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Além da crônica, outro gênero literário toma feições próprias na literatura de jornal: o poema. Em O Imparcial, colaboram os poetas consagrados da Bahia do século XX: Pethion de Vilar, Artur de Sales, Anísio Melhor, Godofredo Filho, Eurico Alves, Carlos Chiacchio, entre os mais lembrados. No entanto, o que liga o poema à atividade política é o estilo de homenagem. Os grandes vultos e as grandes celebrações são agraciadas com poemas laudatórios e odes de super-estimação. A personalidade mais homenageada poeticamente é Rui Barbosa. Um exemplo do prestígio do grande tribuno é que, mesmo depois de sua morte em 1923, o ‘Jornal de Ala’ inaugura atividade na década de 1930 e vai até os anos 1940, zelando e velando a figura do maior baiano. Há poemas de aniversário de nascimento, de chegada de viagem, de partida da Bahia, de aniversário de morte. As homenagens literárias e discursos, dos quais a mais célebre é a oração fúnebre sobre Machado de Assis,175 caracterizam uma época.

A subjetividade do poema permite que suas imagens reforcem de maneira indireta idéias compartilhadas (comungadas) pelo autor e insufladas pela editoria

jornalística, enquanto possam refutar aspirações adversas à orientação do jornal. O gênero poético também está vinculado a esses enquadramentos. A ode invariavelmente faz referência a que ou por quem o órgão se orienta. Nesses casos, estão Rui Barbosa, Castro Alves, Ernesto Simões Filho. Por outro lado, os epigramas, que tomam forma na coluna ‘As farpas’, são utilizados para criticar, hostilizar, desautorizar indivíduos de opinião ou gosto contrários, desafetos, como o governo adverso, a condução política oposta.

As possibilidades de representação poética são infinitas, uma vez que não está em jogo uma única visão do poema: sua organização estética. Pode-se estudar desde as mentalidades aí envolvidas, a permanência do conservadorismo no soneto e na ode; conquanto estejam articulados à construção poética e ao todo do jornal. De outro modo, haveria um empobrecimento do poema feito a serviço e no “calor da hora”. Rico de tantos signos, muitas vezes, também desfrutando de bom proveito nos estudos mais consagrados, como nos casos dos poetas Eurico Alves,176 Artur de

Sales e Godofredo Filho,177 é preciso que seja urdida uma historiografia da literatura

176 ALVES, Eurico (E. A. Boaventura, Feira de Santana, BA, 27 de junho de 1909 – 4 de julho de 1974). Poeta, ensaísta, diplomado em direito (1933). Bibliografia: Poesia, 1990 (Org. Maria Eugênia Boaventura); colaboração em jornais e revistas, principalmente Arco & Flexa. REF: DÓREA, Juraci.

Eurico Alves poeta baiano. 1978. FBN. In: COUTINHO; SOUSA, 2001, p. 209. v. 1.

177 GODOFREDO FILHO (G. Rebelo de Figueiredo F.), Feira de Santana, BA, 20 de abril de 1904 – Salvador, BA, 22 de agosto de 1992). Humanidades no Seminário de Teresa e Ginásio da Bahia, estudos de filosofia e arte brasileira. Professor, poeta, pintor. A posição de G.F. é das mais singulares. Introdutor do Modernismo em Salvador, em regresso de viagem ao Rio de Janeiro, onde entrara em contato com os principais líderes do movimento, tornou-se logo um dos mais destacados do grupo que promovia a renovação das letras baianas, em torno do crítico Carlos Chiacchio. Estudioso da arte baiana, foi depois conservador do Patrimônio Histórico e Artístico do MEC e chefe da delegação local, teve oportunidade, então, de realizar o levantamento de pintura, arquitetura civil e religiosa do Estado, cujos trabalhos compõem precioso acervo da repartição em Salvador. Dedicou- se especialmente aos assuntos do Barroco colonial, destacando-se os estudos sobre os artistas da época e posteriores. Seus trabalhos constituíram a base do tombamento e preservação desses monumentos da Bahia e Sergipe. Poeta lírico de grande sensibilidade, herdeiro e continuador do lirismo típico da Bahia. G.F. ocupa um posto de alto relevo na história da literatura de sua terra, embora sua irradiação no resto do país não tenha sido proporcional por causa da limitação das edições de sua obra. Participou de delegações intelectuais ao estrangeiro e recebeu honrarias. Membro da Academia de Letras da Bahia (1959) e outras instituições culturais de Salvador. Medalha do Mérito Cultural Castro Alves, 1984. Afrânio Coutinho. Bibliografia: Samba Verde, 1928 (poesia);

Poema de Ouro Preto. 1932 (poesia); Seminário de Belém da Cachoeira. 1937 (história); A torre e o castelo de Garcia D’Ávila. 1938 (história); Os holandeses e a cultura artística da Bahia. 1938

(história); Guia poético e prosaico de Cachoeira. 1939 (história); Auto da Graça e Glória da Bahia. 1949 (teatro); Introdução ao estudo da casa baiana. 1951 (história da arte); Balada da dor de corno. 1952 (poesia); Poema da rosa. 1952 (poesia); Sonetos e canções. 1954 (poesia); Lamento e

perdição de Enone. 1959 (poesia); Introdução crítica ao ‘Navio Negreiro’ de Castro Alves. 1959

(crítica); Discurso de posse na Academia de Letras da Bahia. 1959 (discurso); Discurso de saudação

a Nestor Duarte. 1966 (discurso); Influências orientais na pintura jesuítica da Bahia. 1969 (história da

capaz de superar a tentação de isolamento do objeto simplesmente em seus caracteres formais e estéticos. A precedência desses caracteres não deve ser tampouco desprezada, nessa história, para que se possa escapar da acachapante e frustrante “poesia ruim” do final do percurso de análise.

O jornal é um volume publicado com duas funções: uma visível e até explícita; e outra, encoberta e de difícil percepção na longa duração do periódico. O trabalho jornalístico desdobra-se em divulgar os acontecimentos decisórios do cotidiano e da organização social, sejam eles parlamentares, econômicos, de segurança, da saúde, das catástrofes naturais e das guerras, do inusitado e do passível de comentário e crítica. Por método, as notícias são lançadas ao papel de forma a equilibrar do mais grave e impactante ao mais frívolo e risível. A função visível do jornal justifica sua existência e sua capacidade de arrecadar dividendos e dar lucros, transferidos aos indivíduos que o compõem. A função pouco visível do jornal diz respeito às idéias que defende e divulga em suas colunas.

À época de circulação, os periódicos e indivíduos correlacionados insistem em seu caráter de neutralidade ou no vínculo a uma terceira via (que não a direita ou a esquerda), contudo, as oito páginas de O Imparcial formam um todo empenhado numa causa. Em seu manifesto do primeiro número do Jornal de Ala, Carlos Chiacchio assim se refere: “(...) Nem à esquerda. Nem à direita. Nada disso. Para o alto e para frente. Direitinho como a sua flâmula azul e ouro. (...).”178

De certa maneira, todo poema disposto nas páginas dos diários está engajado às idéias ali veiculadas. Alguns de forma direta, parecem abandonar as estratégias do poema e confessam suas intenções, outros são até retirados de contextos originais diferentes. Poemas de autores do passado, como Gonçalves Dias e Fagundes Varela, e estrangeiros como Florbela Espanca, Camões, Shakespeare e Dante são posicionados para fortalecerem o sentido literário do

(crítica); Solilóquio. 1974 (poesia); Ladeira da Misericórdia. 1976 (poesia); Dimensão histórica da

visita do Imperador a Feira de Santana. 1976; Poema da Feira de Santana. 1977 (poesia); Salvador da Bahia de Todos os Santos do século XIX. 1979 (história); Irmã poesia. 1984 (poesia completa); e

outras produções incluídas em obras coletivas, além de história e diversos; participação em antologias. In: COUTINHO; SOUSA, 2001, p. 770. v. 1.

178 CHIACCHIO, Carlos. Apresentação de Jornal de ALA. Jornal de Ala, Bahia, Ano I, N. 1, s/p. maio 1939.

jornal e sua neutralidade. Por outro lado, Castro Alves, Pethion de Vilar e outros criadores locais reforçam a idéia de amor à Bahia e sua defesa à toda prova. Ali, onde eles estão encaixados pela organização do dirigente, sua neutralidade artística é o que denuncia seu uso. Escritores que abraçam uma causa dificilmente aparecem em páginas adversárias. A meditação sobre o poema periódico revela um tipo de literatura marcada pelo combate de escritas e de projetos.

Benzer Belgeler