137 Dentro de seu processo de produção, Regina Vater sempre ressalta seu didatismo, seu processo solitário de elaboração dos trabalhos e também a observação do processo de trabalho de outros artistas que teve oportunidade de conhecer e com quem pode aprender. Honra sempre suas influências e nunca deixa de citá-las e até mesmo homenageá-las.
Regina nunca teve patrocínio financeiro para executar seus vídeos e audiovisuais. Conta que, para ela, o exemplo a seguir desta linguagem foi o cineasta e arquiteto peruano Manuel Chambi (1924-1987), filho do fotógrafo Martín Chambi (1891-1973), que fazia bancos de imagens para seus filmes e a ensinou a fazer o mesmo.
Em meados da década de 1950, em vários países da América Latina surgiu o interesse por um cinema que retratasse a vida e a sociedade desse continente. No Brasil surgiu o Cinema Novo, com Glauber Rocha. Na Argentina, o Instituto de Cinematografia de Santa Fé, localizado na Universidade do Litoral, foi fundado em 1956 com o intuito de aliar teoria e prática cinematográfica abordando temáticas sociais e políticas, um tipo de cinema novo argentino. O trabalho de Manuel Chambi se insere nesse contexto de busca da identidade latino-americana. Na cidade de Cuzco, em 1955, funda o Foto Cine Club, junto com Victor Chambi, Eulogio Nishiyama, Cesar Villanueva e Luis Figueroa100. A
produção cinematográfica do clube consistia em documentários etnográficos. Esse grupo ficou conhecido com a Escola de Cuzco:
Some of earliest initiatives occurred in outoftheway places, like Cuzco in Peru, where a film club was set up in 1955 and Manuel Chambi and others started making short documentaries on ethnographic and sociocultural themes the French film historian Sadoul called them the Cuzco School. They were not unique. The 1950s saw the spread of film societies throughout the continent, the proliferation of filmmaking courses and contests, and the publication of magazines. It was in the pages of titles like Hablemos de cine in Peru and Cine al dia in Venezuela that in the 60s and 70s the movement debated its values and sense of identity.101
100 HABLANDO DEL DOCUMENTAL. Disponível em:
https://documentalperuano.wordpress.com/tag/manuel-chambi/> Acesso em: 2014.
101 Tradução livre da autora: Umas das primeiras iniciativas ocorreram fora dos grandes centros, como
Cuzco, no Peru, onde um cineclube foi fundado em 1955 e onde Manuel Chambi e outros começaram a fazer pequenos documentários sobre temas etnográficos e socioculturais e que o historiador francês Sadoul chamou de Escola de Cuzco. Eles não eram os únicos. A década de 1950 viu a propagação de
138 Dos documentários produzidos por Chambi, podemos destacar Corpus del Cuzco (1955), também conhecido como Qoyllur Riti, que retrata a celebração do Corpus Christi na cidade.
Figura 64: Manuel Chambi, Corpus del Cuzco, 1955
Fonte: imagem disponível em: https://documentalperuano.wordpress.com/2010/07/04/en-busca-de- la-memoria-documental-parte-ii/
Regina Vater conheceu Manuel Chambi durante sua viagem para a 2ª Bienal de Lima, no Peru, em 1968. E é nesse encontro que o cineasta lhe passa o conselho já citado, como conta a própria artista:
Aí uma vez (...) a gente tava nos passeios... a gente na costa... assim... pra ver os penhascos... que tem aquelas falácias [sic] né... pro Pacífico... muito bonito... é... aí ele é...falou assim... Amanhã Regina não vou poder te pegar, porque eu tenho uma cena que eu preciso filmar.... Aí eu disse assim... Ah... eu não sabia que você estava fazendo um filme... poxa... você deve tá muito ocupado... então... ah...desculpa estar te incomodando... E ele disse assim... Não... não... não o po...eu faço o seguinte... como eu filmo é assim... quando surge uma
cineclubes em todo o continente, e a proliferação de cursos de cinema e concursos, e a publicação de revistas. E foi nas paginas da Hablenos de cine no Peru e Cine al dia na Venezuela nas décadas de 60 e 70 que o movimento debateu seus valores e seu senso de identidade. CHANAN, Michael. New Cinemas in Latin America. Disponível em:< http://www.mchanan.com/wp-content/uploads/2013/12/latin- american-cinema-2.pdf> Acesso em: 2014
139 oportunidade eu filmo e guardo no meu arquivo e amanhã vão filmar uma ce...o exército vai fazer umas manobras... a aeronáutica vai fazer umas manobras... e... e eu tenho que ter uma dessas cenas em arquivo... porque quando eu precisar de uma cena de guerra eu já e tenho”102.
Esta conversa foi esclarecedora em relação ao processo de criação; a partir dela Regina Vater começa a produzir seu próprio arquivo de imagens, em fotografia e vídeo. O processo da escolha das imagens vai depender do contexto, da ideia para um trabalho, e estas podem ser utilizadas em mais de um deles. Para a artista, as imagens são como artifícios de linguagem, que se transformam de acordo com a mensagem que ela deseja transmitir ao seu espectador.
Ouvindo o conselho de Manuel Chambi, o arquivo de imagens de Regina Vater se transforma em recurso para atenuar a falta de financiamento de seus trabalhos. Na fala da artista:
E foi uma coisa que eu aprendi em termos de vídeo, de cinema, de trabalhar com arquivo... E então... isso eu usei muito... tanto assim que os meus vídeos... eles não tem aquela listona enorme de nomes... nem o Bill também tampouco... A gente faz tudo... A gente não tem quase edi/editor... a gente edita... Câmera a gente faz... é produção... a gente faz... tudo... Não tem... sabe... vídeo pra gente não é mistério... Quero dizer... é um vídeo de... de resistência cultural né... porque é um vídeo que vai contra todas as regras do capitalismo... mas foi desse jeito que eu aprendi com o Chambi... porque ele era um cineasta pobre... E eu sempre fui uma artista pobre... Então como é que eu ia fazer? Eu ia experimentar como?103
(00:08:35)
E esse é um dado importante dentro da poética da artista, ou seja, trabalhar com o precário e com o que tem disponível na natureza, no lixo urbano, nas ações das pessoas no dia a dia e também nas imagens veiculadas pelas propagandas, pela televisão entre outros. As imagens gravadas e guardadas em seu arquivo de vídeos obedecem a essa mesma ideia de um uso ampliado de possibilidades estéticas.
102 Comigo ninguém pode: a voz de Regina Vater, 2014. (00:07:25) 103103 Comigo ninguém pode: a voz de Regina Vater, 2014. (00:08:35)
140 Dessa forma, sua produção em vídeo pode ser pensada como uma forma de resistência cultural, realmente não obedece a nenhum sistema, seja político ou artístico. A voz da artista nesse trecho esclarece sua postura de se manter à margem do mercado de arte, não se rendendo a movimentos ou modas passageiras. Sua autenticidade enquanto artista está no respeito à sua própria poética.