de comunicação [...] são a própria expressão das identidades de quem delas se apropria. Logo quem transita entre diversos idiomas está redefinindo sua própria identidade. Dito de outra forma, quem aprende uma língua nova está se redefinindo como uma nova pessoa.

Kanavillil Rajagopalan64 Para continuar a investida, no intuito de tentar entender melhor o papel da língua na construção da(s) identidade(s), não poderia deixar de definir o conceito de língua que norteia este trabalho.

Tradicionalmente, ‘língua’ é conceituada como um ente fechado em si, autossuficiente. Ao considerar esse caminho saussuriano, entende-se língua como um sistema perfeito, que existe em si e para si, de maneira completamente estável, não importando os aspectos exteriores a ela. Caminhar sob esse prisma seria perigoso nos dias de hoje, como andar às cegas, ou viver em um mundo de ilusões, pois estaríamos conceituando ‘língua’ de uma maneira ideal, não como ela realmente é no mundo real (FAIRCLOUGH, 2001).

Prefiro adotar a perspectiva bakhtiniana, que considera ‘língua’ a partir e durante seu uso, ou seja, considera a linguagem, a língua em uso. Sob esse novo prisma, entende-se ‘língua’ como socialmente constituída, servindo para que seus falantes se comuniquem, podendo sofrer alterações diversas, sejam estruturais, históricas.

64

Num mundo globalizado como o de hoje, as línguas estão sofrendo influências mútuas numa escala sem precedentes. As chamadas “línguas francas” do mundo moderno já não são mais línguas cujas trajetórias históricas permaneceram contínuas e sem influências externas ao longo do tempo. São todas elas formas de comunicação que tiveram origem no contato efetivo entre povos, processo que continua com maior força nos dias de hoje em razão do encurtamento de tempo e espaço que é a marca registrada do momento histórico em que vivemos. Os

chamados “portunhol”, “franglais”, “spanglish” são exemplos concretos da

realidade lingüística do mundo de hoje. São línguas mistas em constante processo de evolução [...].

Num mundo que serve de palco para o contato, o intercâmbio sem precedentes entre povos, o multilingüismo adquire novas conotações. O cidadão desse novo mundo emergente é, por definição, multilíngüe. O multilingüismo como língua franca [...] já se tornou uma realidade [...] (RAJAGOPALAN, op. Cit., pp. 68 – 69).

Acredito ser essa visão social da linguagem, de língua socialmente (re)(des)construída, a mais adequada para responder aos questionamentos levantados anteriormente e nortear a discussão aqui.

Assim, percebo claramente que não foi nenhuma das línguas europeias dos ‘brancos

conquistadores’, o português, o espanhol, o francês, o holandês nem o inglês, que serviu para

consolidar o contato e a comunicação entre ‘brancos’, índios, negros e mestiços na região amazônica brasileira.

Utilizando-se de estratégia política, os europeus tomaram línguas indígenas para serem

‘línguas francas’, que permitiriam a efetivação da comunicação entre ‘brancos’ de diversas

nacionalidades, índios de diversas etnias, negros e mestiços.

De acordo com Freire (2003), na região amazônica, essa língua foi o Tupinambá, também conhecida como Nheengatu ou Língua Geral Amazônica, e passou por transformações, tendo sua trajetória alterada por questões políticas, geográficas, sociais e econômicas.

O pesquisador dividiu essa trajetória em fases. Para encurtar a caminhada, tomo um desvio traçado pelo pesquisador, ao elucidar a questão por meio dos seguintes versos:

“O papagaio é um bicho inteligente,

ele fala toda língua, até a língua amazonense (*). Papagaio louro, oi, oi, do bico dourado, oi, oi, Ele falava tanto, ele falava tanto,

e agora está calado”.

(Letra de uma música carimbó) (*) Existe uma variante, para essa parte, que se refere à

‘língua paraense’

(In: FREIRE, op. Cit., p. 214) A primeira refere-se à expansão da Língua Geral, usada como língua de integração, primeiramente regional, e, a posteriori, nacional, tendo o apoio da Igreja Católica e da coroa portuguesa.

Nesse primeiro período, a Língua Geral Amazonense serviu como meio de comunicação interétnica, aproximando falantes de línguas diversas, de origem europeia ou indígena, e proporcionando uma unidade linguística para a região do estado do Grão-Pará e Maranhão, atual Amazônia brasileira.

A segunda fase, de declínio da Língua Geral, modificou o panorama vigente até aquele momento. Por questões geopolíticas, o estado do Grão-Pará e Maranhão perdeu sua autonomia e passou a se subordinar ao estado do Brasil, onde a Língua Franca Paulista já não era mais utilizada, tendo sido substituída pela língua portuguesa. Confirma-se, então, o declínio das Línguas Gerais. Era a fase da ‘portugalização’ da região amazônica.

Mais uma vez, a Língua Geral Amazônica cumpriu papel fundamental, pois universalizou linguisticamente a região em questão.

Ao invés de fazer com que falantes de várias línguas, pertencentes a diferentes grupos étnicos, adotassem o português, o que teria levado muito tempo e investimento, os ‘brancos’ tiveram apenas que fazer com que esses os indígenas, que também dominavam a Língua Geral Amazonense, gradativamente substituíssem o uso da língua tupinambá pelo uso da

língua portuguesa, utilizando, para essa finalidade, todo o aparato escolar e a imprensa. Outros fatores que contribuíram para o êxito do processo de substituição da Língua Geral Amazônica pela língua portuguesa foram migrações de indivíduos de outras partes do Brasil para a região amazônica, a mudança no sistema comercial e o crescente processo de urbanização da região.

Como consequência da segunda fase, a terceira consolidou a (re)indigenização da Língua Geral Amazônica. Com o avanço do uso do português na região, cada vez menos indivíduos utilizavam a Língua Geral Amazônica como meio de comunicação, a exceção da região do Alto Rio Negro/AM.

Nessa região, a Língua Geral em tela, mais conhecida como nheengatu, voltou a ter o status exclusivo de língua indígena, e se mantém – até os dias atuais – como língua de comunicação entre povos indígenas, juntamente com outras línguas autóctones.

Voltando o curso para os versos da cantiga carimbó, visualizo a trajetória da Língua Geral Amazônica, que, a princípio, era falada em todo o canto e com intensidade, por todos, e, no final, não mais é falada, está calada. Mas será que realmente está calada? Que interpretação pode-se dar para esse ‘calar’?

Acredito que o ‘calar’ se refere ao declínio do uso da LGA, não a sua extinção, já que ainda hoje é utilizada por comunidades indígenas no Alto Rio Negro como língua de comunicação, sendo uma das línguas oficiais em São Gabriel da Cachoeira/AM.65

Ao chegar a esse ponto, retomo as palavras de Rajagopalan (op. Cit.), sobre o

multilinguismo como ‘língua franca’. Acredito que essa situação linguística, que já faz parte

da realidade de diferentes regiões do planeta, como a África e a Europa, sempre esteve presente na região do Alto Rio Negro e é parte marcante da identidade do habitante dessa região.

65Cf

Segundo ISA/FOIRN (2006)66, sempre existiu nessa região uma diversidade linguística e cultural muito grande.

Atualmente, há mais de vinte línguas indígenas, oriundas de quatro grandes famílias linguísticas: tukano oriental, aruak, maku e yanomami, além da Língua Geral Amazônica, mais conhecida como nheengatu, que são usadas, juntamente com o português e o espanhol, cotidianamente como línguas de comunicação, em situação de contato constante. Além disso, há muitos indígenas que falam várias dessas diferentes línguas, o que comprova a situação de multilinguismo na região.

Os representantes dessas famílias linguísticas seriam sobreviventes de grupos de origens linguísticas e culturais diferentes que invadiram a região há muito tempo em sucessivas ondas migratórias. A primeira teria se constituído por grupos nômades semelhantes aos Maku67 atuais. A segunda, que teria ocorrido no início da era Cristã, teria vindo do norte, do Alto Orinoco e Alto Guiana, constituída por grupos de origem a ra wak, de cultura tecnológica bastante desenvolvida, e habitaram ao longo dos rios, vivendo em grandes casas, as chamadas casas comunais68. Os Manaó, os Baré e os Baniwa seriam seus atuais descendentes.

A terceira onda migratória teria vindo do oeste, composta por índios tukano, tecnologicamente menos desenvolvidos que os índios de origem ara wak. No século XVIII ainda teria ocorrido outra invasão ara wak, composta pelos índios tariano.

Essas ondas migratórias teriam causado, gradualmente, uma mestiçagem cultural na região: os Tukano teriam sido influenciados pelos Arawak; os Tariano adotaram a língua Tukano; alguns clãs baniwa adotaram a língua Cubeo e numerosos Maku foram assimilados pelos Tukano e Arawak (FARIA, 2003, p. 35).

O grupo dos tukano oriental é composto pelas etnias arapa ço, bara, bara sana, desana, cubeo, karapanã, makuna, mirititapuia, piratapuia, siriano, taiwano, tatuyo, tukano, tuyuka, yuriti e wanano.

66Cf

. Anexo IV: Mapa das Famílias linguísticas no Alto e Médio Rio Negro. 67

Também conhecidos como índios da floresta. 68

Também conhecidas como malocas (mal = do mal; oca = casa. mal+oca = maloca  casa do mal) – termo pejorativamente atribuído pelos ‘brancos’ europeus, às moradias indígenas comunais, devido a seu caráter místico e religioso. Cf. Anexo VII – Casa comunal Kubeo.

O grupo dos ara wak é conhecido genericamente como grupo dos baniwa. Originalmente, falavam a língua waku, mas devido ao contato intertribal, por meio da tradição de exogamia linguística, perderam sua língua original, adotando a Língua Geral Amazônica, o nheengatu, ou, em seu lugar, o tukano, como língua de comunicação. Além de falarem o português e sua língua étnica, há indígenas baniwa que também se comunicam em espanhol, por viverem em áreas da região da tríplice fronteira Brasil, Colômbia, Venezuela.

O grupo dos maku está dividido em cinco subgrupos, segundo o território onde habitam e a língua que falam, a saber: os hupd maku, os bará maku, os yuhp maku, os kamã maku e os maku guareba, ou nadõb.

E o último grupo estaria composto pelos yanomami.

Acredito que cabe aqui retomar a citação no início desta seção, que versa sobre o multilinguismo e a identidade, com vistas a tentar propor uma resposta à pergunta: afinal, qual o papel da língua ou sua contribuição na formação da(s) identidade(s)? Segundo Rajagopalan (op. Cit.), entendendo identidade como um fenômeno em constante alteração, a língua é das mais autênticas expressões da(s) identidade(s) de um indivíduo.

Enquanto fenômeno social, a língua marca e está marcada pela interação em suas mais diversas acepções. No contexto em questão, posso ousar dizer que a(s) língua(s) em contato, o multilinguismo, é o que marca(m) e expressa(m) a(s) identidade(s) do indivíduo que vive na região do Alto Rio Negro, em especial o índio, quem se torna responsável por adentrar em outras culturas – ou não – (re)definindo, assim, sua(s) identidade(s).

2 METODOLOGIA

Neste Capítulo, primeiramente, faço uma rápida abordagem sobre os aspectos

metodológicos utilizados neste trabalho, e, na sequência, apresento os critérios de seleção e a forma de coleta, bem como os dados coletados na pesquisa em tela.

Benzer Belgeler