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Antes de retornar ao Brasil de seu prêmio de viagem ao estrangeiro, a artista passou por alguns países da América Latina, entre eles, a Argentina. Nesse país estreita laços com Jorge Glusberge e Antoni Muntadas, e diz que esse último a incentivou a explorar um pouco mais o vídeo. O contato anterior com Manuel Chambi, já havia despertado a artista para linguagem, porém como não tinha acesso à câmera, não trabalhou a linguagem antes de 1974.

Em Buenos Aires, o artista Antoni Muntadas recomenda Vater para uma exposição no CAYC (Centro de Artes Y Comunicacíon). Para a exposição, Regina Vater compra uma Super-8 e produz sua primeira videoarte, intitulada Miedo, em 1975. Sobre suas motivações para o vídeo, a artista declara:

Aí então eu entrei em contato com o vídeo através foi Muntadas...eu sempre tive... assim...muita fissura... vontade...e eu fiz meu primeiro vídeo em Paris, por causa da Ruth Escobar, daquela célebre história...da Ruth...Aí... mas eu nunca tive uma câmera de vídeo... nem nada...aí... eu comprei uma camerazinha até de Super-8... nessa viagem e comecei a filmar... na verdade... na Argentina e o...o... Glusberg era o rei do vídeo e tal... e ele tinha uma câmera de vídeo... aí quando eu cheguei na Argentina... tava assim um clima muito

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Os dados desse vídeo estão no site da Cinemateca Brasileira: http://cinemateca.gov.br/cgi-

bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=P&nextAction=search&exprSearch=I D=024835&format=detailed.pft

158 balançante... a Isabelis... a Isabelita... tava por cair e eu comecei... comecei a sentir aquela coisa... aquela paranoia... aquela coisa que eu já conhecia do Brasil né... aquela coisa da revolução...aí...e eu fiquei morrendo de medo de voltar pra casa e encontrar o mesmo clima... porque eu sai na época do Médici... que foi uma época trágica pro Brasil né...foi inclusive na época que eu tinha feito o Calabar... a capa do Calabar... que foi censurado... aí então... eu...me deu essa coisa de fazer um vídeo sobre o medo...e aí...e aí eu disse...eu quero saber como é que essas pessoas aqui acham... pensam sobre o medo119.

A situação política de vários países da América Latina era de regime ditatorial. O medo era comum entre as pessoas por conta das mortes e das perseguições políticas. Regina Vater viveu todo o processo do golpe de 1964 no Brasil e viu muitos conhecidos sofrerem com a censura de seus trabalhos e até mesmo com prisões. Chegar à Argentina, durante o governo de Isabelita Perón e a pressão dos militares para tomar o poder, fez com que esses sentimentos viessem novamente à tona.

Vater conta que foi para a Praça San Martin, acompanhada de um colega uruguaio, e com um pequeno gravador foi perguntando às pessoas o que elas achavam do medo e o quê causava esse sentimento nelas. No relato da artista: Aí eu fui pra praça San Martin com um menino uruguaio...que eu tinha conhecido lá através do pessoal da embaixada...que ele era namorado de um cara...da filha de um ...cara que trabalhava lá na embaixada...aliás um senhor muito simpático... e...esse menino era tupamaro... ele me confessou que era tupamaro... ele tava na Argentina porque ele tava fugindo do Uruguai... que o Uruguai é...tava... foi pior né... foi um dos piores lugares... Aí então... ele topou me ajudar nesse vídeo... aí a gente foi pra praça San Martin com um gravadorzinho e começamos a fazer umas entrevistas com o povo lá... é.. o que você acha do medo?... aí tinha umas respostas das mais variadas... assim... desde a... do tom social...econômico... psicológico...tinha gente que era gay... tinha gente que era... é... tinha criança... tinha senhoras idosas... tinha de tudo...tudo... de todos os níveis sociais... foi muito interessante... Eu tenho alguns dizeres disso em papel... tá... é... eu tenho isso em papel... eu descobri entre meus alfarrábios... algumas transcrições...120

119 Comigo ninguém pode: a voz de Regina Vater, 2014. (00:32:29) 120 Idem. (00:33:57)

159 Usando uma câmera Super-8, a artista gravou de uma só vez 13 minutos de vídeo em que ela fazia caras de medo de acordo com a gravação dos depoimentos das pessoas. Por sugestão de Alfredo Portillos, com quem tinha um relacionamento na época, ensaiou antes para que tudo corresse bem, já que naquela época a edição do vídeo era feita na própria câmera. Jorge Glusberg foi quem empunhou a câmera na ocasião e fez a edição. Para a realização do vídeo, a artista mandou uma carta para a embaixada do Brasil pedindo dinheiro para arcar com as despesas da edição dessa gravação, na qual deixou apenas as vozes das pessoas falando sobre o medo. Sobre o processo de produção, Regina Vater explica:

RV: Então, foram 13 minutos de eu ãh...caras de medo assim né, sem parar né, até a fita acabar, porque eu fazia aquilo escutando o som, tá entendendo...da fita....a fita tocando... aquele som tava sendo gravado ao mesmo tempo que eu e minha cara tava dando... fazendo a performance...E aí eu dep./é:...foi muito engraçado porque o Glusberg tinha que fazer assim... a edição dentro da câmera né... então ele primeiro tinha o mapa da... de Buenos Aires...e...botando o lugar da praça... e aí nessa ocasião...e como o... Miedo, né, Fear, tava escrito em inglês... e aí... naquela época inglês era assim...a:.. A língua...mas também tinha o pessoal que ficava... eu...eu levei uma chicotada do Frederico Morais quando eu fiz aquela série ART...porque ao invés de usar a arte com E...eu useo só...é...

AP: Em inglês...

RV: Ih... mas aquilo ali rendeiu...mas então...é...Aí o Glusberg filmava aquilo, e eu tinha colocado a música do Gilberto Gil...assim “A ema gemeu”...que é o que ele fala sobre o medo nessa música né...aí então...que é o medos dos bichos...que acho...não sei se é, agora não me lembro bem da música...mas eu...mas na minha cabeça agora parece que o mesmo que, a ema dá o grito né por causa, avisando que o bicho homem tá chegando, não sei se é isso, mas na minha cabeça agora no momento...me parece...a ema gemeu...(inaudível)...ela é mais ou menos assim a música...E depois entra né, essa parte toda da fita do pessoal falando e eu vou até o final fazendo essas caras de medo.121

160 O vídeo tem uma conotação política clara: o medo da ditadura brasileira e também de todas as outras que foram instauradas na América Latina na época. Como voltar tranquila a um país em que seus pares ainda eram exilados ou presos? Explorando o medo alheio, Vater exterioriza sua própria condição de cidadã que vivia os medos de uma situação política de opressão.

Figuras 74 (a e b): Regina Vater, Miedo, 1975. Fotografia do vídeo.

Fonte: Acervo da artista.

Infelizmente a fita com a gravação do trabalho foi perdida. Por desconhecimento de técnicas de conservação, a película de acetato sofreu degradação pela “síndrome do vinagre”, ocasionada normalmente pelo calor e umidade ambiente. O forte cheiro de vinagre (ácido acético), a adesão das faces da película umas às outras e o medo de contaminar os outros filmes, fez com que a artista jogasse fora o original que não tinha uma única cópia.

O áudio foi doado ao Museu da Imagem e do Som em São Paulo na ocasião da organização da exposição individual Quatro Ecologias, realizado pelo Oi Futuro em 2012.

Regina Vater guardou os registros fotográficos que realizou durante uma das exibições do vídeo Miedo e por isso podemos ter a noção da sequência de sua performance: a câmera posicionada para enquadrar seu rosto de perto mostra a artista de olhos fechados ou abertos e seu rosto sempre sério, sua expressão

161 oscila entre negação e súplica. Num movimento catártico, a artista expõe o medo e a apreensão de se viver na América Latina naquele momento, chamando a atenção de seu espectador para aquele contexto histórico.

Figura 75: Regina Vater, Miedo, 1975. Fotografia do Video.

Fonte: Acervo da artista.

O catálogo, as fotos, a reportagem, o áudio e o depoimento da artista constituem, portanto, fragmentos de uma obra desaparecida, da qual podemos ter apenas uma ideia enquanto acesso sensível, estético, fenomenológico; para além de uma proposição crítica acerca de seu lugar na arte latino-americana.

Benzer Belgeler