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6. ADIM Hız ve çeviklik:

3.3. İstatistiksel Analiz

Para quem recebe, pela oralidade, valores tradicionais da família parece natural que certos temas sejam favorecidos nas conversas cotidianas: “[...] A conversa geral era cheia de preferências pelas idéias, pelas coisas e causas nobres, pelos assuntos intelectuais – estes versados simplesmente, como moeda de todo dia. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.337). Se a preferência por determinados assuntos nos encontros entre familiares parece espontânea aos olhos de um de seus membros que se comportaria como um “herdeiro” de elementos da tradição de sua família, também lhe parece coerente e apropriado o silêncio de seus parentes em relação a assuntos que não reforçam aquilo em que a família acredita: “[...] Jamais ouvi maledicência veiculada por meus pais e meus tios, como nunca ouvi palavras azedas de disputa na minha gente paterna. [...]” (p.337).

A oralidade foi, no ramo mais erudito e intelectualizado da família de Pedro Nava, o instrumento privilegiado pelos parentes para transmitir a ele, como também para fazer sobreviver ao tempo, um conjunto bastante diversificado de elementos que compunham a herança cultural desse ramo da família. Seja para transmitir e cultivar elementos morais, éticos, valores e princípios de vida, seja para transmitir capital cultural, a oralidade freqüentemente engendrava esse processo. Assim, também as práticas de leitura e de escrita de familiares paternos de Nava ligavam-se aos usos da palavra em sua manifestação oral.

Os parentes por quem o memorialista nutria admiração geralmente encantavam Pedro Nava não só por seus traços de caráter, mas também pelo domínio de habilidades ligadas à oralidade. O Comendador Iclirérico Narbal Pamplona, um dos tios-avós paternos do escritor, era, para o sobrinho-neto, a representação da medida, do discernimento, da ponderação, da cerimônia. Além disso, chamava a atenção de Nava sua capacidade para narrar. Em direção ao Rio Comprido, encontramos outras personagens, amigos da família paterna de Nava, entre os anos de 1910 e 1911, de quem o escritor guardou também a habilidade para contar casos:

[...] Modesto, Manuel Almeida dos Guimarães Modesto, seu Maneco [...]. Quando contava da Rua Bela de São João, abundava em minúcias sobre seu vizinho, o Major Sukow, sua paixão pelas corridas de cavalos, sobre os

casamentos em que estivera, de suas filhas Vera e Glika, que tinham convolado com os poetas Augusto de Lima e Luís Carlos da Fonseca. A abolição, ele tinha visto em Cataguases e o êxodo da negrada largando a lavoura, metendo o pé na estrada e gritando que agora era tão bom como tão bom. A República e a deportação do Banana, gozara-a no Rio. Assistira, depois, à Revolta da Armada, batera-se como uma fe-fe-fe-fera na ponta da Armação e era Deus no céu e o Marechal na terra. Repetira seu nome em dois filhos – Floriano, morto menino de febre amarela, e Floriana Peixoto, que se casaria mais tarde com seu primo Julinho Modesto. Eu também gostava dos casos do velho, através dos quais ia me impregnando do humour meio amargo e meio resignado, daquele sentido carioca, subúrbio e Zona Norte – melancolia e entrega – que eram a sua tônica e que mais tarde fui encontrar em Lima Barreto, de quem o seu Modesto era vero personagem. De traços tão veementes como Policarpo Quaresma, era um velho forte e espadaúdo, cabelos brancos en brosse carrée, barba e bigodes de idêntica prata. [...] (NAVA, BO, 2002, p.311-312. Os destaques em itálico são do autor.).

Os casos contados por seu Maneco chamavam a atenção de Pedro Nava. As conversas incluíam desde experiências pessoais de Modesto até fatos que englobavam personagens das letras brasileiras, fatos da política nacional, mudanças na sociedade do país, os quais iam fazendo parte também da vida de seu Maneco, do cotidiano de pessoas comuns como eram os parentes de Nava. Assim, temas como a Abolição da Escravatura, a Proclamação da República, a Revolta da Armada chegavam ao menino Pedro Nava não ainda pela leitura desses acontecimentos nos jornais ou em livros de História, de Literatura, mas por meio da voz de Modesto, temperados com ingredientes próprios da oralidade (tais como: a variação na entonação e no ritmo da fala; as ênfases; a performance151 de quem conta os casos ou narra uma história, um acontecimento, seus gestos, sua fisionomia, etc.), (re)criados pelo memorialista em seu texto. É a narrativa de Pedro Nava que nos transporta para a situação em que a conversa de seu Maneco com parentes do escritor se desenrolava. Então, é possível imaginar, por exemplo, a entonação de Modesto ao falar sobre “a deportação do Banana” com a proclamação da República; a sua excitação “como uma fe- fe-fe-fera” para se referir ao Marechal Floriano Peixoto na ocasião da Revolta da Armada. O contato de Pedro Nava com seu Maneco, com sua performance quase teatral para narrar os acontecimentos de seu país, preparava, podemos imaginar, o menino que Nava era na época, para o contato com a escrita. Posteriormente, ao ler um texto, Pedro Nava

151 Empregamos essa noção aqui para abordar a teatralidade (ZUMTHOR, 2007, p.18) que envolveria o

comportamento de seu Maneco ao contar suas histórias na casa dos parentes de Pedro Nava, no Rio de Janeiro. Destacamos, portanto, nesse sentido, o “engajamento do corpo” (p.18) de quem conta histórias ou casos no momento em que faz isso para um público que ouve as narrativas e constrói sentido para elas por meio de suas percepções sensoriais. O ouvinte não apenas escuta as histórias, mas também vê as reações do corpo de seu interlocutor à medida que ele narra oralmente essas histórias.

encontraria elementos de uma fração da realidade, já conhecidos por ele por meio da oralidade.

A voz de outros, desse modo, não apenas aproximava Pedro Nava, quando menino, de assuntos e temas que apareceriam em textos escritos, mas funcionava também como um “catalisador”, se pensamos em uma analogia com as reações químicas. A oralidade, por assim dizer, teria levado o desenvolvimento de Pedro Nava, em relação às temáticas das culturas do escrito, ao seu ponto “ótimo”, potencializando, o mais possível, o aproveitamento do menino no que se refere à leitura, à compreensão do texto escrito. Uma vez que Nava já se familiarizara com temas que seriam tratados em textos escritos, ouvindo casos e participando de um contexto que envolvia sujeitos sociais e elementos característicos de uma narrativa oral, a leitura, realizada depois, ganhava mais sentido para ele. É assim que o escritor, considerando a interpretação que ele mesmo atribuiu às suas leituras nas Memórias, criou intimidade, foi se “impregnando do humour meio amargo e meio resignado, daquele sentido carioca, subúrbio e Zona Norte” com que se encontraria, mais tarde, em Lima Barreto, no clássico Policarpo Quaresma. A participação de Pedro Nava dos encontros da família com “seu Maneco”, nos eventos orais, havia preparado, de certa forma, o escritor para a leitura literária, de acordo com a sua interpretação do passado. Antes de mergulhar no texto escrito, Nava já conhecia o estilo da narrativa de Policarpo Quaresma e a personagem principal da trama.

Debates em torno de assuntos, sobretudo, políticos ocorriam com freqüência, na casa dos parentes paternos de Pedro Nava, no Rio de Janeiro. Assistindo ao embate de opiniões entre seus familiares e amigos de seus parentes, Nava, desde menino, ia compreendendo não somente o cenário brasileiro nos primeiros anos do século XX, mas também as estratégias que os interlocutores usavam para opor argumentos, criticar e satirizar personalidades da política nacional:

Outro assunto que dava pano para mangas era hermismo e civilismo. Já se sabe que o hermista único era meu futuro tio Heitor Modesto, por causa da Escola Militar, mais sua amizade com o Mário Hermes e com o Jangote. Dentro do 106 todos, até as crianças usavam o distintivo civilista – o retrato do Conselheiro Rui Barbosa numa espécie de broche celulóide, redondo e cor de sépia. O Modesto também ostentava o do hermismo, exatamente igual ao dos adversários, só que em vez da face de Rui mostrava a cara do marechal. [...] Com aquele sorriso descuidado de militar feliz de que a caricatura se apossaria para [...] transformar naquela fisionomia lorpa e alvar que as revistas ilustradas divulgariam largamente, num país desmandibulado de gargalhadas. Meu Pai e tio Salles malhavam a uma no adversário e reproduziam as anedotas que ocorriam

sobre o futuro presidente. [...] (NAVA, BO, 2002, p.335. Os destaques em itálico são do autor.).

Ouvindo os argumentos do futuro tio de um lado e, de outro, as gozações de seu pai e de Antônio Salles, Pedro Nava ia também aprendendo quais são as maneiras que se tem (ou se constrói) para participar de uma discussão, de um confronto de idéias. Possivelmente, a munição do memorialista sagaz e demolidor de personalidades (e também de personagens mais comuns, da sua história) que se tornou tenha vindo de um longo processo de captação e acumulação de capitais, disponibilizados também e em grande medida por sua família.

Benzer Belgeler