Primeira hora de jogo, realizada em 04/02/2004.
Daniel explora a caixa. Para cada material pergunta: “O que é isso?”e aguarda a explicação da pesquisadora. Solicita permissão para pegar qualquer material. Enrola a folha de sulfite como um canudo e solicita ajuda à pesquisadora para cortar pedaços de barbante e para amarrá-los à folha. Daniel amarra um cordão de barbante no centro da folha e outros dois nas extremidades. A pesquisadora pergunta o que a criança está fazendo e ela responde “Quem?”. Há necessidade de localizá-lo no diálogo: “Você, o Daniel”. Separa as massas de modelagem e inicia, cortando toda a embalagem e depois o invólucro plástico em pedaços pequenos e, logo após, as massinhas. Apresenta novamente momentos confusionais − “Quem?” − quando lhe é feita alguma pergunta e informa que as massinhas não podem ficar inteiras. A pesquisadora é solicitada a todo o momento para abrir as tampas das tintas, assim como para recortar. Ao selecionar as tintas guache, Daniel pergunta o que é e cita que irá colar; mesmo após a explicação da pesquisadora considera a tinta como cola e menciona que irá colar no papel. Quando informado da finalização do encontro e retomado que ainda teriam mais quatro encontros, Daniel reage à separação. Diz: “É mentira tia” e, por várias vezes, pergunta se a pesquisadora voltará, mesmo diante da resposta afirmativa dela. A criança une os pedaços de massinha e diz que é “minhoca” e guarda-os junto com as folhas, na caixa lúdica. Recusa-se a sair da sala, agarra-se às pernas da pesquisadora e tenta impedi-la de sair. A
pesquisadora explica para a criança sua dificuldade em se separar, especialmente de coisas boas, e o temor de que elas não retornem. A criança insistiu, em outros momentos, para retornar à sala, sendo necessárias novas explicações quanto à separação. No momento em que a pesquisadora saiu do abrigo, Daniel novamente se agarrou a suas pernas, tentando impedi-la.
Análise da primeira hora de jogo
A criança estabelece bom contato, tem iniciativa e explora a caixa lúdica. Apresenta sinais de infantilismo, pois busca referências externas para confirmar suas idéias, por não se apropriar de seus recursos internos. Apresenta o aspecto dissonante entre a idade cronológica (cinco anos) com alternâncias de comportamentos semelhantes aos de um bebê, que apresenta clareza à compreensão em determinados momentos aliada às manifestações regredidas em outros, que contribuem para o emergir dos momentos confusionais apresentados pela criança. Foram observados comportamentos regressivos. A criança comunica a apresentação de movimentos de ligações e também aspectos quanto às separações. Comunica intensas angústias de separação, bem como a falta de confiança no ambiente.
Segunda hora de jogo, realizada em 06/02/2004
Daniel pergunta o que significa cada material selecionado por ele e a pesquisadora devolve a pergunta. Daniel apresenta momentos confusionais: “Quem?”, − “Você Daniel” −, responde a pesquisadora. A partir de então, a criança identifica corretamente o material selecionado. Seleciona o telefone e inclui a pesquisadora “Tia, liga aqui”, “Alô, quem está falando?”, “Eu”, “D.?”, “É”. Daniel abre a caixa, retira o material escolhido e, logo após, fecha e tranca a caixa com o trinco. Guarda todo o material e tranca a caixa. Separa a tesoura, o barbante e a fita adesiva. Recorta a folha e solicita o auxílio da pesquisadora para cortar a fita adesiva e colar a folha que ele havia recortado. Determina que o segundo pedaço da fita adesiva seja jogado no lixo. Depois, retira a fita que havia grudado a folha e a joga no lixo. Segue com as massas de modelagem e diz: “É de apanhá... vô bate nas massinha”,
e logo em seguida guarda-as na caixa e justifica que é “pros menino não pegá”. Bate nas massinhas porque “ela vai embora”, explica Daniel, e também guarda os brinquedos para “eles não irem embora”. Daniel solicita que a pesquisadora permaneça durante todo o tempo a seu lado. Seleciona as tintas do tipo guache, mas não identifica as cores, e solicita à pesquisadora o auxílio para identificá-las. Nesse momento, a criança brinca com a pesquisadora, que inicia falando a primeira letra da cor respectiva da tinta e Daniel a completa, demonstrando alegria nesse jogo. Os tubos de tinta também são fechados após o uso. Faz um traçado e permanece sobrepondo com tintas diferentes, mas não expande a forma original. Quando informado sobre o término do encontro, momentos de confusão são apresentados − “Quem?” −, seguidos da reação “Não tia, não”. Apresenta dificuldades para encerrar o encontro − “Você vai embora tia?” −, com necessidade de a pesquisadora retomar que voltará em outro dia − “Eu vou, mas eu volto”. Conversam sobre o quanto é difícil para Daniel se separar.
Análise da segunda hora de jogo
A criança estabelece o contato. Apresenta facilidade quanto ao estabelecimento de vínculos. Comunica o desejo de promover ligações e contato. Daniel exibe movimentos quanto a não se apropriar inicialmente de seus pensamentos, buscando referências externas para a confirmação de suas idéias. A criança comunica momentos de ligações seguidos de separações, o que se assemelha a suas vivências reais. Aliadas a essa comunicação, apresenta angústias acentuadas de separação, como também fantasias quanto à possibilidade de perda do objeto, que desencadeiam angústias expressivas de separação. Como ilustração desses momentos, destaca-se o exemplo do comportamento de repetição apresentado pela criança, de fechar a caixa lúdica imediatamente após a retirada do brinquedo. A criança comunica defasagens quanto à aprendizagem, as quais poderíamos hipotetizar como influência da institucionalização precoce, pela provável incidência de reduzidas estimulações. A freqüente busca pela permissão apresentada pela criança direcionada ao ambiente provavelmente se relaciona com as características do âmbito institucional. A criança
comunica a presença de acentuadas angústias no momento da separação com a pesquisadora, provavelmente pela possibilidade de perdas dos momentos bons.
Terceira hora de jogo, realizada em 09/02/2004
Daniel segue rapidamente ao encontro da pesquisadora e pergunta: “Tia, você chegou?” “Sim, eu cheguei” “Quem?” “Eu, a tia”. Inicia perguntando o significado de todo o material retirado da caixa e responde corretamente quando a pesquisadora lhe devolve a pergunta. Seleciona as massinhas: “A massinha vai embora... ela vai no médico... ela vai na barriga”. Logo após, separa a tinta vermelha e suja as mãos. Daniel se assusta, diz que é sangue e, por várias vezes, a pesquisadora explica que trata-se de tinta, embora a cor do sangue também seja vermelha. Daniel comenta que “a massinha vai chorá porque ela vai no médico, ela tá doente. Ela vai no médico agora, depois ela volta, tá tia”. Daniel corta o barbante e não necessita mais do auxílio da pesquisadora, manifestando alegria por conseguir fazê-lo sozinho. A pesquisadora aplaude sua ação (“Eh!”) e então Daniel promove um jogo em que determina que a pesquisadora corte o barbante. Diante da ação, a criança também aplaude a pesquisadora e vice-versa. Em seguida, Daniel solicita que a pesquisadora amarre o barbante à folha de sulfite e, enquanto corta, a criança pergunta se ela irá embora. A pesquisadora conversa sobre as dificuldades de separações apresentadas pela criança. Daniel corta o papel em pedaços bem pequenos: “Eu sô pequeno... daqui a pouquinho você vai embora”. A criança se expressa, comenta que não gosta quando a pesquisadora vai embora e solicita que ela atenda somente a ele e não converse com as outras crianças. A pesquisadora localiza as angústias da criança e explica as necessidades de Daniel como ligação, atenção. Daniel, em seguida, explica que os papéis que cortava não podem ficar inteiros porque senão irão embora. Depois, joga-os no lixo. Daniel se diverte no momento em que fala o nome de uma criança e a pesquisadora repete errado, ela não entende e faz confusão. Guarda o barbante, os papéis e a tesoura na caixa e a tranca. Com as peças de encaixe faz um castelo, o “castelo ratimbum”. No castelo moram “a moça e o menino”. “E como é este
castelo?” “Ele foi embora, depois ele volta.” Daniel demonstra tristeza frente ao encerramento do encontro: “Quero brincá mais um pouquinho”, e pergunta por que a pesquisadora tem que ir embora. Conversam sobre a necessidade de finalizações e sobre as angústias de Daniel. Antes de sair da sala, a criança passa fita adesiva em toda a caixa lúdica, “lacrando-a”. Em seguida, despede-se da pesquisadora e segue para o salão.
Análise da terceira hora de jogo
A criança estabelece a comunicação e promove um bom contato. Daniel pode brincar e aproveitar a brincadeira, o que possibilitou a ele se divertir com situações emergentes durante o contato com a pesquisadora. Não se identificam momentos regressivos com a presença de aspectos confusionais, pois há clareza e compreensão. Pôde apresentar espontaneidade. Manifesta alegria quando percebe que tem condições e recursos. Ao comunicar sobre separações, apresenta angústias e emotividade. Seu brincar gira em torno de separações, uniões, como também da integração e do crescimento, pois percebe com alegria quando se apresenta adquirindo habilidades, comunicando que compreende sua evolução e ficando feliz com isso. O movimento da possibilidade de separação do objeto decorrente de sua perda desperta angústia acentuada na criança. Esse movimento se apresenta diante das incidências de afastamentos e desligamentos. Embora a criança exiba facilidades quanto à capacidade para se vincular, comunica angústias quanto à possibilidade da perda dos vínculos, que se aproxima de suas vivências primitivas.