Com o objetivo de se pensar na constituição da identidade de professores de Biologia, buscamos alguns elementos que nos permitissem entender a constituição desta identidade a partir do campo de conhecimento que o professor ensina: as disciplinas. O que significa ser professor de Biologia? Como surgem as disciplinas? Que dispositivos são utilizados para delinear seus contornos, seus objetos de estudo e os profissionais que poderão praticá-la? Quem decide isso? Como se constrói a identidade de um campo de conhecimento? Como estas identidades são sustentadas e/ou transformadas ao longo do tempo? Que translações são realizadas neste processo?
Em busca de respostas a estas perguntas, nos apoiamos na ANT para entender a constituição de redes identitárias disciplinares. Tomaremos dois exemplos, retirados do estudo de Nespor (1994), para ilustrar como se constitui a identidade de uma disciplina. Veremos que as redes identitárias são menos ou mais poderosas, dependendo da sua extensão e estabilidade, além das interseções com outras redes, por meio de translações, que formam associações mais ou menos fracas.
Ao investigar a identidade de físicos e administradores, Nespor (1994) fez um extenso estudo etnográfico envolvendo estudantes de graduação em Física e Administração de uma conceituada universidade pública americana. Ele argumentou que a escolarização dos graduandos funciona como uma rede de movimentos (translações) que promovem múltiplos fluxos de recursos materiais e representações que são organizadas e produzidas no tempo e no
espaço. O foco do seu trabalho foi a produção de actantes para as redes espaço-temporais de poder, as chamadas disciplinas, que constituirão a identidade entre estes estudantes de graduação. Ele argumenta que os elementos e a estrutura dos nós que os conectam na rede não são fixos e estáticos. Redes se expandem, contraem e mudam de configuração através do tempo. A proposta foi entender não as trajetórias individuais das redes, mas as práticas sociomateriais que constituem a rede inteira. Isso permitiu entender as identidades como fluidas e dinâmicas e as práticas sociomateriais como interações entre elementos distantes da rede que são mobilizados ao longo das interseções entre as trajetórias dos estudantes.
Em seu trabalho, Nespor (IBIDEM) afirma que nossas experiências e entendimentos são construídos numa escala muito mais ampla do que aquela definida por um determinado momento, em um determinado lugar. Quando agimos estamos simultaneamente interagindo com pessoas e coisas do contexto imediato, bem como com pessoas e coisas que estão temporal e espacialmente longe de nós.
Disciplinas (como Física e Administração) são constituídas por ciclos de acumulação (LATOUR, 2001) dentro das redes, que organizam fluxos de pessoas e coisas através do tempo e do espaço. Os ciclos de acumulação são processos que permitem mobilizar, comprimir, arquivar, codificar e conservar informações, gerando um conhecimento acumulado que poderá ser distribuído para outros tempos e espaços através de um aparato disciplinar (NESPOR, 1994).
Nespor ressalta que programas educacionais definem suas trajetórias por meio de
espaços materiais – edifícios, salas de aula e laboratórios – para colocar os estudantes em
contato com representações de outros espaços e tempos – livros, equações, palestras,
equipamentos de laboratório – que fazem estes espaços ―ausentes‖ tornarem-se ―presentes‖,
na forma textual, por exemplo. Estas representações moldam um espaço da prática (na forma de textos, equações, problemas, etc), por meio da mobilização de espaços disciplinares distantes fisicamente (o mundo real dos físicos e dos administradores), de modo que este mundo pode ser transportado para os espaços e programas educacionais.
No entanto, como qualquer mobilização, a prática sofre uma enorme redução. O que
resta são tecnologias representacionais – equações matemáticas, leis da física – que os
praticantes usam para agir sobre o espaço social da disciplina. Ser um físico ou administrador significa ser proficiente no uso destas tecnologias representacionais a tal ponto que se movem por espaços e tempos que não são acessíveis aos ―estranhos‖ às disciplinas.
Se pensarmos em poder como a habilidade de moldar ações através do espaço e do tempo, então, sistemas de representação são tecnologias nucleares do poder disciplinar. Nespor (IBIDEM) aponta que quando estudantes fazem anotações, resolvem problemas, analisam casos, eles mobilizam, movem e combinam representações de diferentes tempos e espaços, de forma que começam a participar também dos ciclos de acumulação disciplinares. Neste sentido, a prática acadêmica reproduz as relações de poder das disciplinas, nas quais as realidades locais estão inscritas em formas abstratas (móveis, estáveis e combináveis) e transportadas a centros como laboratórios, escritórios ou departamentos, onde possam ser
combinadas em um conjunto de provas de autoridade. ―As práticas educacionais são, portanto,
constitutivas das relações de poder, e não simplesmente estão condicionadas a elas‖
(NESPOR, 1994, p. 20, tradução nossa)
Aprender uma disciplina, portanto, não é transformar o aparato psicológico de alguém, mas aprender refere-se a mudanças nas organizações espaço-temporais dos atores-redes distribuídos. As pessoas precisam de laboratórios, computadores, colegas (e das configurações entre esses elementos) para serem físicos, para ―aprenderem‖. Em seu estudo, Nespor (IBIDEM) concluiu que o Programa de Física cerca (fisicamente) e comprime (socialmente) os espaços nos quais os estudantes trabalham e monopolizam seu tempo. No 3º ano de graduação, por exemplo, a maioria dos estudantes está fazendo seu trabalho em salas pequenas, com um grupo pequeno e relativamente estável de colegas, e passam a maioria do seu tempo diário fazendo trabalhos de Física.
O Programa de Administração, ao contrário, encaminha os estudantes para uma rede amarrada, mas muito mais inclusiva (estudam em um edifício grande, que dividem com outros
Programas ligados a Negócios – Contabilidade, Finanças, etc.). Há vários cenários (salas de
aula, lanchonetes, salas de estudo, de entrevistas) que estão frouxamente conectados. As atividades dos administradores são mais diversas que as dos físicos, pois passam menos da metade do seu tempo fazendo trabalhos de Administração. Além disso, os estudantes de Administração podem negociar suas trajetórias curriculares de modo a atender seus interesses pessoais, o que não é permitido na Física.
Como tensão da dialética espaço-temporal, os estudantes criam estratégias para se apropriar dos espaços e tempos à sua maneira. O produto desta dialética é uma trajetória através dos espaços materiais do programa de graduação, ligada à formação de redes sociais
dos estudantes de Física, por exemplo, pequenos grupos de estudo ocupam as salas de aula e corredores do edifício, no contraturno das aulas, transformando estes espaços em lugares de estudo até tarde da noite. Os estudantes de Administração, por outro lado, frequentemente subvertem a programação oficial do Programa, fazendo as disciplinas em grupos e períodos diferentes do que foi especificado oficialmente. É nesta trajetória que os estudantes que fazem os cursos de Física e de Administração começam a se transformar em Estudantes de Física e Estudantes de Administração, construindo uma identidade disciplinar.
Também no caso particular desta pesquisa, entendemos ser pertinente considerar a constituição da identidade profissional de estudantes da Biologia enquanto disciplina.
Semelhante aos estudantes de Física e de Administração, estudantes de Biologia – seja do
bacharelado ou da licenciatura – geralmente tem em sua formação um contato direto com
objetos, práticas e lugares específicos: laboratórios, matas, vidrarias, puçás, armadilhas fotográficas, testes estatísticos, dissecações, trilhas de cerrado, etc. A disciplina Biologia fornece um amplo espectro de possibilidades de atuação profissional e articula diferentes actantes para a composição de redes espaço-temporais de poder, assim como vimos no estudo de Nespor (IBIDEM). Ao acompanharmos um destes actantes, percebemos uma série de translações que ajudam a delinear o campo de formação e de atuação profissional, forjando a identidade dos estudantes de graduação em Biologia, conforme veremos no próximo tópico.