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capela, ambas na comunidade rural de Vila Rica. Fonte: José Alves, 18/09/99.

médio que moram na comunidade de Vila Rica têm que se deslocar até o Distrito mais próximo, que é o de Vista Alegre (ver Mapa 02). O transporte até a escola é realizado pelo ônibus escolar fornecido e mantido pela Prefeitura Municipal. Este ônibus só passou a transportar os alunos (do ensino médio e fundamental) até a comunidade de Vila Rica a partir de março de 2003, pois antes eles tinham que andar quatro quilômetros até chegar à estrada principal; as crianças estudavam na própria comunidade. No Pinhalzinho, 70,0% dos alunos estudam no Distrito do Bairro dos França, a 15 km, 13,0% na cidade de Ortigueira (mais ou menos 30 km) e 17,0% na própria comunidade (se deslocando a pé em média três quilômetros).

Após essa breve caracterização das familias entrevistadas, passar-se-á a seguir, a identificar as estratégias econômica desenvolvidas nas unidades produtivas, de modo, a torná- las sócio e economicamente viáveis. Enfocar-se-á, primeiramente, um resgate histórico das atividades que os produtores exerceram desde que chegaram nas comunidades rurais, para posteriormente, identificar qual é a importância da produção agrícola e da pecuária leiteira nas unidades produtivas no momento da realização do trabalho de campo.

3.3 - Diversificação Produtiva: a busca pela sobrevivência no campo

A diversificação de atividades desenvolvidas no âmbito das unidades de produção familiar é uma estratégia de reprodução há muito tempo utilizada por esse segmento de produtores. Deste modo, diante do intenso processo de sujeição da produção familiar ao capital agroindustrial por intermédio da renda da terra, e decorrente da variação dos preços no mercado, nem todos os produtores conseguem se manter no campo contando com a renda advinda de um único produto. Então, diversificam as atividades e buscam produzir o máximo de produtos para o autoconsumo, reduzindo a dependência em relação ao mercado.

Nesse sentido, verifica-se nas localidades estudadas, a diversificação das unidades produtivas com a produção agrícola, voltada principalmente para o autoconsumo e, a pecuária leiteira (não especializada) com a venda de bezerros, mais direcionada para o mercado. Deste modo, primeiramente discutir-se-á a produção agrícola e a importância do autoconsumo nas comunidades rurais de Pinhalzinho e Vila Rica e, posteriormente, enfocar- se-á a pecuária de leite.

Como já enfocado, as dificuldades de adaptação por parte dos produtores nas comunidades rurais foram muitas, de modo que nem todos resistiram ao processo de expulsão e expropriação da terra. Para aqueles que se mantiveram no campo, tornar o sítio economicamente produtivo foi uma luta constante. No início, quando a capoeira passa a dar lugar a chamada “lavoura branca” (agora não mais sobre o comando dos safristas, mas do novo sitiante), a fertilidade do solo enchia os olhos daqueles que cultivavam a terra; “a

lavora era um colosso”, a alta produtividade era nítida.

Com a contínua utilização dos solos, a fertilidade natural já não era mais a mesma, além de outras dificuldades que passaram a fazer parte da vida do produtor. É nesse contexto que, com o passar dos anos, a agricultura de subsistência (a chamada lavoura branca – arroz, feijão e milho), com a venda do excedente da produção, por si só não gerava uma renda suficiente para o sustento da família e, novas culturas começaram a tomar conta da paisagem. Num primeiro momento, tem-se uma experiência com o algodão e, posteriormente, a pecuária leiteira com a venda de bezerros passa a ser uma outra opção.

O Quadro 03 dá uma noção da evolução das atividades agrícolas nas UPFs (unidades de produção familiares) das comunidades rurais de Pinhalzinho e Vila Rica, mostrando o período do predomínio de cada atividade.

Como se verifica no quadro, muitas foram as dificuldades, incluindo não só as condições técnicas de produção, mas também problemas como a falta de mão-de-obra decorrente do êxodo e casamento do(a)s filho(a)s dos produtores, a falta de renda e de infra- estrutura no campo, pelo reduzido tamanho da unidade de produção, a quase inexistência de assistência técnica e os baixos preços recebidos pelos cereais.

Embora o algodão fosse introduzido como uma alternativa de renda – 28,0% das unidades produtivas adotaram essa cultura no Pinhalzinho e 47,0% na Vila Rica – não ocorreu um abandono da produção agrícola, que concomitantemente servia para o autoconsumo familiar e como geradora de renda obtida com a venda do excedente da produção. Outra ressalva é que embora essa cultura tenha permanecido no primeiro momento de 1980 a 1988 na localidade, nas unidades de produção o prazo máximo de cultivo contínuo foi de três anos, sendo impossibilitado prazos maiores devido ao aumento da incidência de pragas – como o “Bicudo”. Várias tentativas de uso de inseticidas foram feitas, mas a falta de orientação técnica e a inexperiência dos produtores acabou causando vários casos de

sendo remunerados no momento da comercialização devido ao preço baixo recebido.

Quadro 03

Evolução das principais atividades agrícolas nas UPFs das comunidades rurais de Pinhalzinho e Vila Rica

Atividades Período Motivo da mudança de atividade

Agricultura de subsistência (arroz, feijão e milho) e algumas experiências com o café. De 1961 ao final da déc. de 1980 e início da de 1990.

Redução da fertilidade dos solos; baixa produção e produtividade; uso intenso da força de trabalho; falta de mão- de-obra com a saída dos filhos da UPF (casamento e êxodo); declividade do terreno impossibilitando a mecanização; falta de assistência técnica e financiamento com juros mais acessíveis para custear a produção; baixo preço dos cereais e necessidade de aumentar a renda familiar.

Concomitante à agricultura de subsistência, tem-se a introdução do algodão como fonte alternativa de renda

1º momento: 1980 a 1988 2º momento – com menor intensidade nas safras de 1992/95 na Vila Rica e 2000/01 no Pinhalzinho.

Introduziu-se essa cultura visando aumentar a renda. No entanto, devido à falta de orientação técnica ocorreu uma redução da produção causada principalmente pelo aparecimento de pragas como o “Bicudo”. Mesmo com o uso de inseticidas, o preço pago pelo produto não cobria os custos de produção. Concomitante à agricultura, foi introduzida a pastagem para criação de gado de leite (pecuária mista: leiteira, cria e recria de bezerros)*.

Começa após meados da década de 1980, mas intensifica-se nos anos 1990.

A introdução da pastagem e da pecuária mista passou a ser uma alternativa de renda das famílias. Além disso, considera- se que o cuidado com o gado é menos intenso do que com a produção agrícola. Esse tipo de criação possibilita uma renda fixa mensal com a venda do leite e, esporadicamente, de bezerros e descarte das vacas, que reduzem a produção.

Café e mamona em

algumas UPF - 9,0% 1999 a 2003 Objetivo de diversificar a produção nas UPF que não trabalham com o leite – poucas unidades.

Fonte: Dados coletados no trabalho de campo realizado (Março/03). Org.: O autor

* Após a introdução da pecuária mista, a produção agrícola na maioria das UPFs passou a ser direcionada principalmente para o autoconsumo.

Quando o algodão deixa de ser uma fonte de renda viável, muitos produtores não retomam a produção agrícola com a mesma intensidade, partindo então para a pecuária leiteira. Apesar desta atividade ser adotada após meados da década de 1980, somente nos anos de 1990 é que a mesma ganha mais adeptos, passando a ser vista como uma atividade mais valorizada no meio rural, seja pela obtenção de renda mensal, seja pela possibilidade de venda de bezerros e vacas para descarte. Entretanto, não ocorreu um abandono da produção

cultivada nas UPFs de ambas as comunidades rurais.

Essa forma de organização espacial calcada na diversificação produtiva engendrada pelos produtores familiares, pode ser melhor visualizada nos Gráficos 16 e 17, nos quais apresenta-se o uso da terra nas comunidades rurais de Pinhalzinho e Vila Rica com a produção agrícola, pastagens e outros usos como a área de reserva, de pomar e de construção – casa e tulha.

No momento da realização do trabalho de campo, ao se identificar nas UPFs as áreas de cultivo de lavouras e pecuária, constata-se que a área destinada à criação animal é mais expressiva do que a destinada à produção agrícola. Do total das terras agricultáveis do Pinhalzinho (753 hectares), 77,0% destinam-se às pastagens (577 ha) e 15,0% (115 ha) à produção agrícola. A mesma disparidade de uso também é verificada na Vila Rica, sendo que dos 279 hectares, 76,0% (212 ha) se destinam à criação animal e 18,0% (50 ha) à produção agrícola. Ficam destinados para outros usos, como a área de reserva, de pomar e de construção, 8,0% no Pinhalzinho e 6,0% na Vila Rica.

Quanto à produção agrícola na safra 2001/02 observa-se, conforme o Gráficos 18, que na comunidade de Pinhalzinho os principais produtos cultivados foram: o milho, com 61,0% da área plantada e com a produção de 1.930 sacas (60 kg); o feijão, ocupando 22,0% da área e com 221 sacas produzidas; o arroz, com 9,0% da área, produzindo 147 sacas; o café ocupou 7,0% da área com a produção de 55 sacas; e a mamona ocupou 1,0% da área com 3 hectares plantados.

Quadro parecido também é verificado para a Vila Rica, como se observa no Gráfico 19, sendo que a produção do milho ocupou 49,0% da área cultivada produzindo 586 sacas; a do feijão ocupou 26,0% da área com 106 sacas; a do arroz ficou com 17,0% da área com 53 sacas e a do café ocupou 8,0% da área, produzindo 17 sacas.

Como se percebe nas Tabelas 16 e 17, se o milho foi a cultura com maior área cultivada entre os produtos na safra 2001/02, esse não foi o mais comercializado. Nesse aspecto destaca-se o feijão, comercializado em 62,0% das UPFs do Pinhalzinho e 53,0% nas unidades produtiva da Vila Rica. O milho ficou como o segundo produto mais comercializado nas unidades de produção familiares de ambas as comunidades, com 42% e 20%, respectivamente.

O feijão foi o produto comercializado com o melhor resultado econômico, alcançando segundo os produtores, um bom preço no mercado - em janeiro de 2003 a saca de 60 Kg foi vendida a R$ 60,00. Já o milho, mesmo tendo a maior produção, não obtêm

(galinha e frango caipira, pato e peru) e suínos. Este produto constitui-se num importante recurso na unidade de produção, pois ao ser utilizado na alimentação e engorda de aves, suínos e ovinos86, tanto possibilita ao produtor obter fontes de carne e banha, como com a venda desses animais, um complemento da renda.

Gráfico 16

Uso da terra nas unidades de produção familiar na comunidade de Pinhalzinho

Fonte: Dados coletados no trabalho de campo (Março/03). Org.: O autor

Gráfico 17

Uso da terra nas unidades de produção familiar na comunidade de Vila Rica

Fonte: Dados coletados no trabalho de campo (Março/03). Org.: O autor

86 Para o total das UPFs da comunidade de Pinhalzinho, o efetivo de suínos foi de 179 cabeças, 17 de ovinos e

1.004 aves (na sua maior parte constituída de galináceos) e, na Vila Rica, 76 suínos e 430 galináceos. 15%

77% 8%

Produção agrícola Pastagens Outros

18%

76% 6%

Pinhalzinho: principais produtos por área (ha) cultivada na safra 2001/02

Fonte: Dados coletados no trabalho de campo (Março/03). Org.: O autor

Gráfico 19

Vila Rica: principais produtos por área (ha) cultivada na safra 2001/02

Fonte: Dados coletados no trabalho de campo em março/03. Org.: O autor

Os dados colhidos no trabalho de campo, como se observa nas Tabelas 16 e 17, revelaram que o destino da produção agrícola se dá fundamentalmente para o autoconsumo familiar, sendo a venda do excedente um complemento da renda. No Pinhalzinho, 48,0% das unidades produtivas destinam a produção agrícola para o consumo, 38,0% a tem como complemento da renda com a venda do excedente e 14,0% não está exercendo a produção agrícola87. O mesmo ocorre na Vila Rica, em que 53,0% dos produtores destinam esse tipo de produção para o consumo, 40,0% vende o excedente e 7,0% não está exercendo esta atividade.

87 Nenhum produtor exerce essa atividade como a principal fonte de renda.

9%

22%

61%

7% 1%

Arroz Feijão Milho Café Mamona

17%

26% 49%

8%

Pinhalzinho: produto e destino da produção - safra 2001 / 02

Produtos Produção (sacas 60 kg) Autoconsumo ( sacas) Comércio (sacas)

Arroz 147 88 65

Feijão 221 104 101

Milho 1.930 1.565 365

Café 55 2 53

Total: 2.353 1.759 584

Fonte: Dados coletados no trabalho de campo (Março/03). Org.: O autor

Tabela 17

Vila Rica: produto e destino da produção - safra 2001 / 02

Produtos Produção (sacas 60 kg) Autoconsumo (sacas) Comércio (sacas)

Arroz 53 48 5

Feijão 106 56 49

Milho 586 490 76

Café 15 10 5

Total: 760 604 135

Fonte: Dados coletados no trabalho de campo (Março/03). Org.: O autor

Pelo fato da produção agrícola ter esse destino principal, e devido a outros fatores já abordados, como a declividade dos terrenos, a baixa produção e fertilidade dos solos e os baixos preços obtidos com a comercialização, os produtores não investiram e nem investem em equipamentos e insumos para a produção. É claro que a declividade das vertentes é um fator a contribuir com a dificuldade em mecanizar a terra, mas ela não deve ser considerada como fator determinante, pois as reduzidas áreas e a falta de condições econômicas reais dos produtores em investirem em equipamentos são fatores mais significativos. Além do que, devido à baixa produção e produtividade, e ao baixo preço conseguido com a venda da produção, não há um retorno dos investimentos para o produtor.

Assim, percebe-se que a modernização pela qual passou a agricultura brasileira e algumas regiões paranaenses, não ocorreu da mesma forma em Ortigueira, especialmente nas comunidades rurais em questão. Ao se identificar os equipamentos utilizados na produção agrícola destacam-se o trator e seus implementos (utilizados principalmente por meio do aluguel), a plantadeira manual (matraca) e o arado de tração animal (como se observa nas Fotos 03 e 04,) e o cambão88, utilizado para o beneficiamento do feijão.

88 Instrumento de produção artesanal constituído de uma peça de madeira comprida, com uma corda que o une a

Benzer Belgeler