Duas teorias emergem, no período posterior à Segunda Guerra, para explicar o caráter desequilibrado do processo de desenvolvimento regional: a teoria do desenvolvimento desigual e transmissão inter-regional do crescimento, elaborada por Albert O. Hirschman, e a teoria da base de exportações, elaborada por Douglass C. North.
O objetivo do estudo elaborado por Hirschman (1958) é analisar o processo de desenvolvimento econômico, caracterizado por ciclos de extrema complexidade, e sua transmissão entre regiões (países). Seu argumento principal evidencia que o desenvolvimento tende a se concentrar espacialmente em torno do ponto onde se inicia, o que é fundamental para a análise estratégica do mesmo.
Segundo o autor, a ideia de que o desenvolvimento deve ocorrer simultaneamente em muitas atividades é inviável, pois isto gera expectativas irreais e enclaves na economia. Na realidade, o desenvolvimento ocorre como uma cadeia de desequilíbrios durante longo período de tempo, cuja simultaneidade é apenas parcial. O crescimento inicia-se nos setores líderes e transfere-se para os seguintes (satélites) de forma irregular. Estes desequilíbrios são fundamentais para a dinâmica do crescimento, pois em cada um destes
estágios uma indústria usufrui de economias externas criadas pela expansão anterior e ao mesmo tempo cria novas externalidades que serão exploradas por outras indústrias, dada a complementaridade existente entre as mesmas. Esta forma de indução de investimento é imprescindível para o desenvolvimento (Hirschman, 1958).
Naturalmente, como o crescimento começa em alguns pontos e não em todos os lugares ao mesmo tempo, surgirão tensões entre os setores modernos e tradicionais da economia e, por isso, justifica-se a necessidade de se ter uma estratégia de desenvolvimento. Logo, as decisões de investimento tornam-se o principal objeto de política econômica. Para alcançar o desenvolvimento é essencial comprometer-se com uma série de projetos que produzam efeitos favoráveis sobre o fluxo de renda, cuja realização é limitada pela capacidade de investimento local (recursos escassos). Esta, por sua vez, conduzirá ao estabelecimento de um ranking de preferências de projetos de acordo com seu retorno social, bem como a sequência ideal de sua realização (escolher qual projeto deve ser implantado primeiro, pois a sua efetivação facilita a implantação e a consolidação do projeto posterior). A determinação desta sequência é um importante aspecto do processo de desenvolvimento regional e evidencia que investimentos isolados obtêm sucesso apenas durante determinado período.
A indução do investimento pode ser realizada por dois mecanismos que operam ao longo do setor produtivo: os backward linkage effects, relacionados à compra de inputs de outras atividades, e os forward linkage effects, relacionados ao fornecimento de inputs. Por intermédio destes efeitos, a implantação de uma indústria (mestre) pode induzir o surgimento de outras (satélites) devido à existência de economias externas e complementaridade. Quanto maior o grau de interdependência setorial, mais expressivos são estes efeitos39.
Além disso, é fundamental que estes investimentos sejam concentrados no ponto de crescimento inicial durante determinado período, o que auxilia a consolidação do crescimento econômico. A partir deste ponto surgirão dois efeitos que explicam a transmissão de crescimento entre regiões (países): os trickling-down e polarization effects. Para entender como estes efeitos funcionam, o autor considera um país dividido em duas
39 Hirschman (1958, p.116) destaca que nos países subdesenvolvidos é mais fácil estimular efeitos de encadeamento para trás.
série de implicações sobre a segunda, algumas favoráveis outras desfavoráveis. As favoráveis, representadas pelos trickling-down effects, podem ser exemplificadas pelo aumento das compras e dos investimentos do Norte no Sul, principalmente se estas duas economias são complementares. Os efeitos desfavoráveis (polarization effects) estão relacionados ao aumento da competitividade do Norte e ao seu poder de barganha, além da migração seletiva. Ao contrário de Myrdal (1957), Hirschman (1958) possui uma visão otimista sobre este processo, pois para ele os efeitos favoráveis serão mais expressivos, o que permitirá ao Sul crescer a partir da expansão do Norte. A ação estatal é essencial para assegurar este resultado, pois se os efeitos de polarização não forem contrabalançados o resultado final pode não ser o esperado, como ocorreu no nordeste brasileiro.
Assim como na teoria da C.C.C, a reciprocidade entre desenvolvimento e migração é considerada na análise realizada por Hirschman (1958). Em suas recomendações de políticas o autor destaca que o controle dos fluxos de capital e a melhoria da infraestrutura social são essenciais para lidar com as pressões demográficas que surgirão no decorrer do processo de desenvolvimento. A criação de equivalentes de soberania, como as Superintendências de Desenvolvimento Regional no Brasil, pode se tornar um instrumento essencial para contrabalançar os desequilíbrios inerentes ao desenvolvimento econômico ao permitir o gerenciamento dos fluxos migratórios de capital e trabalho.
A teoria da base de exportação, por sua vez, procurava explicar a dinâmica econômica de algumas ex-colônias europeias, que não correspondia à sequência de estágios de desenvolvimento descrita por Rostow (1952). O crescimento e o povoamento destas regiões foram determinados pelo mercado mundial, o que resultou em algo distinto do descrito pelas teorias tradicionais.
De acordo com North (1977), a história econômica do pacifico noroeste, cujo desenvolvimento foi baseado na exportação de três produtos principais (trigo, farinha e madeira), é ideal para demonstrar esta constatação. Os mercados externos sempre foram alvo da produção regional e sua taxa de crescimento esteve diretamente relacionada às exportações. As atividades secundárias e terciárias destinavam-se a atender às necessidades de consumo local. Todo o desenvolvimento da região dependeu desde o início de sua capacidade de produzir artigos exportáveis.
Neste contexto, a base de exportação possui papel fundamental na conformação da economia regional. À medida que a região cresce em torno desta base são geradas economias externas, que estimulam a competitividade, facilitam o desenvolvimento de atividades subsidiárias e elevam os níveis de renda absoluta e per capita. Sua influência é tão significativa que determina o padrão de distribuição da população e de urbanização, as características da força de trabalho e o estabelecimento de instituições sociopolíticas40. Neste contexto, a industrialização pesada (bens de capital) não é essencial para a continuidade do processo de desenvolvimento econômico. O sucesso da base de exportações constitui o fator determinante da taxa de crescimento regional.
Devido à instabilidade dos fatores que determinam a expansão ou declínio da base de exportação (variações da demanda externa, dos custos de produção, da disponibilidade de recursos naturais, da tecnologia, etc.), o crescimento regional tende a ser irregular. Contudo, no longo prazo, à medida que as regiões crescem, espera-se que estas disparidades diminuam (NORTH, 1977, p.309).
A relação entre desenvolvimento e migração é delineada nesta teoria por intermédio da influência do crescimento populacional sobre a base de exportação. O ritmo de expansão populacional, impulsionado por mudanças nas taxas de natalidade, mortalidade e/ou migração, afeta a elaboração de novos produtos de exportação e, consequentemente, o padrão de desenvolvimento econômico.