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A Educação Popular é composta por um extenso ambiente constitutivo que acolhe distintos movimentos sociais populares, dentre os seus diversos conhecimentos comunitários e a partir do olhar de seus protagonistas. A EP se edifica dentro de uma dialética com a sociedade e suas implicações no que diz respeito à libertação do oprimido na perspectiva combliniana. Principalmente com relação aos seus objetivos comuns, como a batalha pela mudança social e a posição do sujeito como ator principal, protagonista desta transformação que acarreta a libertação pessoal, comunitária e por fim, social. Isto se dá por

92 Em: < http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/8485-as-oligarquias-controlam-a-democracia-na-america-

meio da conscientização do mundo e de si mesmo, ao invés de uma educação que cega o sujeito, promovendo a legitimação e perpetuação da classe dominante, das injustiças, da „escravidão sem algemas visíveis‟. Segundo Comblin,

Hoje reaparecem, na América Latina, métodos de educação que propõem a volta à obediência cega. Trata-se da educação pela destruição da própria vontade por meio da imposição cega da vontade arbitrária de pessoas humanas [...], que atribuem à Deus as suas arbitrariedades (COMBLIN, 1998, p.8 ).

As experiências com as várias frentes de trabalho que a Educação Popular proporcionou a José Comblin revelaram que a educação contemporânea passa por uma crise de autoridade – esta “não vem por decreto, porque alguém foi ‟nomeado‟. Nem a nomeação sem a eleição conferem autoridade a alguém. Ela existe ou não. À semelhança do carisma, alguém tem ou não autoridade” (COMBLIN, 1998, p.10). Assim, esse colapso no que diz respeito à autoridade na educação atual pode contribuir para a demagogia.

Em minha experiência recente junto às comunidades de base, ao clero, aos movimentos, às pastorais, e a formação de líderes[...], deduzo uma constante: quase ninguém quer exercer a autoridade[...], os pobres têm medo de exercer a autoridade. Têm medo do julgamento dos outros. Não querem ser criticados e contestados. Cedem diante de qualquer crítica [...]. A abdicação da autoridade tem como consequência a demagogia (COMBLIN, 1998, p.9).

O teólogo Comblin também chama a atenção no campo da Educação Popular para as reações dos sujeitos diante dos novos conhecimentos, os quais devem proporcionar conscientização e libertação a eles. Porém, muitas vezes observa-se que a distância cultural que há entre os educandos e os educadores fazem com que a EP encontre dificuldades de realizar sua primazia, a libertação do sujeito. E para esta se realizar com plenitude é necessário, sobretudo, trabalhar a „partir do outro‟, de sua realidade – tal como Freire também propôs.

3.2.1 Educação Popular: Liberdade e Autonomia

O processo de libertação na Educação Popular que busca transformar o sujeito dominado em um sujeito autônomo em seus pensamentos por meio da conscientização, pode estar comprometido. Sobre este assunto Comblin diz:

Diante dos educadores ainda permanecem fechados por timidez ou vergonha, mas entre eles tornam-se mais ousados. Agora intervém a distância cultural. Primeiramente os agentes de pastoral de cultura burguesa (sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos simili-sacerdotes ou religiosas) culpam-se pela sua cultura de maior prestígio. Dado o sentimento de culpa, tendem a exagerar as vicissitudes e as capacidades do “povo”. Ficam maravilhados pela simplicidade e pela boa vontade dos alunos. Interpretam a disponibilidade, a aceitação sem reserva dos alunos como sinais de sabedoria popular. Interpretam a timidez e a falta de expressividade como virtude de discrição e humildade. Por isso depositam nos alunos as melhores esperanças. Logo alimentam expectativas irreais, projetam sobre os alunos todas as suas aspirações. Acham que esses alunos farão um dia tudo aquilo que eles próprios não conseguiram fazer [...]. Anunciam a aurora da Igreja do povo [...]. Os educadores pensam as suas expectativas dentro da sua própria cultura. O resultado vem numa cultura diferente, sendo geralmente inferior ao que se esperava (COMBLIN, 1998, p. 11).

Perante esse olhar de Comblin entende-se a relevância do educador em compreender as implicações que o meio cultural tem sobre as respostas que os educandos darão diante do conhecimento93, pois todos trazem uma carga cultural dentro de si que não pode ser ignorada, mas trabalhada. A metodologia de Freire propõe trabalhar essa questão por meio de „temas geradores‟, metodologia também explicitada por Comblin no desenvolvimento do método “Teologia da Enxada‟, nominada como „inquérito‟, como foi visto no capítulo dois. Também nota-se no referido método que Comblin perspicazmente trabalhou a inculturação no processo de aprendizagem, buscando promover uma Educação Popular que contribua para a liberdade e autonomia do sujeito.

Sua grande novidade foi à realização prática de uma formação inculturada de seminaristas, que pudessem ser preparados para atuarem em seu contexto de origem com base de conhecimento sólido desse contexto e das características antropológicas do homem pobre do Nordeste construídos a partir da convivência com o povo. É uma formação de seminaristas que se retro-alimenta na experiência vivida junto da comunidade, ao mesmo tempo em que a forma (SOUZA, 2012, p.16 ).94

93 Sobre este assunto, sou testemunha de que os „temas geradores‟, o ensinar „a partir do outro‟, são

ferramentas muito eficazes para a transformação do sujeito. No ano de 2009, trabalhei no maior assentamento do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) da América Latina, que fica no interior do Paraná. Eu tinha uma carga de conhecimento muito maior daqueles educandos, porém do que me adiantava , se eu não transmitisse o conhecimento a partir da realidade deles? Foi a partir deste momento que comecei a entender que a Educação Popular é uma „arte‟, pois instiga a criatividade, a sensibilidade, a denúncia, o questionamento, a reflexão. Vive todas estas fases, e legitimo que a EP pode ser considerada uma Arte!

94SOUZA, Alzirinha. Teologia da Enxada: Evangelização inculturada e inculturante. Ciberteologia

Revista de Teologia & Cultura .Edição nº 38 – Ano VIII – Abril/Maio/Junho 2012, p.16 – ISSN: 1809-2888. Em: < http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/index.php/artigos/teologia-da-enxada-evangelizacao- inculturada-e-inculturante/> acessado em: 22/07/2012

Seguindo a gênese teórica de Comblin e suas implicações sobre o processo de libertação e a Educação Popular, ressalta-se que a liberdade e a autonomia do sujeito – por meio da conscientização do mundo e de si mesmo – pode estar comprometida e correr o risco de servir meramente de reprodutora de conhecimentos, especialmente quando dá maior enfoque à teoria, servindo dessa maneira à classe dominante, quando está para servir a classe dos dominados, ou seja, dos oprimidos por tais95.

Por isso Comblin, em seu artigo “Perplexidade de Quem Educa: A educação cristã

forma para a liberdade?”, defende a ideia de que a educação, como um todo, necessita

aplicar mais tempo à atividades práticas, ou seja, à aprendizagem do agir, ao invés de se acomodar com conhecimentos meramente intelectuais96. Comblin sugere um ano ou mais de dedicação ao „serviço cívico e social‟ efetivo e completo, a fim de que ele contribua para humanização e conscientização da sociedade (COMBLIN, 1998, p.12). Essa prática defendida por Comblin é adotada pelo sistema educacional em Cuba97, com a ressalva de que o serviço

95O filme “Como Água para Chocolate” mostra ao fazer uma análise antropológica, o poder dos valores culturais

que se apresentam numa tradição familiar, ou seja, da carga cultural que cada um carrega dentro de si. O conceito de liberdade aparece no filme como uma forma de rompimento com essas tradições familiares, isto é, com os valores culturais estabelecidos. Esta reflexão se deu pela Professora cubana, Diretora do Centro de investigações Psicológicas e Sociológicas de Cuba/Universidade de Havana, Doutora Ana Célia Perera, numa palestra proferida no dia 13/09/2011 para o Grupo de pós-graduação em Ciências da Religião Universidade Metodista de São Paulo. Palestra que estive presente com o objetivo de enriquecer a presente pesquisa, disponibilizando do maior número de informações possíveis aos futuros leitores.

Em:<http://www.yasni.com.br/ext.php?url=http%3A%2F%2Fwww.metodista.br%2 Fposreligiao%2Fnoticias%2 Frepal-convida-para-palestra-sobre-religiao-em-cuba&name=Celia+Perera& cat=other&showads=1 > Acessado em: 24/07/2012.

Para aqueles que desejam assistir ao filme a referência do mesmo é: ARAU, Afonso. Como Água Para

Chocolate. Direção: Alfonso Arau. México, filme, idioma espanhol, drama, 113min.

96Para pensar sobre a parte prática do agir dentro do contexto de libertação - o filme “A Pousada da sexta

Felicidade”, relata a história verídica Gladys Aylward, mulher que dedicou a sua vida a fazer o bem pelos outros. Trabalhava como empregada doméstica na Inglaterra, quando viajou para a China. Basicamente desenvolveu todo seu trabalho pelo seu conhecimento prático, e sobretudo no amor em „Servir ao Outro‟. História que nos faz refletir sobre pensamento de Comblin, quando é crítico feroz da educação pós-moderna, onde a intelectualidade é muito valorizada, e voltada para a vida econômica, essencialmente, no entanto a prática deixa a desejar. MARK, Robson. A Morada da Sexta Felicidade (The Inn Of The Sixth Happiness) . Direção de Mark Robson. E.U.A, 20th Century Fox, 1958, drama, 158 min. Esse filme foi adaptado do Best Seller "The Small Woman", de Alan Burgess, 1957. Traduzido para o português e publicado pela editora Vida no ano de 1970 sob o título “Apenas Uma Pequena Mulher”.

97 Informações adquiridas dentro do contexto educacional cubano, onde fui trabalhar como Educadora

Popular, no ano de 2008, na área de sociologia e religião. Tendo assim a oportunidade de entrar em contato com o sistema educacional do referido país, e com as opiniões das pessoas sobre este método de „serviço social‟ que o aparelho educacional aplica obrigatoriamente a todo cidadão cubano, sob condição de multa, caso não cumpra um ano de „serviço social‟ ao Estado. Vi o projeto como positivo para a formação dos cidadãos!

social dentro da estrutura educacional deste país tem muitas outras implicações sociopolíticoeconômicas, embora tenha também sua semelhança com a proposta de Comblin, no sentido de humanizar e conscientizar a sociedade e os sujeitos que a constituem.98

Benzer Belgeler