AĠLENĠN KÜLTÜREL DURUMU
4. SONUÇ ve ÖNERİLER
A visão antropológica contemporânea entende a cultura como sendo uma visão de mundo que estabelece padrões públicos e determina o destino das nações, uma consciência coletiva, uma forma de falar sobre identidades coletivas. Ela seria, portanto, um atributo do ser humano, fazendo sentido dizer que ser humano é ser culto.
Um breve passeio pela história do pensamento sobre a cultura1, no que tange ao desenvolvimento do conceito, nos mostra que no início do século XX, Max Weber a definia como sendo um “legado de uma parcela finita da infinidade de fatos do mundo sem significado que tem significado e importância do ponto de vista dos seres humanos", Sapir acreditava que a cultura daria a determinado povo o seu lugar característico no mundo. Já em meados do século XX, Parsons compreendia a cultura como um discurso simbólico coletivo sobre conhecimentos crenças e valores (o símbolo cultural seria um “constructo” no qual as pessoas vivem), Geertz apoiava seu pensamento sobre cultura em expressões como:
[...] sistema ordenado de significados e símbolos [...] em cujos termos os indivíduos definem seu mundo, revelam seus achados e fazem seus julgamentos [...] um padrão de significados transmitidos historicamente, incorporados em formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam-se, perpetuam-se, desenvolvem seu conhecimento sobre a vida e definem sua atitude em relação a ela [...] compreender a cultura significa interpretar seus símbolos.
Ainda por esta época, Kroeber e Kluchon diziam que a cultura
em seu sentido etnográfico amplo é um todo complexo que abrange conhecimentos, crença, arte, princípios morais, leis, costumes e quaisquer aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade.
Ao final do século XX, as definições continuavam os entendimentos anteriores conforme Chaney (cultura representa ponte entre indivíduos e suas identidades coletivas) e Wolf (“série de processos que constroem, reconstroem e desmantelam materiais culturais em resposta a determinantes identificáveis"). Uma síntese possível dessa diversidade de pensamentos sobre o tema nos possibilita o entendimento de que, para a antropologia, a
cultura aparece como sendo um sistema integrado de símbolos, idéias e valores que forma uma consciência coletiva que media as relações do ser com a sociedade em que vive.
Dentre as diversas definições de cultura que a antropologia nos traz, algumas características parecem ser comuns entre elas. A primeira entende que a cultura seria um atributo exclusivo do ser humano e que este seria exatamente aquilo que mais diferencia os seres humanos dos animais, pelo fato de que ela não é herdada biologicamente, mas
assimilada. O caráter de patrimônio coletivo também já desponta, pois outro traço comum
seria o de que a cultura incorpora qualquer elemento herdado da vida do homem, seja ele material ou espiritual. Outras características comuns às diversas correntes de pensamento sobre o tema podem ser verificadas da seguinte maneira:
• A cultura apresenta caráter dinâmico, com várias sub-culturas, abertas, sincréticas, instáveis;
• A cultura apresenta diversos níveis interdependentes (indivíduo, grupo ou classe, sociedade);
• Os valores culturais são variáveis e relativos e não predeterminados e eternos; • A cultura se desenvolve por empréstimos;
• A cultura é criação e recriação contínuas; • Não se pode estabelecer leis culturais gerais;
• Idéias culturais são expressas e comunicadas por meio de símbolos, padrões explícitos e implícitos, idéias tradicionais com valores vinculados.
Uma análise dos diversos entendimentos de cultura aponta para a dificuldade de apreensão do conceito face ao seu caráter quase onipresente e ao mesmo tempo sempre mutante, mas que parece estar na base das idéias e ações que movem determinado grupamento humano em determinado tempo e lugar. Ela parece escapar a nossa tentativa de isolá-la para melhor compreendê-la e assim não se adequa ao paradigma científico vigente. Toda tentativa nesse sentido parece resultar incompleta ou ineficiente: ela é uma energia propulsora dos grupamentos humanos, mas de difícil descrição ou detalhamento. Por outro lado, a análise do conceito permite depreender que, como sistema simbólico e valorativo, ela está presente em qualquer grupamento humano, resultado da interação entre seus indivíduos, da construção coletiva de relação destes com a vida e como resultado de
influências ligadas tanto a fatores biológicos e existenciais, como a fatores geográficos e históricos. Como sistema simbólico, ela é influenciada e influencia as relações sociais, a economia, a arte, a religião e outras formas do ser humano se manifestar ou se comportar. Assim, embora muitas vezes as suas definições se aproximem do fenômeno, é impossível aferi-lo de modo integral na prática.
________________________________________________________________________ APONTAMENTO 4.1: Face ao caráter dinâmico e mutável da cultura, o que significaria, então, “preservar”? O termo preservar vai ser investigado no próximo capítulo, mas já se colocam, desde já, alguns problemas conceituais: se preservar é “imobilizar, congelar” como é que se responde à mutabilidade da cultura? Qual cultura escolhe o que preservar e como preservar? Não se preserva, portanto, sempre da mesma forma: o que continua é o bem alterado pelo que se entende, a cada momento, como sendo “preservar”. Qual o uso que cada sociedade faz do bem preservado?
________________________________________________________________________ Com todo esse caráter inefável, não seria de se estranhar, portanto, que contradições e conflitos aparecessem na tentativa de capturar sua essência. Um desses conflitos que tem profunda influência no entendimento coletivo da cultura e que tem marcado inclusive as atitudes com relação a ela, diz respeito à sua acepção como civilização versus a sua acepção como identidade coletiva. A idéia de cultura como civilização se estabelece na visão francesa de mundo ancorada na racionalidade, mesma fonte que gerou o iluminismo e o cartesianismo, ou até mesmo antes, entre os gregos, que entendiam como homens livres apenas aqueles “civilizados” e a História como sendo “a história da civilização” (LE GOFF, 1994, p. 62). Essa visão se caracteriza através do entendimento do conceito de civilização como sendo o conjunto de valores supremos sobre os quais se apóia a ordem social, transmitida especialmente pelos exemplares mais nobres das manifestações de um povo, consubstanciado nas suas instituições basilares, nos seus avanços científicos e nas suas manifestações e heranças artísticas e literárias de excelência. Racional, universalizante e progressista, a cultura como excelência se difunde pelo mundo, amparada por uma idéia de avanço da raça humana como um todo. Já a idéia de cultura
como identidade coletiva encontra seu berço no entendimento alemão de "kultur” , como
representação de um verdadeiro “geist” nacional, limitado no tempo e no espaço e com profunda empatia com o cotidiano do grupamento a que se refere. Os etnólogos que compartilham essa visão reconhecem a freqüente vitalidade das culturas, mesmo as rudimentares. Fenomenologicamente essa distinção remete à questão do próprio e do
impróprio, posto que a idéia de cultura como civilização remeteria fortemente aos
Essa diferença de formas de ver tem marcado de forma decisiva a maneira como diferentes sociedades lidam com aquilo que é, na realidade cotidiana, a cultura, ou seja, a sua
prática, e a preservação de seus bens culturais. Aquelas sociedades que compartilham a
visão da civilização tendem a definir critérios de "excelência" para a seleção dos bens a conservar, enquanto aquelas que vêem a cultura como catalisadora de uma identidade coletiva tendem a ser mais abrangentes ao definir as categorias de bens a preservar.
Frutos de eternas discussões e repetidos seminários, os limites entre tradição e ruptura, permanência e mudança, têm sua origem no caráter dinâmico das culturas e na sua abertura para influências externas. Muitas vezes as mudanças podem servir tanto para oxigenar determinada cultura ou permitir avanços sociais, como para aniquilá-la ou subjugá-la. Dimensionar a "capacidade de carga" ou de resistência de determinado grupo social permanece sempre como uma questão em aberto, profundamente dependente de incontáveis fatores, muitos deles de difícil previsão.
________________________________________________________________________ APONTAMENTO 4.2: A preservação do patrimônio seria a conservação daquilo que uma cultura tem de estável, dentro da mutação. Esta é uma ação possível na prática?
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As relações entre cultura e sociedade são também frutos de conflitos de idéias e opiniões. Para alguns, as relações sociais seriam frutos de visões de mundo intermediadas pela cultura, enquanto para outros, a dinâmica social seria a razão das transformações culturais. No entanto, sempre que ocorrem discussões desse tipo, onde não se pode identificar o quê precede o quê, parece que a relação entre as partes seria antes de interdependência do que de precedência ou, de qualquer modo, coisa que um exame conceitual mais profundo pode contribuir para resolver. A cultura fala do mundo das idéias e fatores de formação do comportamento, a sociedade fala de atos e instituições, da interação entre indivíduos e coletividades. Segundo Parsons,
A cultura é o tecido do significado em cujos termos os seres humanos interpretam suas experiências e orientam sua ação; estrutura social é a forma que a ação assume, a rede de relações sociais que realmente existe. Cultura e estrutura social são abstrações do mesmo fenômeno (KUPER, 2002, p. 134).
Dentro da chave fenomenológica, já abordamos o papel da cultura no modo impróprio que se estabelece, por exemplo, a partir do falatório. Mas cabe também abordar dois outros aspectos que se mostram importantes para as nossas reflexões: a cultura como ordem
simbólica e as relações da cultura com a História. Como vimos nos capítulos iniciais, essa
ordem simbólica é fruto de nossa condição existencial de tentar compreender o mundo, resultante da relação entre o ser e as coisas, na condição do estar-lançado, a partir dos modos próprio e impróprio.
Assim, a cultura cria uma moldura (como molde mesmo) para a nossa relação com o mundo, a qual interfere, como uma segunda natureza, na nossa percepção das coisas e nos valores que a elas atribuímos.
________________________________________________________________________ APONTAMENTO 4.3: A ordem simbólica, como marca integrante da cultura, varia com o tempo, fazendo com que a atribuição de significados ao objeto simbólico seja dada no presente, pela sociedade que vive esse presente. Portanto o significado não está apenas no objeto, mas também no sujeito que o qualifica ou seja: na relação entre os dois.
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Também do ponto de vista fenomenológico, estudamos a importância da História não como “lembrança ou registro do que já passou”, mas a partir da sua relação com o presente, como algo que nos situa no presente e cria um lastro existencial para nos compreendermos no momento e no espaço onde a pre-sença se dá. A consciência histórica, nessa forma de ver, é o acúmulo pessoal e cultural que nosso ser pessoal veio construindo e que possibilita a sua relação com o mundo da maneira como ela se exerce no momento em que é evocada 2. Do ponto de vista dos grupamentos humanos, essa característica da cultura se mostra como o resultado da sedimentação do processo histórico
no momento presente e a História é também, por sua vez, o resultado das transformações
culturais que ensejaram que as coisas acontecessem como aconteceram.
2 Boas entendia que “um fenômeno cultural só é inteligível à luz de seu passado e por causa da
complexidade de seu passado; e por causa da complexidade do passado, generalizações cronológicas como as da física são tão impraticáveis quanto generalizações atemporais”( KUPER, 2002, p. 88).