Quarto encontro, realizado em 11/02/2004 – D-E unidades 1, 2 e 3.
Daniel inicialmente reage negativamente, pois quer brincar. Mas, após as instruções, solicita que a pesquisadora escreva o nome dele na folha.
1 D-E
Daniel faz um rabisco e pergunta “O que é isto tia?” “Eu não sei, o que é?” “É o teletubbies”. “O que está fazendo?” “A minhoca”. Daniel solicita a caixa lúdica. Apresenta-se disperso, levanta-se a todo o momento, não demonstra interesse pelo desenho. Determina que a pesquisadora coloque seus dois primeiros nomes no desenho e informa que é “um desenho”.
História: Sem título
“Era uma vez... um nenê”. “E ai?” “Um menino...” “Era uma vez um nenê menino. E o que mais?” “Um saci pererê” “E daí?” “E daí ele foi embora”. “Por que o saci pererê foi embora?” “Porque ele tá doente”. Não responde mais ao inquérito.
Análise da unidade de produção 1
A dissociação se apresenta pela ação dos mecanismos defensivos regressivos. Além da dissonância quanto aos aspectos evoluídos e regressivos, a criança comunica que tem percepção de sua limitação física; talvez tente compreendê-la e dar significado a ela, pois a inclusão do personagem folclórico em sua verbalização sugere esse aspecto. O que também se percebe é que Daniel mostra recursos favoráveis quanto à percepção e à aprendizagem. A dificuldade em cumprir a tarefa dirigida, além de se relacionar com a utilização de mecanismos regressivos, também se relaciona à presença de angústias de separação que contribuem para a interferência na sua produção. A criança apresenta-se dispersa para a realização da tarefa, e os comportamentos regressivos contribuem para esse movimento de dispersão. É possível atribuir a presença de movimentos
confusionais às atividades dirigidas, em virtude da utilização, pela criança, dos mecanismos regressivos.
Unidade de Produção 2
2 D-E
Daniel solicita que coloque seus dois primeiros nomes no desenho. “O que desenhou?” “Pererê... Menino... Menino... Menino”.
História: Menino Pererê
“Era uma vez um menino que foi embora... Depois ele volta...” “E daí?” “E no médico”. “E?” “Foi embora”. “Para onde o menino foi embora?” “Porque ele tá doente”. “O que ele tem?” “Depois ele volta”. “Para onde ele vai voltar?” “Pra casa”.
Análise da unidade de produção 2
Com a apresentação de aspectos mais evoluídos, a criança comunica as separações, que despertam angústias. Quando a criança se apresenta em momentos mais integrados, ela pode comunicar o desejo de ter um lar estruturado, o que é perceptível pela compreensão de suas vivências reais.
Cont. D-E:
Daniel afirma que não irá mais desenhar. Pega um jogo que fica disponível na prateleira da sala. Trata-se de unir os pares, mas Daniel não identifica as figuras iguais, não forma os pares. Depois de jogar algumas vezes, com o
auxílio da pesquisadora, esta propõe retornar aos desenhos, o que Daniel aceita.
Unidade de Produção 3
3 D-E
Inicialmente Daniel solicita para colocar seu nome, assim como nas produções anteriores. Ele diz: “o sapato, eu fiz”. A criança solicita para a pesquisadora também fazer um sapato.
História: Sem título.
“Um menino foi passear no carro”. “E daí?” “E daí foi embora, aí ele foi embora”. “O que irá acontecer com o menino?” “Eu não quero mais história.”
Análise da unidade de produção 3
A criança apresenta a tentativa de perceber o movimento de separação livre de angústias, mas não se mantém nesse movimento, o que sinaliza que tanto os movimentos de afastamentos como de separações são vivenciados com o despertar de angústias. Sua produção se apresenta alterada possivelmente pelas angústias emergentes de separação.
A pesquisadora e a criança retornam ao jogo de pares, a pedido de Daniel. Novamente, ele não identifica os pares e não une as figuras. Finalizamos o encontro, e Daniel aceita o encerramento.
Análise do procedimento de desenhos-estórias – quarto encontro
Nesse encontro, diante da atividade gráfica e dirigida, a criança comunica a dissociação. Comportamentos regressivos são apresentados. Os mecanismos defensivos de regressão contribuem para a não-realização da tarefa. A criança comunica a dissonância entre aspectos evoluídos e regressivos, além de angústias emergentes diante das separações. Apresenta defasagens quanto à aprendizagem em nível de produção e de rendimento, o que é compreensível diante dos mecanismos defensivos utilizados.
Quinto encontro, realizado em 20/02/2004 – D-E unidade 4.
Daniel, após as instruções dos desenhos-estórias, solicita que a pesquisadora desenhe uma casa, o que ela atende, mas desenha em outra folha e não na da criança. Daniel pinta o desenho.
Unidade de Produção 4
Daniel explica que desenhou um rabo e comenta que é “o rabo na festa”. Em seguida, esclarece que será realizada uma festa de carnaval no abrigo, no dia posterior. “O que desenhou?” “Um peixe.”
4 D-E
História:
“O peixe foi lá no fundo e aí ele foi embora”. “E ai?” “Eu vô pegá a história”... “Por que ele foi embora?” “Porque ele vai na casa dele ... Porque ele tá doente”. “O que ele tem?” “Tem dodói... Hoje tem lanche.”124 “E a história, o
que tem mais?” “Tem homem... O peixinho vai... A tia J.125 pois eu de castigo
hoje”126. “Por quê?” “Eu fui abri a chave, a porta do portão. Eu queria ir
embora...” “Para onde, Daniel?” “Eu queria ir... ” (silêncio).
Análise da unidade de produção 4
A produção de rendimento da criança se apresenta alterada pela ação dos comportamentos regressivos emergentes. A criança comunica os movimentos de separação, de desligamento e também com o contato estabelecido com a pesquisadora. Durante sua produção, a criança apresenta aspectos dissociados, pois comunica estados regressivos e aspectos mais evoluídos − nestes últimos pode verbalizar sobre suas vivências reais e desejos quanto a modificações de situações atuais vividas, o que demonstra que a criança se utiliza de defesas regressivas diante da incidência de angústias emergentes. Revela boa condição para comunicar suas vivências emocionais.
124 A sessão transcorria próxima ao horário do lanche da tarde. 125 Secretária da instituição.
126 Quando a pesquisadora chegou à instituição, Daniel estava na sala da coordenadora, em pé e encostado na parede. Essa posição já era conhecida, pois se tratava de um castigo. Indicava que a criança deveria permanecer nessa posição até a autorização da coordenadora para sair do castigo. Como a pesquisadora conhecia tal conduta da instituição, requisitou que Daniel fosse atendido imediatamente, com a finalidade de antecipar sua liberação do castigo.
Nesse momento, a pesquisadora interrompe a aplicação do procedimento e conversa com Daniel. Comenta sobre o desejo da criança em não estar na instituição, em ter uma casa para onde retornar, ir embora do abrigo. Talvez, como o “peixe da história, voltar para a casa dele”, explica a pesquisadora para Daniel. A criança permanece em silêncio por alguns instantes. Não retorna ao desenho e não efetua a quinta unidade de produção. A pesquisadora encerra a aplicação do procedimento D-E e apresenta a caixa lúdica.127
O encontro com a caixa lúdica
Daniel solicita que a pesquisadora pegue o lápis e, seqüencialmente, reconsidera e diz: “Não, tia, eu vô colá. Vô colá”. A criança pega o apontador: “Tia, abre aqui”. A pesquisadora explica que o apontador não é de abrir, e sim para apontar o lápis. “Quem?” Daniel não consegue manusear o
apontador e a pesquisadora ensina a ele como fazer.128 A criança se
interessa em apontar os lápis depois de ter aprendido a manusear o apontador. Daniel rabisca a folha com o lápis que apontou. A pesquisadora pergunta o que a criança faz e ela diz: “Igual você”.129. Daniel menciona que
está escrevendo o seu nome e solicita a cola e a despeja sobre seu nome: “Tô colando o meu nome”. Depois, passa o pano por cima da cola e do nome: “Eu tô limpano”. Seqüencialmente a esse movimento, Daniel apresenta-se com movimentos confusionais. É preciso localizá-lo no diálogo: “Quem?” “O Daniel... Quem é o Daniel?” “Eu”. A pesquisadora pergunta se a criança tem irmãos e Daniel reconhece somente o Mathias. Assim, a pesquisadora retoma a história de vida da criança. A criança olha para a figura do saci- pererê pendurada na parede da sala e diz que “ele vai embora”. Guarda a cola e os panos na caixa e pergunta o que era a massinha. A pesquisadora devolve a pergunta, e Daniel grita: “É massinha, tia!... A massinha volto! Tem
127 Além do contrato inicial com a criança sobre a apresentação da caixa lúdica próximo à finalização do encontro, também pela manifestação de angústias emergentes, tornou-se necessário o contato com a atividade lúdica, pois o brincar poderia vir a contribuir para a continência das angústias despertadas.
128 A pesquisadora explica como manusear o apontador e demonstra como se faz para apontar lápis. A pesquisadora segura as mãos de Daniel e, juntos, apontam o lápis. Após algumas tentativas, Daniel consegue apontar sem a ajuda da pesquisadora.
outra, intera!130... Vô cortá”. Daniel pega o barbante e decide cortá-lo em
pedaços e comemora (“Eh!”), contemplando sua ação. A partir desse momento, o pedido de ajuda somente é feito quando, após algumas tentativas, a criança não consegue realizar sozinha o que pretende. Segue cortando a embalagem da caixa da massa de modelar e, logo após, solicita que a pesquisadora a jogue no lixo. Depois de cortar todo o plástico, Daniel também corta as massinhas, em pedaços bem pequenos, e une-os logo em seguida, de forma a constituir uma bola; depois, repete o comportamento cortando-as em pedaços pequenos. Daniel hesita um pouco para finalizar o encontro, mas reage mais tranqüilamente do que nas ocasiões anteriores. Despede-se afetivamente da pesquisadora, com um abraço forte e um beijo.
Análise do encontro com a caixa lúdica
A criança pode aproveitar as intervenções da pesquisadora, revelando a possibilidade de continência às angústias. Daniel comunica que tem condições de se desenvolver no nível da aprendizagem. Estabelece compreensão, demonstra a capacidade de seguir orientações e apresenta o conhecimento adquirido, e nesse momento não se utiliza das defesas regressivas. Revela alegria quando recupera o que se apresenta como bom e aproveita para se utilizar disso. A criança apresenta movimentos de fragmentação, mas também de união, sinalizando grandes possibilidades de aproveitar o acompanhamento psicoterapêutico, fazendo um bom uso das intervenções.