• Sonuç bulunamadı

Identidade é um fenômeno que emerge da dialética entre indivíduo e sociedade [...] uma vez cristalizada é mantida, modificada, ou mesmo, remodelada pelas relações sociais.

Peter Berger; Thomas Luckman63 A pergunta em destaque suscita diferentes possibilidades de resposta. Por questões de coerência e concisão, sigo as orientações para a definição de identidade abordadas anteriormente, a fim de definir identidade indígena no Brasil.

Para iniciar, tomemos as veredas da História Brasileira.

Não há como tratar a temática indígena sem usar o prisma diacrônico, retornando pelo longo caminho que nos leva à chegada das caravelas da esquadra portuguesa à costa do Novo Mundo, momento da tomada das futuras terras brasileiras pelos europeus.

Segundo o entendimento histórico oficial, a primeira possibilidade de resposta à pergunta em questão seria: ser índio, para Cabral, para a coroa portuguesa e todos os demais europeus, foi a definição identitária dada a todo e qualquer habitante nativo da terra recém-conquistada,

que fazia parte das ‘Índias Portuguesas’.

Dessa forma, independentemente de sua etnia, cultura, língua ou costumes, bastava ser

nativo da ‘terra em que se plantando tudo dá’ que o indivíduo era considerado índio.

Os portugueses usaram o critério do nascimento, da natalidade, como o formador de identidade, uma identidade nacional. Em outras palavras, ser índio significava ser habitante nativo do Novo Mundo na época de sua conquista pelos portugueses.

Se seguirmos as sendas da antropologia tradicional, definiremos a identidade indígena por outro critério, o da herança genética. Assim, o indivíduo passaria a ser considerado índio por ter determinadas características genéticas, por um dado biótipo, que o caracterizaria como tal. No entanto, caminhemos com atenção e perceberemos alguns obstáculos: se a etnia e o critério biológico e genético fossem os únicos utilizados para a definição da identidade

63

indígena, qual das centenas de etnias, de grupos com características físicas diferentes que habitavam as terras do Novo Mundo à época de sua tomada e os que restam ainda hoje seria a que teria os verdadeiros índios?

Se fizermos a pergunta aos indígenas em todo o Brasil, acreditamos que a maioria se considerará como índios. Apesar disso, se são todos índios, mesmo com características físicas tão diferentes, então, o critério racial cai por terra.

Tomemos, dessa forma, um desvio. Percorrendo o caminho da antropologia estrutural, percebo que o critério cultural deveria bastar para definir identidade, substituindo, assim, o critério racial.

Sob esse outro prisma, vejamos como ficaria, então, a identidade do índio brasileiro atual. Algumas das características culturais que marcariam o indígena brasileiro poderiam ser, por exemplo, o uso de uma língua autóctone, hábitos como viver da pesca, da caça, andar semi ou completamente nu, ou usar adornos como cocás, colares de sementes, brincos com penas etc.

No intuito de responder à pergunta em tela, sob o prisma do critério cultural, um índio poderia ser, então, aquele indivíduo que se portasse como se espera que se porte um índio. No entanto, percebemos alguns obstáculos que também inviabilizam continuar nesse caminho.

Se usar brincos de pena e colares de sementes, ou se viver da pesca ou da caça, ou, ainda, se falar línguas indígenas são pressupostos culturais para a definição da identidade indígena, então, uma brasileira de São Paulo, descendente de europeus, que usa um par de brincos de pena que ganhou de presente, ou um colar de sementes que comprou pela Internet seria uma índia legítima, pois possui os pressupostos culturais para ser definida como tal. Ou, ainda, um indígena da etnia Tukano que anda de terno e gravata, trabalhando em Brasília, não seria considerado um índio porque não possui os pressupostos culturais para ser definido como tal.

Segundo Darcy Ribeiro (1970), o conteúdo cultural é constantemente passível de mudança(s) e, por isso, não pode ser pressuposto para a definição étnica, pois costumes, crenças, religiões, hábitos, línguas, são atributos exteriores à etnia, não primários.

Cabe aqui trazer à tona as palavras de Maher (1996, p. 19):

[...] embora a cultura componha (de forma importante!) a etnicidade, ela não pode ser considerada um elemento definidor porque não é pressuposto, é, antes, produto, resultado, consequência da maneira de existir, de se organizar de um grupo étnico. [...] a cultura indígena não define o índio, mas, ao contrário, porque o indivíduo é índio, a cultura de que ele é portador é definida como sendo indígena.

Pelo exposto, os critérios até o momento utilizados não são suficientes para que definir a identidade do índio no Brasil.

Tomemos, então, outro desvio em nossa caminhada.

Retomando as palavras de Berger e Luckman (op. Cit.), percebo que a identidade é, na verdade, um fenômeno social.

A sociedade, o sistema social determina as relações sociais, que, por sua vez, vão determinar a identidade. O indivíduo só se conhece, só de define a partir do outro. A alteridade é, dessa forma, pressuposto para a formação identitária.

Acredito que o caminho mais acertado para a definição identitária seja o proposto por Barth (1969).

Seguindo essa nova orientação, seria índio todo aquele que se define como índio, ao perceber que seu interlocutor, o outro, é um não-índio. É nesse limite, nessa fronteira, nesse limiar, que se (re)(des)constrói a(s) identidade(s).

No limite, sou tudo o que sou – ou melhor, represento-me como sendo – não porque exibo umas marcas identificáveis de fora para dentro, mas sou o que represento ser se me perceber e me colocar e enquanto me perceber e me colocar como não sendo o outro (MAHER, 1996, p. 20).

Apesar de encontrar um critério que possa propor uma resposta que acredito ser mais acertada, sabemos que a identidade não é um fenômeno exclusivamente social. Por ser social, também é um fenômeno histórico, em constante movimento composto por aspectos culturais, entre os quais, as línguas (ORLANDI, 1990).

Com vistas a verificar o papel da(s) língua(s) na formação da(s) identidade(s), considero a seguir aspectos da história dos povos indígenas brasileiros presentes na região do Alto Rio Negro/AM, foco desta pesquisa.

Benzer Belgeler