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Os trabalhos desenvolvidos e orientados por Tarallo são constantes alvos de críticas por serem trabalhos pioneiros no Brasil. Esta é razão, também, de suscitarem tantos questionamentos metodológicos. Apresentamos a seguir algumas críticas e algumas reorientações que, direta ou indiretamente, retomam os trabalhos do referido autor. De um lado consideraremos algumas críticas dirigidas ao uso de dados de fala e de escrita e ao tratamento equânime ao PB e ao PE. De outro mostraremos trabalhos que direta ou indiretamente, consideram que os resultados depreendidos de trabalhos em que foram adotados os mesmos critérios metodológicos vislumbrados nos trabalhos de Tarallo são consistentes.

Tendo em vista tais polêmicas, apresentaremos algumas respostas. Pretendemos, com isso, localizar a causa para as escolhas metodológicas aqui assumidas.

1.2.1 Fazer predições sobre a fala a partir da escrita

M. A. Oliveira (2005), em seu artigo “Nem tudo que reluz é ouro: língua escrita e mudança linguística”, chama atenção para o problema de se fazerem predições sobre a fala a partir da escrita.

O autor observa que, nos diferentes níveis descritivos, “nem tudo que se escreve se fala” (op. cit. p. 4) e que a este fato está profundamente atrelado a questão da escrita possuir normas próprias que não são as mesmas que regem a fala. Isso garante, por exemplo, que determinados usos típicos da fala não possam ser encontrados em documentos cartoriais por serem amplamente formulaicos. Na mesma medida, não encontramos na fala usos típicos desses tipos de textos. Porém, existem muitos usos linguísticos que são encontrados nas duas modalidades.

Buscando apresentar uma solução para tal impasse, M. A. Oliveira comprova, por meio do estudo da ordem dos constituintes da oração que, embora tenham sido encontrados em textos escritos do Português Arcaico seis diferentes ordens, apenas quatro delas ocorrem na fala. O primeiro argumento que o autor apresenta se refere à frequência de ocorrência das seis ordens. Foram encontradas 4.2% de ocorrências de VOS, 3.1% de OSV, 59.1% de SVO, 11.7% de VSO, 10.8% de OVS e 10.8% de SOV. Essas frequências indicam que as ordens VOS e OSV destoam das outras. Atribui esse perfil ao fato de a maioria dos casos de OSV ser com presença de clítico e ser impossível, na língua falada, o uso de clítico na primeira posição.

O segundo argumento que M. A. Oliveira apresenta é que o uso dessas duas formas identificadas como não pertencentes à fala pode estar associado ao estilo de escrita do autor. Observando as ocorrências em cada um dos textos, considerou que ambas as ordens parecem realmente estar associadas ao estilo do autor, já que todas as outras quatro ordens ocorrem em todos os textos e apenas as duas investigadas não. Este fato pode caracterizá-las como um recurso da língua escrita.

O terceiro argumento apresentado pelo autor, da não ocorrência das ordens VOS e OVS na língua falada, é que a VOS não foi mantida em nenhuma variedade da língua portuguesa e a forma OVS ocorre apenas em contextos de topicalização do tipo: “Pizza, eu como.”5

Diante desses três argumentos, M. A. Oliveira (2005, p. 12) afirma que só é possível usar dados escritos para o estudo da língua falada se estes

A- se mostrarem quantitativamente significativos, e

B- decorrerem de uma teoria linguística (da língua falada) que tenha alcançado

um nível explicativo (e não apenas os níveis observacional e descritivo).

Embora as perguntas motivadoras do texto de Oliveira direcionem para a interpretação do texto escrito como fonte para o estudo da língua falada, também abre possibilidade para pensarmos no próprio texto escrito, uma vez que o autor, por meio de um estudo linguístico, conseguiu reconhecer formas linguísticas típicas da escrita. Por essa razão, foi possível ao autor reconhecer que “não podemos afirmar, sem maiores cuidados, que o português arcaico tinha seis ordens envolvendo os constituintes S, V e O. O que tinha seis ordens possíveis eram os textos escritos produzidos no período do português arcaico, mas não o português falado neste período.” (p. 12).

A leitura feita por M. A. Oliveira só é possível se pensarmos a língua escrita e a língua falada como sistemas distintos.

1.2.2 Extrair conclusões sobre mudança a partir da comparação entre escrita e fala

Nos gráficos (1.1-1.3), apresentados na seção 1.1, os dados representativos dos séculos XVIII e XIX são extraídos de textos escritos e os dados representativos do século XX são extraídos de textos falados.

Pesquisadores que obtém como resultado gráficos do tipo (1.1-1.3), valendo-se da prerrogativa incondicional enunciada pelo Princípio do Uniformitarismo, observam um fenômeno e o investigam como uma mudança em progresso. Ao adotar essa perspectiva de análise, tais autores estariam ignorando as idiossincrasias da escrita e a relação estabelecida entre fenômenos que migraram da fala para a escrita e fenômenos que são típicos da escrita propriamente dita, uma vez que o tratamento da dicotomia sincronia/diacronia ainda apresenta algumas nuances nebulosas, como abordado por Castro (1996).

O peso de uma possível interpretação equivocada dos dados não recai sobre o Principio do Uniformitarismo que, antes de mais nada, é o que nos garante observar a língua do passado tendo nas forças que atuam na língua do presente base confiável de análise. Recai sobre o fato de que é necessária a observação das sincronias dentro dos estudos diacrônicos, pois será ela que nos permitirá estabelecer relações entre fala e escrita. Para M. A. Oliveira, nos estudos sociolinguísticos, a dicotomia sincronia/diacronia não representa uma questão relevante quando se preocupa em explicar o passado. Talvez esteja aí uma das nuances nebulosas que essa dicotomia apresenta.

1.2.3 Ausência de tratamento equânime ao PB e PE

Ivo Castro (1996) chama a atenção para a necessidade de se efetuarem trabalhos em uma perspectiva comparativa das duas variedades da língua portuguesa. A sua principal crítica aos estudos linguísticos que se dedicam a períodos passados da língua, pesa sobre o maior desenvolvimento dos estudos medievalistas em relação aos estudos classicistas. E, justamente por isso, abre-se uma lacuna na história da língua portuguesa, proveniente das inadequações no uso de corpora formados por textos dos séculos XVIII e XIX. São justamente essas inadequações que fazem com que as comparações que são estabelecidas entre as duas variedades, muitas vezes, apresentem perfil distorcido em relação aos usos linguísticos.

Os questionamentos levantados por Castro (1996) incidem sobre a necessidade de se compor amostras niveladas quanto ao modo de seleção, ao registro e à natureza das fontes antes de serem comparadas. O autor apresenta uma crítica aos trabalhos desenvolvidos sobre o PB por considerar que as comparações, quando são estabelecidas, são feitas “de modo um tanto aleatório, com gramáticas estranhas ou genealogicamente remotas” (op. cit., p. 5-6). Esse fato contribui para o que o autor chamou de “o nosso extenso desconhecimento relativamente à língua que se falava, que se pensava e se escrevia em Portugal e no Brasil nos séculos mais próximos de nós” (op. cit., p. 6). Critica o método como esse problema vem sendo tratado pelos autores que se aventuram a desvendar esse extenso desconhecimento, na medida em que afirma que ou a língua do século XVIII e XIX vem sendo tratada como contemporânea ou com o distanciamento característico de períodos mais antigos. Ainda ressalta a existência de “um certo déficit filológico no que toca às técnicas de transcrição de texto” (op. cit., p. 13).

Subentende-se dessa crítica a necessidade do estabelecimento de um método para se tratar este período. Segundo Ivo Castro, Tarallo (1990) propõe a investigação da língua do passado usando a metáfora do túnel do tempo. Neste livro, Tarallo considera uma série de fenômenos linguísticos que apresenta como indicadores da existência de uma gramática do PB. Conduz a observação desses fenômenos por meio do método do estranhamento. Para Castro, o autor não traz informações importantes para compreender os estranhamentos. A primeira informação seria a de que existem duas variedades do português, a brasileira e a europeia. A não informação do leitor sobre isso faz com que a ideia do estranhamento torne- se ambígua, pois o estranhamento não é o mesmo para os falantes das duas variedades. Mais que isso, acusa o autor de não mencionar a existência do PE e de não utilizar dados dessa

variedade. Castro também afirma que o autor não discorre sobre o fato de variação diacrônica ser também diatópica e que pode ser observada no eixo sincrônico. Ainda considera que se o autor colocasse o problema em eixos sincrônicos e diatópicos, a metáfora com o túnel do tempo não seria possível. Essas não observâncias, apontadas por Castro, representariam impedimentos para a conclusão apresentada por Tarallo de que “As formas levemente estranhas, tais como as encontradas nas cartas de Paranhos, em geral continuam em nosso sistema contemporâneo como resíduos históricos, mantidos por uma norma gramatical conservadora, centrada na língua escrita” (Castro, 1996, p.15 apud Tarallo, 1990, p.19).

Castro traz apontamentos importantes para o aprimoramento das pesquisas linguísticas sobre o PB, muito embora direcione muito mais o seu texto para as críticas do que para as propostas de solução. Não há no texto do autor estudos com base empírica que possam apresentar caminhos para solucionar esses problemas. Esse resultado seria o esperado uma vez que seu trabalho intitula-se Para uma história do Português Clássico. A leitura do seu texto nos deixa a sensação de que o Português Clássico nos está ainda mais inacessível. Porém, as sugestões, mesmo que não testadas, e as observações traçadas pelo autor são de fato importantes para o desenvolvimento de estudos linguísticos com dados do Português Clássico, pois, de alguma forma recuperam a discussão sobre mudança linguística que fizemos anteriormente.

Ao levantar os problemas apresentados sobre o tratamento dado aos dados analisados por Tarallo, Castro nos faz pensar se, então, todos os estudos desenvolvidos, principalmente na década de 1980, aqui no Brasil, apresentam resultados inconsistentes para o estudo de mudança linguística. A aposta no rigor metodológico para diminuir o efeito negativo que possa ser gerado devido a uma má constituição de amostra parece válida, mas considerar que esses trabalhos não são capazes de esboçar resultados confiáveis nos parece equivocado. E esse equívoco se torna ainda mais evidente quando observamos que embora haja questões metodológicas que possam nublar os resultados obtidos, ainda assim é possível perceber a sistematicidade da mudança linguística se manifestando. Proporemos, a seguir, estratégias para minimizar os efeitos relatados por Castro e, no capítulo cinco, mostraremos que os trabalhos de Tarallo precisam ser lapidados e não desconsiderados. E que essa lapidação é o objetivo dos próprios estudos linguísticos desenvolvidos no Brasil. Sublinharemos que, em estudos linguísticos, os recursos filológicos não podem suplantar a capacidade de análise linguística, embora sejam necessários a sua constituição.