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APRESENTAÇÃO

A parte III da tese, que apresento nas próximas páginas, tem a finalidade de responder à pergunta de pesquisa, promovendo conexões entre os dados produzidos e a revisão da literatura construída na primeira parte do documento. Por esse motivo, além de apresentar os resultados da investigação, deve revelar as contribuições da tese para a área do conhecimento (PATTON, 2002).

Os resultados que são apresentados nessa terceira parte do documento estão relacionados à não-ação, como objeto de investigação da tese. Considerei no recorte teórico que a agência é um fluxo de intervenções causais reais ou observáveis ao longo dos processos (BERTILSSON, 1984), sendo constituída por uma série de ações em curso e eventos nos quais o agente é perpetrador, expressando a capacidade de realizá-las em primeiro lugar (GIDDENS, 2003, p. 10). Por ser a agência um processo de engajamento social temporalmente situado, ela é informada pelos aspectos habituais e orientado pelas alternativas de ação formadas ao longo do mesmo (EMIRBAYER e MISCHE, 1998).

Soma-se à essa definição, o fato de ao longo da revisão da literatura e do desenvolvimento da tese, aproximei-me de um tipo específico de agência – a não- ação – como um objeto a ser observado no processo de formação das estratégias de RSE. A não-ação é um tipo específico de agência que é adotada quando as demais alternativas não são adotadas e, consequentemente, um curso de ação intencional é mantido (BACHRACH e BARATZ, 1962 e 1963). Ou seja, a não-ação é uma alternativa que direciona e ‘limita o escopo’ da agência de acordo com ‘vieses específicos’ (BACHRACH e BARATZ, 1963, p. 632). Assim, o estudo da não-ação está normalmente relacionado ao estabelecimento de agendas e à manutenção de vieses de ação (GREEN, 1996). Como veremos adiante a forma como defini a agência e propus o estudo da não-ação, em termos pluralista critico, permitiram

contribuir para a construção e o reconhecimento de uma posição epistemológica- metodológica distinta para o estudo das estratégias de RSE.

Ao longo do documento, defendi a tese de que a não-ação, ao longo do processo de formação das estratégias de RSE, é co-determinada por elementos dos níveis micro-individual, meso-organizacional e macro-estrutural, e contribui para a manutenção dos interesses da grande empresa na sua relação com a sociedade. Cabe reconhecer a importância dessa perspectiva devido ao fato da literatura de agência em estratégia não tratar da não-ação e sua associação ao conceito de co- determinação, bem como a literatura de RSE não tratar adequadamente a ação intencional e dos interesses e vieses associados.

Conforme argumentei, essa posição é bastante interessante para superar a perspectiva voluntarista característica da literatura dominante em RSE e trabalhar com um novo modelo de ação e uma outra concepção de agência. Seguindo a argumentação de Levy et al (2003, p.92), considerei na tese que a formação das estratégias de RSE deve ser tratada à luz das “condições históricas e políticas que atendem a interesses particulares”, principalmente das grandes empresas, no contexto da globalização (MARENS, 2004; BANERJEE, 2007).

Uma lente crítica permitiu explorar como um tipo específico de agência – a não-ação – serve a interesses das grandes empresas ao longo de um processo de formação de estratégias de RSE, possuindo implicações para os demais atores sociais e a sociedade. Ao revelar tais implicações, por meio do estudo dos eventos de não-ação na empresa CC, cria-se a possibilidade de apresentar contribuições teóricas e práticas para os estudos sobre estratégias de RSE a partir do adequado reconhecimento da ação intencional de grandes empresas no contexto da globalização, em termos espaço-temporais.

A construção dessa tese teve como base a inquietação quanto à natureza da agência no modelo dominante em estratégias de RSE (ver PRAHALAD e HAMMOND, 2002; PORTER e KRAMER, 2006; BRUGMAN e PRAHALAD, 2007). A literatura contemporânea de RSE apresenta os estrategistas e as empresas como agentes de mudança capazes de resolver problemas sociais mais amplos, ao desenvolverem voluntariamente estratégias de RSE integradas aos seus objetivos estratégicos. Consequentemente, a inquietação na tese está associada ao fato de esse modelo dominante defender a integração (ou submissão) de interesses sociais

mais amplos à agenda das grandes empresas, pressupondo a adoção de uma perspectiva racional de caráter fundamentalmente econômico. A integração de interesses sociais aos interesses das empresas, por meio da RSE, é necessária e útil em um contexto de globalização no qual há o aumento do poder das empresas frente outros atores sociais (KORTEN, 1996; ARNOLD, 2003; AKTOUF, 2005). Certamente, essa perspectiva mascara o envolvimento de outros atores, suas ações e influências ao longo do processo de formação das estratégias de RSE, em uma tentativa de restringir o entendimento a agência e de excluir ou minimizar as alternativas de ação que esses demais atores apresentam ao longo do processo.

Partindo da suposição de que o voluntarismo de ação em estratégias de RSE é insuficiente explicar a formação dessas estratégias de RSE, construí na parte I da tese uma argumentação, pautada no pluralismo crítico (ROONEY, 1986; SCHOLSBERG, 1998), que revela as limitações da agência preconizada por esse modelo. Esse modelo dominante fundamenta-se em uma deliberada determinação da ação pelos estrategistas do topo da organização, que analisam um ambiente externo, criando e selecionando estratégias de RSE que são simultaneamente direcionadas ao stakeholders e integradas ao seu negócio (ver POST et al, 2002; SACHS, 2006; GEVA, 2008). Portanto, a revisão da literatura que apresentei procurou revelar que é necessário e possível trabalhar com outra concepção de agência nos estudos sobre estratégia de RSE, principalmente aquelas relacionadas ao reconhecimento do interesse público associado. O estudo da não-ação ao longo de um processo de formação de estratégias de RSE permitiu explicitar como esta serve aos interesses das empresas, possuindo ramificações e implicações políticas para os demais atores sociais e a sociedade implicados com o interesse público em questão.

O foco sobre o processo de formação das estratégias de uma grande empresa, permitiu revelar que a agência é co-determinada por ações e influências dos diferentes níveis de análise (CHILD, 1972 e 1997; PETTIGREW, 1992 e 1997; WHITTINGTON, 1988, 1992 e 2002a; PETTIGREW et al, 2002). Normalmente, as pesquisas processuais examinam as questões de poder em uma perspectiva intra- organizacional que desconsidera estruturas sociais e políticas mais amplas (LEVY et al, 2003, p. 92-93). Por esse motivo, reconheço a agência como sendo exercida dentre as alternativas de ação macro-estruturalmente negociadas (EMIRBAYER e

MISCHE, 1998), inclusive a não-ação, como forma de revelar que a opção pela não- ação limita a agência à alternativa de ação que garante o atendimento à agenda e vieses de ação previamente estabelecidos (BACHRACH e BARATZ, 1962 e 1993; GREEN, 1996; ). Desta forma, uma pesquisa processual de orientação pluralista crítica, em busca do reconhecimento de um tipo de agência específico, permitiu desafiar o voluntarismo em estratégia de RSE e, ao mesmo tempo, revelar a manutenção de vieses e a garantia de agendas de interesse da grande empresa em RSE em dois eventos de não-ação.

Conforme argumentado anteriormente, a posição epistemológica mais frequente nos estudos norte-americanos (O’SHAUGHNESSY, 1997) em estratégias de RSE – realizados com base no modelo dominante criado a partir das influências da área de estratégia sobre a temática –, mantém o foco em apenas uma das posições dicotômicas, no que tange estrutura/ação e determinismo/voluntarismo, prejudicando o entendimento adequado da agência (PETTIGREW et al, 2002; TSOUKAS e KNUDSEN, 2002). O debate entre voluntarismo e determinismo, característico das ciências sociais e mais antigo nos estudos organizacionais (ver BURREL e MORGAN, 1979; REED, 1997), já pertence também aos fóruns acadêmicos da área de estratégia mesmo que de forma limitada (WHITTINGTON, 1988, 1992; KNITHS e MORGAN, 1991 e 1993; CHILD, 1999; CLEGG et al, 2004), também associada ao interesse da estratégia como prática social (WHITTINGTON, 2002b; CHIA, 2004; JARZABKOWISKY, 2006 e 2008; CHIA e MACKAY, 2007). Porém, esse debate ainda não avançou suficientemente sobre o entendimento da agência em estratégias de RSE, apesar de ser crescente o interesse de autores críticos da área de estratégia pela temática (ver CLEGG, 2002; AKTOUF, 2005; ADLER et al, 2007, BANERJEE, 2007 e 2008).

Considero que, isoladamente, nenhuma dessas duas posições é suficiente para permitir a compreensão do fenômeno. Por esse motivo, lancei mão da noção de pluralismo (ver MAHONEY, 1993; JACKSON, 1999), de orientação critica (ROONEY, 1986; SCHLOSBERG, 1998) como forma de aproximar diferentes conceitos e arcabouços teóricos pelo reconhecimento de suas posições políticas distintas e das limitações existentes em cada um deles para a compreensão da não- ação em estratégias de RSE. O pluralismo crítico mostra-se interessante para a aproximação de um problema de tese que vem sendo adotado pelos principais

autores da área de estratégia, devendo ser considerado como uma forma de produzir resultados que sejam mais influente politicamente e eticamente responsável (CLEGG et al, 2006, p. 9)

Para dar conta da posição epistemológica-metodológica desenvolvida e de atender o objetivo de tese, estruturei essa apresentação dos resultados em três capítulos. No primeiro, apresento os dois eventos de não-ação em estratégia de RSE na empresa CC, procurando analisá-los segundo as categorias e os níveis de análise propostos no framework construído na 1ª. parte do documento. As duas seções (uma para cada evento) começam a revelar os resultados da tese gradualmente (em algumas sub-seções) de forma a mergulhar nos eventos de não- ação, respondendo aos dois elementos iniciais que endereçam a contribuição teórica de uma tese – ‘o quê’ e ‘como’ (ver WHETTEN, 2003).

A partir das categorias de análise da não-ação – construídas e definidas em termos conceituais e operacionais na parte II da tese –, destaco os elementos que são considerados como parte da explicação do fenômeno da não-ação em estratégias de RSE na empresa CC – ‘o porque’. Na sequência, discuto como esses elementos, que constituem os processos subjacentes à formação das estratégias de RSE, estão relacionados ao longo do processo. Apresento-os graficamente, por meio do método de mapeamento visual, visando esclarecer as relações entre os elementos e níveis de análise para o leitor.

Então, procuro nessa seção (re)construir minha tese ao responder as questões ‘o que’ e ‘como’. A partir da reflexão sobre os resultados produzidos, é possível compreender a não-ação como um tipo específico de agência em estratégia de RSE. Uma agência que se contrapõe àquela inicialmente associada a um caráter voluntarista que não reconhece adequadamente as influências dos demais atores da sociedade na formação das estratégias de RSE. A contribuição dessa seção está também no fato de tratar em termos empíricos, pela primeira vez na tese, a articulação dos diferentes níveis de análise para a compreensão de como ocorre a co-determinação em cada evento de não-ação em estratégia de RSE na empresa CC. Esse aspecto é fundamental para a construção das duas seções subsequentes e para a adequada apresentação dos resultados e contribuições da tese.

No segundo capítulo, a partir das análises realizadas no capítulo anterior, construo uma tipologia de co-determinação em estratégias de RSE, procurando

destacar a contribuição de cada tipo de co-determinação identificado para a compreensão da não-ação em estratégias de RSE. Conforme afirma Bertero (1981, p. 32), a construção de uma tipologia tem por finalidade “agregar os resultados da pesquisa” e “organizar o conhecimento produzido, de forma a aprimorar futuras análises”. Cabe destacar que a tipologia formulada não se propõe a ser uma explicação integral e exaustiva de uma dada realidade, sendo apenas um meio heurístico de estabelecer o sentido do assunto que está sendo investigado (PATTON, 2002).

Desta forma, por meio da construção de uma tipologia de co-determinação, destaco dos resultados da tese a relevância do conceito para o entendimento da não-ação em estratégias de RSE. Nesse sentido, a seção apresenta “explicações plausíveis e convincentes do porquê devemos esperar determinados relacionamentos [...] chamar para a discussão a estrutura fundamental de uma nova proposição teórica.” (WHETTEN, 2003, p. 70). Consequentemente, a tipologia pode permitir que novos estudos na área de estratégia tratem a co-determinação como uma forma viável de reconhecer as influências dos diferentes níveis de análise sobre esse um tipo específico de agência.

No terceiro e último capítulo, discuto as principais contribuições da tese. Procuro trazer novas implicações teóricas e práticas para os estudos em estratégia e RSE, a partir da investigação realizada e da incorporação de novas literaturas não previstas na revisão realizada inicialmente. Nessa última seção, associo os processos de não-ação e co-determinação a alguns conceitos subjacentes às duas literaturas, tratados na parte I da tese, como forma de avançar no entendimento do fenômeno social. Portanto, procuro trazer contribuições ao debate desses conceitos centrais, visando estender o conhecimento existente apesar das limitações à generalização associadas à proposta de estudo.

Benzer Belgeler