• Sonuç bulunamadı

V. SONUÇ, TARTIŞMA VE ÖNERİLER

5.1 Sonuç

Outra categoria inserida no universo do sofrimento das docentes envolve a variedade de disciplinas atribuídas no exercício do seu trabalho. Cinco professoras (três da IES A e duas da IES B) estão descontentes em relação às disciplinas que lecionam. Os resultados evidenciaram que disciplinas fora da área de atuação e de formação, disciplinas novas a cada semestre e disciplinas variadas num mesmo semestre são colocadas como práticas comuns desenvolvidas pelas organizações que caracterizam essa categoria. As entrevistadas E1, E2, E3, E4 e E6 confirmam esses problemas,

Então, por exemplo, isso aqui, para mim, foi muito angustiante, num determinado momento, que eu me vi um semestre inteiro dando aulas aleatórias e não conseguindo aliar a minha linha de estudo com aquilo que eu estava dando aula. Hoje eu consegui, assim, eu consegui arredondar, eu conversei com a coordenadora, e falei: “Olha, não dá para mim, não consigo, não consigo sair de uma aula pensando num negócio e entrando numa outra... e sendo que eu chego em casa, preparo aula e não, é... não gero conhecimento”. Hoje até a minha irmã falou: “Você está tão tranquila esse semestre”, eu falei: “Porque eu estou fazendo com que as minhas aulas façam parte do meu processo de pesquisa e isso funciona para mim, não dá”. Então, por exemplo, aula de sustentabilidade, eu fiz, no mestrado foi sobre sustentabilidade, mas eu não estudo mais isso. Eu tenho o conceito, eu tenho toda a bibliografia, mas para mim, como não é uma coisa que eu tenha pesquisado hoje, ele sai fora. Então, assim, me demanda uma energia que eu não queria estar gastando (E1).

A maioria, dependendo do semestre, a maioria não é da minha formação, então eu tenho que fazer, eu tenho que correr atrás de vários tipos de formação. ...e aí eu vou correr atrás, eu vou estudar, eu fico muito.. eu sou muito neurótica, então, tipo, eu vou correr atrás e vou estudar. A maioria é fora da minha área de atuação (E2). Então já dei muita disciplina na área de operação sendo da área de pessoas (E3).

É, a gente nunca sabe quais são as disciplinas que a gente vai dar no semestre seguinte ... às vezes um dia antes de começar as aulas a gente fica sabendo. É porque mesmo durante as aulas, as aulas já terem começado, o horário pode sofrer algum tipo de alteração. Já aconteceu de o professor dar aula numa sala e na semana seguinte ele não estar alocado mais naquela sala, é outro professor alocado (E4).

Todo semestre eu tenho matéria nova e eu tenho que estudar e desenhar um curso que seja interessante para aquela uma disciplina, que seja interessante para aquele curso (E6).

Ressalta-se a postura da entrevistada E1 da IES A que, diante da pressão enfrentada a cada semestre perante disciplinas aleatórias, utilizando uma estratégia de defesa individual, conversa com a coordenadora do curso e obtém um retorno positivo, o que vem acarretando mais tempo livre para outras atividades além do trabalho.

Percebe-se que as professoras também enfatizam que muitas vezes a disciplina que leciona jamais foi cursada em sua formação. Segundo Gripp (2010), nas universidades federais, as diferentes disciplinas se encontram dentro da mesma subárea em que o professor se formou, mas, em geral, nas instituições privadas, os professores lecionam disciplinas de áreas diferenciadas, que, muitas vezes, jamais cursaram em toda sua formação. A autora também ressalta que esse dado nos aponta um problema complexo de qualidade da educação: em um modelo de educação tradicional, como se ensina sem conhecer nem mesmo o conteúdo da disciplina que se leciona? A formação do professor é realizada em uma área cada vez mais especializada e, muitas vezes essa especialização já se inicia na graduação, no entanto o ensino se dá em uma área cada vez mais ampliada de conhecimento. E isso é mais verdadeiro, continua a autora, para aqueles que atuam nas instituições privadas de ensino superior. Com essa realidade, E2 enfatiza que há um desgaste muito grande de energia por parte do docente. Gripp (2010) assevera que não é possível deixar de considerar que os efeitos nocivos de processos dessa natureza, além de atingir diretamente os docentes, têm sua abrangência potencializada à medida que interferem diretamente no processo de ensino- aprendizagem e na qualidade de ensino.

De acordo com a entrevistada E4, o número de horas (jornada de trabalho) e as disciplinas a serem lecionadas, muitas vezes, só são informados um dia antes do início das aulas com os alunos, o que acarreta um grande medo, ansiedade, desgaste, angústia e estresse. Relata também que, durante as primeiras semanas de aula, esse horário pode sofrer alteração, obrigando, algumas vezes, o professor entrar em sala de aula numa semana e ser alocado em outra sala e em outra disciplina na semana posterior.

Então, nesta IES o horário, ele é um problema: primeiro, você ter a garantia de que você vai ter essas horas o semestre que vem. Nunca tem essa garantia, ela pode estar reduzida, sem o seu pedido, e ela também pode estar aumentada, sem o seu pedido, as duas coisas acontecem. Sempre o professor é que tem que resolver, o professor tem que resolver, ele pede apoio para o coordenador, ele pede apoio para quem está cuidando do horário, ou ele vai atrás de outros professores para trocar essa disciplina com ele ou para se desfazer dessa disciplina porque o coordenador, ele, nas entrelinhas, ele deixa claro: “me traga o problema, mas me traga a solução”. Então aqui a gente traz, “olha, eu preciso trocar”, “mas eu já troquei, já trouxe o professor que troca comigo”, isso com certeza vai te ajudar, ou uma disciplina, ou o dia, ou que você não queira a disciplina, então é um problema seu, que você... ou você vai ter que assumir essa disciplina e vai ter que dar essa disciplina mesmo não se identificando, mesmo não tendo o domínio da disciplina, mesmo não gostando naquele assunto, porque tem disso também (E4).

Observa-se também que, muitas vezes, o professor acaba aceitando disciplinas distintas para que sua remuneração não diminua, uma vez que essa está atrelada diretamente ao número de horas aula (caso da IES B) onde todas as docentes são professores horistas. A entrevistada E4 sinaliza também que na IES B o professor, após ter recebido a sua grade de horário, é quem deve buscar permutar com os demais colegas as disciplinas que são fora da sua área de conhecimento.

Nessa IES, no final de cada semestre, é enviada uma solicitação obrigatória para preenchimento da disponibilidade de carga horária para o semestre seguinte. Mesmo o professor preenchendo a disponibilidade para determinada disciplina e horários, sua carga horária, na maioria das vezes, vem como a própria IES deseja.

E4 finaliza o assunto, acrescentando que

Então eu fiz as contas outro dia, eu já dei 10 disciplinas diferentes. Existem regras não escritas, como por exemplo, a questão de um reclamar da rotatividade de disciplinas e da quantidade de disciplinas. Aqui, claro, professor novo não tem direito de reclamar, nem de quantas unidades ele vai trabalhar, nem de quantas disciplinas ele vai pegar. Todo mundo sabe, e os poucos casos que eu vi reclamar, recém-contratados foram demitidos. Reclamou... você tem que dar Inovação e Criatividade, no I semestre da professora, ela não aceitou no semestre seguinte, ela não estava, ela foi mandada embora. Eu já estava aqui há alguns anos, já há uns três, quatro anos. Mas ela foi mandada embora. Então, não está escrito, mas todo mundo sabe, se você reclamar demais, com certeza... Retaliação, você sofre retaliação, possivelmente por isso ninguém reclama. Eles mexem no seu horário, eles te colocam para trabalhar em diferentes campus, eles te dão muitas disciplinas diferentes em um mesmo semestre. Se reclamar demais, você pode esperar que o semestre que vem, você vai ter problema. Por exemplo, a professora reclamou... não está mais no campus que sempre lecionava. Este semestre, esse campus é uma unidade próxima da casa dela. Uma unidade que ela gosta de vir trabalhar, mas ela teve problemas com a coordenadora, então ela não está aqui este semestre. Houve outros casos, a professora, teve um problema, reclamou, mandaram ela trabalhar longe, ela mora bem perto do outros campus, próximo ao agora leva mais de duas horas para ir, duas horas para voltar, acabou saindo, porque não aguentou. E diminuíram as aulas dela também... Reduções, assim, de 12, 14, 16 horas, metade das horas, se eu não me engano, no caso dela caiu para metade, ela teve uma redução absurda e ela acabou indo para outra IES, então isso,

essas coisas são muito difíceis... Ninguém reclama, não está escrito, mas todo mundo sabe (E4).

Assim, percebe-se pelo relato acima que o professor que reclama do horário pode até se posicionar contra a variedade de disciplinas, mas pode ser excluso de um campus perto de sua casa, com uma diminuição no número de horas (que no caso pode chegar a uma redução de 16 horas de um semestre para o outro) ou ainda com uma variedade maior de disciplinas nos próximos semestres como retaliação a sua reclamação. Para a entrevistada, essa não é uma norma escrita, mas todos sabem que é o que tem acontecido na IES. O que demonstram os relatos é que a organização faz uso do poder que se encontra em suas mãos, uma vez que pode a cada semestre decidir quem tem mais horas, qual(is) disciplina(s), períodos (manhã ou noite) e, no caso da IES B, em qual campi (uma vez que essa possui várias unidades) alocará este ou aquele professor. Tal fato pode sinalizar a razão da aceitação das regras impostas pelas organizações pela maioria dos sujeitos trabalhadores. Como enunciado na Revisão Teórica, várias podem ser as hipóteses para que se aceite o que determina a organização: o medo crescente do desemprego, resignação, submissão.

E6 também relata que, além de todo semestre ter matéria nova, há ainda a questão da jornada de trabalho. Na IES B, em cada período, há quatro aulas. Geralmente, na grade de horário dos alunos, há disciplinas de quatro aulas e outras com duas aulas. E6 diz que as disciplinas que ela ministra são de duas aulas, então em cada período tem de lecionar em duas salas distintas, o que causa grande desgaste e estresse.

(...) a jornada, porque a jornada é duas, quatro horas, eu acho que, assim, é complicado, porque se eu dou um número pequeno de aulas, eu não falaria de jornada, mas do número de aulas, eu não consigo me sustentar e eu dou aula para muito aluno, então eu tenho o problema da heterogeneidade nas salas e um número grande de salas para as quais eu dou aula. O professor que dá aula de matérias formadoras tem um problema grave, que é: ele entra em duas salas num período, duas salas em outra. De manhã e à noite de novo, então ele tem, naquele dia, quatro salas diferentes, isso gera muito estresse, e se você entra em salas, você entra numa sala e vai trocar para uma que o conteúdo é diferente, isso também é um outro complicador. Eu tenho esses problemas, isso gera muito estresse. (...) assim eu tive problema nas cordas vocais. Tive que fazer fonoterapia durante todo esse semestre, porque eu estava com um nódulo pelo excesso de fala... eu poderia ter me afastado, porque a minha voz estava... Não, não sei... eu acho que eu sou uma pessoa tão compromissada com o que eu faço, que eu nem considerei essa possibilidade (E6).

E6 afirma ainda que durante todo segundo semestre de 2013 fez fonoterapia, porque estava com um nódulo pelo excesso de fala, ocasionado, o que ela acredita, justamente por ter que lecionar em tantas turmas diferenciadas.

Lemos (2005) enfatiza que o ensino possui características particulares geradoras de fatores causadores de problemas físicos. As condições que se apresentam para o exercício de sua profissão (número elevado de alunos em sala de aula, acústica inadequada dos ambientes e comportamento dos alunos) impõem o uso excessivo e inadequado da voz, que, se usada inadequadamente, leva a problemas das cordas vocais, comprometendo a atividade do professor. O autor acrescenta que a obrigatoriedade de ficar em pé por um tempo prolongado pode levar a problemas circulatórios em consequência da sobrecarga.

Em síntese, nota-se que muitas vezes o docente nas IES privadas leciona disciplinas com as quais não tem afinidade e por ele desconhecidas para atender à necessidade das IES de preencher vagas de recursos humanos faltosos, para manter-se no quadro funcional e como forma de complementar a sua carga horária que nem sempre é garantida de um semestre para o outro.

Benzer Belgeler