• Sonuç bulunamadı

Ocorridas de abril de 1990 a janeiro de 1992, no que se entende como desdobramento do contexto iniciado por Esquipulas II, as negociações entre FMLN e governo salvadorenho poderiam ter fracassado como tantas outras que as precederam se não fossem as singularidades desse momento. Álvaro de Soto foi o enviado pela Secretaria Geral das Nações Unidas (SGNU) para El Salvador durante os primeiros meses da ONUSAL, e também o principal mediador pela ONU das negociações entre governo salvadorenho e FMLN, tal como se antecipou no capítulo 2.

Pode-se afirmar que a prévia consulta de representantes da FMLN com Soto aconteceu no escritório da Organização Aviação Civil Internacional (OACI) em Montreal, em dezembro de 1989, quando a ONU ainda não estava formalmente como facilitadora dos diálogos do processo de paz (SOTO, 1996, p.1). O encontro aconteceu no Canadá, pois, segundo Soto, os representantes da FMLN não conseguiram visto para os Estados Unidos. A intenção do

encontro por parte dos representantes da FMLN era questionar quais seriam as possibilidades de atuação da Organização (mediação, bons ofícios) na hipótese do encaminhamento do processo de paz em El Salvador, bem como consultar o diplomata peruano sobre como seria possível neutralizar a interferência e preponderância dos interesses dos integrantes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), especificamente, dos Estados Unidos.

Sobre esse aspecto, Álvaro de Soto informou que era possível criar um “grupo de amigos”, representantes de delegações de países da Assembleia Geral da ONU, tal como já havia o precedente em outras negociações mediadas pela ONU para a solução de controvérsias. Assim, esse grupo de países deveria ser próximo de El Salvador e da FMLN (SOTO, 1996, p.2-6). O grupo de países que atuou como coadjuvante do processo de negociação pela SGNU foi: México, Venezuela, Colômbia e Espanha, o “Grupo e Amigos da Secretaria Geral” para El Salvador134.

Outros atores internacionais somaram-se ao processo de conformação pacífica e foram importantes para pressionarem em momentos de impasse: Comunidade Europeia135, o Congresso dos Estados Unidos136, a administração do presidente George H. W. Bush, os países signatários de Esquipulas II e, novamente, o “Grupo e Amigos da Secretaria Geral”. Dos pontos de relutância entre governo e FMLN destacam-se as reformas militares e a reorganização do setor de segurança pública. Mudanças essas consignadas em emendas constitucionais (KARL, s.d., p.4).

134 O grupo de "Amigos da Secretaria Geral" foi formalizado em julho de 1991. Entre esses, Soto destacou o

México, que era o principal destino dos asilados políticos salvadorenhos na América Latina, razão essa que contribuiu para a criação de um dos escritórios da FMLN na Cidade do México. Soto também relatou que a Noruega se envolveu informalmente com o trabalho da SGNU para El Salvador, sem ser formalizado como parte do Grupo. Entre outras passagens da entrevista, Soto destacou que o presidente da Venezuela, Carlos Andrés Perés, era muito ativo dialogando previamente com o presidente de El Salvador e comandantes da FMLN, sendo a Colômbia bastante atuante no CSNU em 1989, quando estava como membro rotativo. A transcrição da entrevista de Álvaro de Soto (Jean Krasno, entrevistador), Nova Iorque, Estados Unidos, 9 abr 1996 está disponível em: <http://ugspace.ug.edu.gh/bitstream/handle/123456789/2887/DE%20SOTO.pdf?sequence=1>. Acesso em: 12/09/2013. Todas as entrevistas utilizadas nesse capítulo são fruto do projeto de registro de história diplomática da parceria da Yale University-ONU. O projeto desenvolveu-se com o procedimento da história oral, sendo os entrevistadores estudantes e professores de Yale e os entrevistados atores políticos salvadorenhos e de outros países e funcionários da ONU. Os arquivos em áudios e transcrições podem ser encontrados em: <http://drs.library.yale.edu/HLTransformer/HLTransServlet?stylename=yul.ead2002.xhtml.xsl&pid=mssa:ms.17 03&clear-stylesheet-cache=yes>. Acesso em: 03/03/2013.

135 A Comunidade Europeia (CE) era um dos principais financiadores do PNUD no programa de desmobilização

de combatentes na América Central (NEGROPONTE, 2011, p.150).

136 Marrack Goulding, funcionário da SGNU desde 1986 e chefe do departamento de operações de paz em 1992,

afirmou que o Congresso dos Estados Unidos exerceu pressão sob os representantes estadunindeses da ONU para que o acordo de cessar fogo fosse assinado rapidamente durante a condução dos meses de negociação por Álvaro de Soto (GOULDING, 1998, p.59). A transcrição da entrevista de Marrack Goulding (James S. Sutterlin, entrevistador), Oxford, Inglaterra, 30 jun 1998, está disponível em: <http://s3.amazonaws.com/downloads2. unmultimedia.org/public/dhl_oral_history/transcripts/Goulding30Jun98TRANS.pdf>. Acesso em: 12/09/2013.

Possivelmente, a nova conjuntura internacional que se encaminhou após a Queda do Muro de Berlim também influenciou na conjuntura interna salvadorenha, agregando os atores políticos para dialogarem e buscarem alternativas para pôr fim à guerra civil. Nesse contexto, recordando o precedente de equilíbrio estratégico (capítulo 1), a FMLN buscou as melhores maneiras para encaminhar negociações no início dos anos 1990; parte da ARENA adotou posição política flexível e adepta às soluções pragmáticas, contrapondo-se à vertente que queria dar continuidade à guerra civil; e houve a inclusão de outros participantes (partidos políticos e líderes de movimentos sociais) no processo de paz, minimizando a dicotomia governo/FAES e FMLN para abrir espaço para um diálogo mais amplo (CÓRDOVA MACÍAS, 1993, passim; LEVINE 1997, p.277-9).

Precede essa fase as conturbadas reuniões entre governo e FDR-FMLN para buscar uma solução para o término da guerra civil ao longo dos anos 1980. Tais encontros estavam imersos no contexto de engajamento da vitória militar amparada pela política externa dos Estados Unidos, o que fortaleceu a posição do governo de Duarte em insistir que a FDR- FMLN declarasse o cessar fogo e que os ex-combatentes constituíssem um partido político com a finalidade de concorrerem nas eleições como legítima força de expressão política, como apresentamos no capítulo 1.

Já nas eleições para a Assembleia Constituinte e presidenciais do início dos anos 1980, o candidato Napoleón Duarte pediu para as guerrilhas deixarem as armas e convidou-as a ingressarem nos processos eleitorais, formalizando-se como partido político (capítulo 1). Tal alternativa não foi a escolha da FDR-FMLN que visualizou essa opção como derrotista e conformada com o apoio político e militar que as FAES receberam dos Estados Unidos na estratégia resumida como “guerra-eleições-guerra” por Cuenca e Schwartz (1982, p. 338-9).

Na opinião do presidente salvadorenho Alfredo Cristiani (1989-1994), o presidente Duarte não tinha um plano de processo de paz para negociar com a FMLN, sendo as conversas que ele manteve com a FDR-FMLN aconteceram de maneira dispersiva e sugerindo colocá-los no rumo de engajamento político (via eleitoral) em detrimento da guerra revolucionária e deposição do governo, o que não aconteceu. Ademais, na visão do presidente, ele acrescentou que antes da ofensiva de 1989, a FMLN não tinha qualquer intenção em negociações de paz (CRISTIANI, 1997, p.2) 137.

137 A transcrição da entrevista de Alfredo Cristiani (James S. Sutterlin, entrevistador), San Salvador, El Salvador,

25 jul 1997 está disponível em: <http://s3.amazonaws.com/downloads2.unmultimedia.org/ public/dhl_oral_ history/transcripts/Cristiani25Jul97TRANS.pdf>. Acesso em: 12/09/2013.

Sobre esse mesmo aspecto, Córdova Macías (1993, p.25) escreveu que, mesmo depois das eleições do início dos anos 1980, existiu resistência das FAES e do governo em negociar com a FDR-FMLN para não reconhecê-la como grupo político representativo, marginalizando os guerrilheiros e alegando que não negociar era a alternativa necessária para não violar a ordem estabelecida pela Assembleia Constituinte (1982-1983). Na verdade, trata-se de opção política pela continuidade da guerra civil, principalmente sabendo que muitos recursos viriam dos Estados Unidos para sustentar as FAES no confronto.

Em contraposição a visão do presidente Cristiani, Shafik Handal, um dos comandantes da FMLN, afirmou que a FDR-FMLN sempre apresentou propostas e buscou uma solução política para a guerra civil, formalizando-as por escrito e que eram entregues ao arcebispo de San Salvador, que as levava aos governos salvadorenhos desde 1981. Handal argumentou que Duarte as recebeu por diversas vezes e, em alguns momentos, mobilizou-se a participar de encontros (foram três) que, na opinião do comandante, eram reuniões com discussões vagas e pouco propositivas quanto ao fim do conflito (HANDAL, 1997, p. 10-11) 138.

No contexto da política doméstica dos Estados Unidos, enfatiza-se que a opção da administração Reagan não foi consenso. Quanto mais fracassos foram acumulados ao longo da guerra civil, maiores foram as divergências entre os atores políticos das diferentes esferas de poder, principalmente no Legislativo dos Estados Unidos. Assim, muitos exerceram pressão e passaram a apoiar iniciativas pacíficas e acordos regionais para a América Central, tal como Contadora e Esquipulas. Arnson (1987, p.123-124) afirmou que essa defesa era oriunda, sobretudo, dos congressistas democratas. Por outro lado, outros democratas da Câmara dos Deputados, como Clarence D. Long, tinham diferente opinião. O democrata Long afirmou que foi um erro político os Estados Unidos envolverem-se na guerra civil de El Salvador. Contudo, uma vez imersos na questão, seria outro erro político os Estados Unidos deixarem de estar envolvidos politicamente com a guerra civil139.

Em 23 de janeiro de 1989, a FMLN emitiu um comunicado – “Proposta da FMLN para converter as eleições em uma contribuição para a paz” – sinalizando a vontade política para dialogar. Córdova Macías (1993, p.27) afirmou que esse pedido foi reflexo mais da

138 A transcrição da entrevista de Shafik Handal (Jean Krasno, entrevistador), San Salvador, El Salvador, 19 jun

1997 está disponível em: <http://s3.amazonaws.com/downloads2.unmultimedia.org/public/dhl_oral_history/ transcripts/Handal19Jun97TRANS.pdf>. Acesso em: 08/08/2013.

139 Entrevista de Clarence D. Long concedida ao jornalista Martin Tolchin. "Working Profile: Rep. Clarence D.

Long, Shaping a Response to the 'Mistake' in El Salvador" The New York Times, 22 abr 1983, p. A16. Disponível em: <http://www.nytimes.com/1983/04/22/us/working-profile-shaping-response-to-the-mistake-in-el- salvador.html>. Acesso em: 08/12/2013.

natureza interna do conflito do que de fatores externos, como o enfraquecimento ideológico do comunismo em alguns países da Europa do Leste, da União Soviética ou das derrotas sandinistas nas eleições da Nicarágua, levando a FMLN a não ter apoio externo e resolver optar pela negociação.

Portanto, na visão de Córdova Macías (1993, p. 31-3), a FDR influenciou a FMLN no processo de possível participação das próximas eleições em 1994, pois a FDR distanciou-se da FMLN e uniu-se a outras coligações e partidos formando a Convergência Democrática, que concorreu nas eleições presidenciais de março de 1989. Muito desse incentivo veio da Comissão de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos em conversas com Guilhermo Ungo (Movimento Nacional Revolucionário – MNR, integrante da FDR) e outros integrantes de grupos políticos de esquerda, mas não combatentes em El Salvador. Esse foi um claro esforço do Senado para enfraquecer a opção armada e a FMLN, além de incentivar o encaminhamento de formalização de partidos políticos para concorrer às eleições.

Na verdade, defende-se que a mudança da administração de Ronald Reagan para a de George H. W. Bush140, que não apoiou a continuidade do financiamento para a guerra civil, é o fator significativo, e que influenciou a FMLN a ter postura inclinada ao diálogo. Ademais, em fevereiro de 1989, o presidente Bush enviou para San Salvador o seu vice-presidente, Dan Quayle, para exigir que os assassinatos promovidos pelos esquadrões da morte cessassem. Quayle afirmou que o apoio de Washington dependeria do esforço do governo salvadorenho e das FAES em zelar pelos direitos humanos no país141.

Sobre essa visita, o assistente do Departamento de Estado para assuntos interamericanos entre os anos 1989 e 1993, Aronson (1997, p.4) recordou que o vice- presidente dos Estados Unidos confrontou as FAES quanto ao incidente em San Sebastian, em 21 de setembro de 1988, quando 10 camponeses detidos foram executados por um oficial militar salvadorenho142, e exigiu que houvesse investigação e punição aos envolvidos.

Ademais, Quayle deixou a clara mensagem de que ansiava ver o avanço do processo de

140 Apesar de fazerem parte do mesmo governo, o presidente Reagan era líder da ala mais conservadora do

Partido Republicano, enquanto o vice-presidente Bush era representante do setor moderado. A diferença entre esses dois segmentos ficou evidente na conduta da política externa para El Salvador (LEOGRANDE, 1990, p.595).

141 ULLMANN, O. “Quayle warns El Salvador on human rights”. Philly.com, 04 fev 1989. Disponível em:

<http://articles.philly.com/1989-02-04/news/26152854_1_vice-president-quayle-human-rights-rights-abuses>. Acesso em: 24/01/2014.

142 COMISSÃO DA VERDADE PARA EL SALVADOR. "From Madness to Hope: the 12-year war in El

Salvador". Disponível em: <www.usip.org/sites/default/files/file/ElSalvador-Report.pdf >. Acesso em: 24/01/2013.

negociações no país143. Os congressistas, em específico, aqueles do Subcomitê de Assuntos Hemisféricos da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, organizaram diversas sessões para debater como encaminhar o processo de paz e melhor assistir aos direitos humanos (COMITÊ DE RELAÇÕES EXTERIORES DA CÂMARA DOS DEPUTADOS, jan-fev 1990; out-nov 1991; jun-jul 1992; mar1993).

Sobre as consultas para viabilizar o processo de paz a ser acompanhado pela ONU, breves encontros entre FMLN e governo de El Salvador aconteceram em três momentos. Essas reuniões não foram aquelas nas quais a ONU atuou como mediadora formalmente aceita pelas partes. Contudo, Álvaro de Soto acompanhou informalmente essas negociações e propôs esclarecimento sobre como a Organização poderia interceder pelas partes, de modo a permitir que FMLN e governo de El Salvador alcançassem o cessar fogo (BUCHANAN; CHÁVEZ, 2008, p.16-17). Esses encontros aconteceram de 13 a 15 de setembro de 1989, na capital do México; entre os dias 16 e 17 de outubro de 1989, em San José, Costa Rica; e de 20 a 21 de novembro de 1989, em Caracas, Venezuela.

A primeira reunião formalizou a vontade das partes em conduzir diálogos que possibilitassem alternativas para o cessar fogo. Respectivamente, o segundo encontro, em San José, foi o momento em que cada uma das partes apresentou essas propostas. Por fim, a terceira ocasião foi a mais tumultuada e não houve entendimento e condições propícias ao diálogo. Isso porque a FMLN fez uma ofensiva em 11 de novembro de 1989. O ataque atingiu as residências do presidente da República e do presidente da Assembleia Legislativa, além das brigadas da infantaria do exército e da Polícia Nacional144. Entende-se que o objetivo da FMLN com os ataques era realizar uma demonstração de força, contrariando as declarações de políticos e comentaristas nos Estados Unidos sobre o gradativo enfraquecimento da guerrilha salvadorenha, já que o apoio externo não existiria mais por parte da União Soviética, ou indiretamente, por parte da Nicarágua, após a Queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989 (LEOGRANDE, 1990, p.610).

Em retaliação a ofensiva da FMLN, seis jesuítas foram assassinados, em 16 de novembro de 1989, sendo um deles o reitor da Universidade Centro-americana (UCA). Primeiramente, as mortes foram acusadas como sendo de autoria da FMLN, algo que remonta

143 A transcrição da entrevista de Bernard Aronson (Jean Krasno, entrevistador), Washington D.C, Estados

Unidos, 09 out 1997 está disponível em: <http://s3.amazonaws.com/downloads2.unmultimedia.org/public/ dhl_oral_history/transcripts/Aronson09Oct97TRANS.pdf>. Acesso em: 08/08/2013.

o cenário do assassinato do Arcebispo Romero, em 1980145. Todavia, meses depois, a responsabilidade pelos assassinatos na UCA, em 1989, foi atribuída aos militares participantes dos esquadrões da morte146.

No primeiro encontro, em setembro de 1989, o presidente Alfredo Cristiani e o comandante da FMLN reuniram-se na Cidade do México para tentar negociar o fim da guerra civil147. O encontro esteve fadado ao fracasso, pois os integrantes da FMLN exigiram que o diálogo não tivesse condições preestabelecidas para os guerrilheiros cumprirem, como havia sido feito no decorrer dos anos 1980, o que foi negado pelo presidente da ARENA (BUCHANAN; CHÁVEZ, 2008, p.17). Nessa mesma reunião, foi apresentada a proposta de que os próximos encontros fossem mediados por um funcionário indicado pela ONU, o que foi aceito por ambas as partes. Assim, sabendo da concordância, os secretários-gerais da ONU e da OEA apontaram o mesmo nome, Álvaro de Soto, como o indicado pelas duas organizações para conduzir as negociações em El Salvador.

A OEA não foi Organização atuante no processo de paz, pois a preferência era de que a ONU fosse a principal instituição a conduzir o processo juntamente com o “Grupo e Amigos da Secretaria Geral”. Essa opção minimizou a influência de outros países nas negociações, reduzindo o risco de tumultos e politização do processo de paz que pouco auxiliaria para conformar assinaturas. Esse receio remonta ao que foi Contadora e, principalmente, ao acordo alcançado e a intenção de afastar os Estados Unidos da iniciativa

145 A Arquidiocese da Igreja Católica em San Salvador sempre foi de posição conservadora. Todavia, os padres assassinados eram progressistas, proferiam sermões contrários aos atos de violência das guerrilhas e de grupos paramilitares (BETANCES, 2007, p.90-1). Assim, entende-se, em primeiro lugar, que os assassinatos programados pelos líderes dos esquadrões da morte contra os padres progressistas eram uma espécie de retaliação para provocar o medo e o silêncio nos demais padres de mesma posição. Ademais, afirmou Betances (2007, p.92-3), os esquadrões da morte não aceitavam que os padres progressistas continuassem a apoiar a posição da FMLN desde o início da guerra civil: resolver o conflito pelo caminho das negociações. Como a FMLN fez a ofensiva, em 1989, para demonstrar poder e forçar o caminho das negociações mais favoráveis aos pontos suscitados pela FMLN, os esquadrões da morte também programaram os assassinatos dos padres na UCA para sinalizar que o caminho das negociações não era bem-vindo.

146 GRUSON, L. "6 priests killed in a campus raid in San Salvador”. The New York Times, 17 nov 1989.

Disponível em: <http://www.nytimes.com/1989/11/17/world/6-priests-killed-in-a-campus-raid-in-san- salvador.html>. Acesso em: 08/12/2013.

147 Blanca Antonini, que foi escolhida para supervisionar os trabalhos da Comissão de acompanhamento da

implementação dos acordos de paz (COPAZ), afirmou que o presidente Alfredo Cristiani, tão logo assumiu o cargo em 1989, já declarou estar disposto a negociar com a FMLN para chegar a um acordo de paz e convidou a FMLN para rodadas de negociação que aconteceram no México e na Costa Rica. Antonini afirmou que o presidente Cristiani convidou um representante da OEA e da ONU para acompanharem as sessões e enfatizou que, até aquele momento, nenhuma das organizações multilaterais havia tomado a iniciativa do processo de paz. Ademais, ela interpretou que a ofensiva da FMLN em novembro de 1989, era um sinal de que a guerrilha queria mais e melhores condições para negociar com o governo de Cristiani (ANTONINI, 1997, p.3-4). A transcrição da entrevista de Blanca Antonini (Jean Krasno, entrevistador), Nova Iorque, Estados Unidos, 30 jul 1997 está disponível em: <http://ugspace.ug.edu.gh/bitstream/handle/123456789/2764/Antonini.pdf?sequence=1>. Acesso em: 08/08/2013.

do Grupo de Lima, como avaliado no capítulo 2. A presença de poucos atores internacionais foi considerada suficiente para assegurar maior estabilidade no processo negociador conduzido pela ONU (LEVINE, 1997, p.248-9).

Outra razão apontada por Goulding (1998, p.54-6), era a de não repetir a competição entre as duas Organizações no desfecho do processo de paz, tal como aconteceu na Nicarágua. O secretário-geral da OEA, João Baena Soares, vislumbrou que possivelmente haveria a aprovação de uma operação de paz da ONU para El Salvador. Assim, era melhor que a ONU fosse a instituição mentora dessas negociações. Todavia, entende-se da entrevista que a condução dos processos de paz pela ONU foi aceita pela OEA com certa relutância por não obter o mérito político nesse processo. Retomando as palavras de Goulding (1998, p.54-5), como naturalmente o fim da guerra civil em El Salvador presumiria o envio de uma operação de paz, a ONU foi a instituição que acompanhou o processo com a anuência da OEA.

Em outubro do mesmo ano, em San José, Costa Rica, o segundo encontro entre governo e FMLN aconteceu observado pelo enviado das duas organizações (ONU e OEA)148 (BUCHANAN; CHÁVEZ, 2008, p.17; WHITFIELD, 1999, p.263). Nesse momento, a FMLN levou cinco pontos para a mesa de negociações: reforma da Constituição, profissionalização das forças armadas, medidas para o fim da repressão e restauração das plenas liberdades