A cada dia que passa o ambiente de trabalho adquire novos contornos e importância. As empresas que ainda não atentaram para a sua relevância e impacto perante os seus empregados bem como para os resultados alcançados pelos mesmos, poderá amargar a perda de inúmeros talentos de suas equipes.
“(...) as pessoas passam cerca de setenta e cinco por cento de seu período de vigília na fase adulta realizando atividades que guardam alguma relação com o trabalho – aprontando-se para ir trabalhar, deslocando-se para
o trabalho, trabalhando, cogitando de outros trabalhos e tentando relaxar depois do trabalho”
(Lundin, 2001:8).
Se concentramos tanto tempo no trabalho, temos de aproveitá-lo ao máximo, com energia e vibração. Apesar desta constatação, existem inúmeras pessoas que apenas gastam o tempo no trabalho para poderem satisfazer as suas necessidades e realizações em outros lugares e situações pessoais.
Neste momento, cabe uma indagação. Qual o receio das organizações em contribuírem por um ambiente de trabalho mais feliz e satisfatório? Algum medo de que, possivelmente, uma distração ou outra em momentos não tão adequados venham a corroer toda uma estrutura organizacional? Os gestores precisam repensar os seus papéis, precisam refletir acerca do que realmente estão fazendo para contribuir para a formação de um ambiente de trabalho favorável para os empregados.
“As pessoas gostam de trabalhar num ambiente que seja divertido, cheio de energia, e onde elas possam exercer um papel especial. (...) evita o desânimo e o esgotamento, mantendo a empolgação de cada um com seu trabalho”
(Lundim, 2001:9).
Por que os executivos dão tão pouca importância para este quesito que sustenta grande parcela das intenções de mudança de emprego dos funcionários? Segundo pesquisa realizada com cento e quarenta empresas brasileiras no ano de 2001, pela empresa de consultoria
Towers Perrin acerca dos principais fatores de atração e retenção de talentos e publicada no jornal Valor Econômico em junho/2001, 61% dos entrevistados demonstraram a relevância do ambiente de trabalho como fator decisivo na sua permanência ou saída de uma empresa. Este item só perde, com pouca diferença, para o fator salarial (67%), ficando a frente ainda, da imagem da empresa (49%), remuneração variável (49%) e desafios profissionais (47%).
O ambiente de trabalho é composto não só da sua infra-estrutura física e técnica bem como e, sobretudo, pelas pessoas que o utilizam. São as pessoas que fazem a diferença, que contribuem ou não para um ambiente saudável e desejado. As suas atitudes são vitais para a mudança de um ambiente organizacional.
Ademais, as organizações possuem uma parcela relevante no sucesso de um ambiente corporativo, por intermédio da definição das políticas de recursos humanos, do que pode e o que não pode ser realizado, da oferta de condições físicas adequadas e, principalmente, pelo estímulo freqüente à integração das pessoas e equipes, pela clareza nas metas e objetivos e pela transparência incondicional no que tangem às comunicações internas e decisões empresariais.
Quando as atitudes dos empregados somam-se aos esforços efetivos das suas organizações, o melhor ambiente de trabalho poderá ser formado. É uma parceria de sucesso. A empresa ganha o compromisso, a dedicação, o empenho e, sobretudo, a satisfação do empregado em poder participar desta “equipe vencedora”. Por outro lado, o empregado beneficia-se de um ambiente flexível, agradável, criativo e incentivador das suas realizações. O empregado deixa de ser um simples “recurso”, para ser um replicador importante dessa cultura por toda a organização.
Num ambiente propício para o bem-estar, iniciativas e orientações por parte dos empregados e com perfeita aceitação e estímulo dos executivos, acaba por incentivar ainda
mais o surgimento de “regras de convivência” que nada mais são do que a expressão da felicidade que se tem em poder participar de um ambiente gratificante.
“Ao entrar neste local de trabalho, por favor, escolha fazer deste dia um dia especial. Seus colegas, clientes, funcionários e você mesmo ficarão gratos. Não deixe de brincar. Podemos ser sérios em nosso trabalho sem sermos sisudos. Permaneça centrado na idéia de se fazer presente quando seus clientes e funcionários mais precisarem de você. E se você sentir que a sua energia está se esvaindo, experimente esse remédio certeiro: procure alguém que esteja precisando de uma mão amiga, uma palavra de apoio, ou de quem a ouça – e alegre o dia dessa pessoa”
(Lundim, 2001:116).
Nesse contexto, com a centralização de decisões, normalmente, a qualidade do ambiente de trabalho esgota-se rapidamente, isto é, torna-se irrelevante perante variáveis estratégicas de cunho, sobretudo, econômico, e consideradas de maior importância. Seria justo pensar que no médio/longo prazo esta “falta de preocupação” com o ambiente de trabalho não poderá provocar perdas irreparáveis?
A questão que se coloca é que são aspectos imperceptíveis quando a orientação e a cultura das empresas não possuem, de forma intrínseca, esta preocupação como sendo um valor efetivo da corporação, isto é, se a empresa não pratica ações reais no dia-a-dia visando a ampliação dos níveis de satisfação de seus empregados com o ambiente de trabalho. Se isso não é uma crença da empresa, seria como tentar pescar em um rio que secou.
Por outro lado, com a descentralização, em geral, as organizações ‘deixam’ as pessoas mais à vontade em relação a este aspecto, isto é, transferem a responsabilidade para os
próprios indivíduos, dentro de determinados parâmetros previamente definidos. Neste cenário, as pessoas possuem outra percepção acerca do ambiente do trabalho, uma vez que são as verdadeiras responsáveis pela qualidade do mesmo e, como tais, produzem o que julgam pertinente e, se sentem bem por isso.
Possivelmente, o Carrefour entre várias outras empresas, não se preocupou com este aspecto. Fato é que, com a queda qualitativa da atmosfera de trabalho, ocorre também uma saída dos talentos humanos das empresas, pois estes buscam melhores ofertas de trabalho como um todo, isto é, retornos financeiros, novos e “velhos” desafios, perspectivas de crescimento e, porque não, melhor ambiente de trabalho entre vários outros aspectos.
No caso do Carrefour, a empresa presenciou uma debandada efetiva de empregados para outras organizações varejistas, levando consigo toda a expertise, conhecimento do varejo e, sobretudo, vontade de fazer ainda mais pela nova empresa.
Assim como a motivação é fundamental para os resultados das empresas, pois impactam na produtividade e no envolvimento dos empregados, as conseqüências e os impactos negativos ou positivos de um determinado ambiente de trabalho influenciam, de maneira, absoluta, nos fatores motivacionais dos indivíduos e, como tal, o ciclo da gestão se reinicia, isto é, empregados motivados e um bom ambiente de trabalho é tudo que um dirigente deveria estar preocupado em estimular em suas organizações, infelizmente, não é o que temos presenciado.
Muitas vezes, os empregados podem acabar entrando naquela ‘bolha negativa’, ou melhor, como o ambiente de trabalho não está bom, ou melhor, não está voltado para a preocupação com os empregados e, sim, com os objetivos da empresa, associado a sua baixa motivação com a política interna da empresa e somados a diversos outros motivos que só
contribuem e somam para a sua insatisfação em geral, quais poderiam ser os possíveis desfechos deste ciclo?
O Carrefour, sem sombra de dúvida, passou por este ciclo lamentável, devido a pouca sensibilidade da direção e/ou omissão da mesma pelos reclames demonstrados de seus empregados. Com o foco e a cultura da empresa incentivando o lado financeiro e econômico, como dar atenção para uma questão ‘irrelevante’ como o fator humano?
Não podemos fechar os olhos para a importância de um bom ambiente de trabalho, trata-se de um aspecto tão relevante quanto qualquer outro e, portanto, merece toda a atenção e destaque pelas organizações em geral.