Rosa de Lima Benta, uma das “crias”152 de Maria Luísa, era negra. Fora entregue à “Sinhá” porque seu pai, também negro, de Bom Jesus, matara e cumpria pena (NAVA, BO, 2002, p.227). Rosa, entre as mulheres ligadas ao ramo materno da família Pedro Nava, apresenta-se, nas Memórias do escritor, como uma exceção. Em primeiro lugar, ela tinha a admiração e o carinho de Nava; em segundo, caracterizava-se por possuir alguns traços que aparecem, com maior força e mais freqüentemente, nos parentes paternos do escritor.
Por meio da análise das Memórias, não é possível afirmar que Rosa soubesse ler. Ela, contudo, assim como José e Antônio Salles, pai e tio de Pedro Nava, conhecia muitas histórias.153 Era Rosa quem contava para Nava, menino, os contos de fada que sabia:
Mas o melhor é que Rosa, além de ser um canhenho vivo, sabia, ouvidas não sei onde nem de quem, todas as histórias de Andersen, Perrault e dos Irmãos Grimm. Devo a ela as da Sereia Menina, do Rouxinol, do Patinho Feio e dos Cisnes Bravos... Do Gato de Botas, do Barba Azul e do Chapeuzinho Vermelho... Da Borralheira, do Pequeno Polegar e da Branca de Neve... Todas as
152 A respeito das “crias”, Pedro Nava assim escreveu: “[...] Abolida esta [a escravidão] e não se podendo
mais comprar negro, as senhoras de Minas tomavam para criar negrinhas e mulatinhas sem pai nem mãe ou dadas pelos pais e pelas mães. Começava para as desgraçadas o dormir vestidas em esteiras postas em qualquer canto da casa, as noites de frio, a roupa velha, o nenhum direito, o pixaim rapado, o pé descalço, o tapa na boca, o bolo, a férula, o correão, a vara, a solidão. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.247).
153 Segundo GALVÃO (1998), em análise do cotidiano da escola, entre os anos de 1890 e 1920, a partir da
obra de José Lins do Rego, “os contadores populares”, “adultos que concentravam a atenção e fascinavam os meninos” (p.103), marcavam sua infância. De acordo com a autora, em Menino de engenho, é a “velha Totonha” quem “encarna [...] esses personagens, [...] mágicos para os olhos de hoje, bastante familiares naquele momento” (p.104). Totonha narrava as histórias e também as dramatizava. Nas Memórias de Pedro Nava, bem como no poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira, Rosa é a personagem que ocupa esse espaço de encantamento dos meninos ao contar-lhes histórias.
noites, na hora de deitar... Rosa! Agora a Pele de Burro. Agora a Bela e a Fera. E vinham as histórias. [...] (NAVA, BO, 2002, p.228).
A descrição que Pedro Nava fez de Rosa nesse trecho de seu Baú de Ossos nos faz pensar que ela talvez não soubesse ler, pois conhecia as histórias maravilhosas que tanto agradava a Pedro Nava “de ouvido”. Fato é que, pelo que se vê nesse exemplo, entre os anos de 1903 e 1910, período em que viveu o escritor em Juiz de Fora, antes de se mudar pela primeira vez para o Rio de Janeiro, às vezes, morando na casa de Maria Luísa, outras vezes, longe dela, Nava pôde ouvir de Rosa os clássicos infantis. As histórias de Rosa, ao mesmo tempo em que familiarizava Pedro Nava com o mundo dos contos de fada e das histórias infantis, instigava o menino a construir sentido para os textos que ouvia. Na perspectiva do escritor, ele experimentava, “de verdade”, as histórias de Rosa porque as personagens do reino da fantasia viviam também em personagens da vida real: “[...] Além de ouvir a onda de poesia das histórias de Rosa eu as vivia porque alguns personagens de suas sagas andavam envultados em conhecidas de Juiz de Fora. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.228-229).
Temos aqui um exemplo de um dos modos de apropriação de Pedro Nava das histórias que escutava durante a infância e também dos livros que leu ao longo da vida. Tal como os sentidos que o escritor atribuiu ao romance de Eça de Queirós, O Primo Basílio, e ao texto As Minas de Salomão, conforme se verá mais adiante neste capítulo, as histórias contadas a Nava por Rosa eram utilizadas na compreensão da vida de todo dia: “Gênio bom era o Doutor Beauclair. Diziam que era médico e era mesmo, por sinal que médico de meu irmão Paulo. Instruído pelas histórias da Rosa, eu sabia, apesar de sua estatura, que ele era um dos sete anões da Branca de Neve. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.230). Temos aqui relações de apropriação que aproximam o texto oral do texto escrito. Vive-se na vida real o mundo literário, o que costumaria acontecer com “leitores éticos”,154 independentemente se as histórias são conhecidas por meio da narração oral e em grupo, ou por meio da leitura individual e solitária.
Também a história de um alfaiate de Juiz de Fora é mais um exemplo de como a ficção oferecia uma possibilidade ao menino Pedro Nava para compreender a realidade:
154 Ver as problematizações elaboradas por LAHIRE (2002) a respeito das formulações de BAKHTIN
[...] O pior de todos foi um alfaiate que despedaçou a mulher com o tesourão do ofício. Não havia de ser a primeira. Ele noivara depois dos sete dias de folguedos e caçadas que meu tio Chico Horta oferecera por ocasião de suas bodas de ouro. Quando eu passava pela casa do malvado, via sempre a janela fechada do quarto onde estavam penduradas pelos pescoços abertos suas sete mulheres e seus sete manequins sem cabeça – e sentia um cheiro de sangue e carniça empestando a Rua de São Sebastião. Quando ele foi preso, quis virar urso, mas meu Pai, chamado como perito, demonstrou que tudo era farsa e que ele era mesmo Gilles de Rays, o Barbazul. O Duque de Bretanha, que era então Juiz de Direito, deu- lhe trinta anos e ainda foi pouco (NAVA, BO, 2002, p.230).
A história do “Barbazul”, contada a Nava por Rosa, misturava-se às personas da vida (real?). Trata-se, pois, de mais um exemplo que nos mostra como Pedro Nava, na infância, apropriava-se das narrativas que ouvia.
A maneira como Rosa contava as história a Pedro Nava fazia com que o menino se prendesse tanto ao conteúdo da narrativa que, posteriormente, esse conteúdo seria utilizado para dar sentido aos acontecimentos do mundo em que ele vivia, como também a outros elementos que constituíam a apresentação mesma da história por parte de quem as contava (ou recitava):
Entretanto, história que deixava longe a da Mimi Canuto era a da perversa Juliana. [...] A voz da Rosa alteava-se no final como a de uma prima dona. Sincera no papel duplo que representava, sincera a ponto de chorar de Dom Jorge agonizando, gargalhar de Juliana e chorar novamente com todos os meninos que choravam, indiferentes à barbárie das rimas, aos pés quebrados e aos versos ora hepta ora octossilábicos. O talento cênico da negra era fantástico e ela interpretava genialmente, à mineira, cantiga portuguesa ou coisa erudita tornada canto popular. Ah! Rosa [...]. Agora a Juliana. Ela encenou, contracenou e cantou [...] (NAVA, BO, 2002, p.231-233. Os destaques em itálico são do autor.).
O significado das palavras ganhavam mais vigor com a performance de Rosa. A variação na voz levava Pedro Nava a perceber a tensão que surgia no interior da trama narrada por causa das ações da anti-heroína. No seu papel representativo das personagens da história que ia contando ao menino, Rosa prendia-lhe a atenção porque, ao contar a história, era como se encarnasse os sentimentos e o caráter das personagens. Rosa interpretava de tal modo a história que contava a Pedro Nava, que ele não pôde se esquecer nem do conteúdo da narrativa que ouvira, nem da forma que o texto teria: “versos ora hepta ora octossilábicos” de “pés quebrados”. A habilidade cênica de Rosa encantava o menino que pedia que ela lhe contasse uma e outras vezes as histórias já contadas. Repetia-se o mundo maravilhoso da fantasia, e o gosto do menino pela ficção ia se consolidando. Para os dias mais difíceis, histórias que amenizassem o sofrimento: “[...] Os dias de doença, passava-os
ouvindo histórias da Rosa ou na janela vendo o dia amarelo. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.262).155
Vale notar que quem contava a Pedro Nava as histórias não eram as mulheres da família, suas parentes biológicas por assim dizer, mas, sim, Rosa, uma mulher que se agregava à família materna do memorialista. Atualmente, são os pais e especialmente as mães, as tias, as mulheres das famílias de crianças pequenas que, em geral, contam-lhes histórias. Alfabetizadas e participando das culturas do escrito, reconhecem o valor (seja afetivo, seja em termos de letramento156) de se contar ou ler histórias para as crianças. No caso de Pedro Nava, diferentemente desse comportamento contemporâneo, comum entre membros de famílias de classe média, quem se mobilizava, na primeira infância, para lhe apresentar os contos de fada e as histórias infantis, era Rosa, uma espécie de empregada da casa de sua avó materna, que, provavelmente, não sabia ler e escrever.