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Vara-de-ferrão, Grinalda, Capacete, Caboclo-de-Pena

Se pensarmos em um novo conceito de animação, partindo da consideração do movimento, trajes e objetos em suas funções expressivas no espetáculo, devem ser considerados como elementos animados. No teatro do boi, além dos bonecos e bonecos-máscaras conhecidos, é possível destacar, de acordo com cada sotaque, elementos compostos por figurinos, adereços e acessórios que se impõem sensorialmente à visão da assistência e que realizam a triangulação necessária à existência de uma comunicação estética: brincante-animador-dançarino x objeto x receptor.

VARA-DE-FERRÃO :

Objeto que dispõe de um formato especial em cada sotaque embora sua função cênica seja a mesma. O formato no Boi de Matraca é de uma lança de madeira com fitas afixadas partindo da base da seta da ponteira. Varia de 80 cm a 1,20 m. No Boi da Baixada, essa lança é do mesmo formato da anterior, apenas um pouco menor e porta mais fitas. A mais bela e curiosa, de resultado cênico impressionante é a do Boi de Zabumba: uma haste que varia de 1m a 1,10 m, com uma ponteira discreta e de estilo variado, traz toda a sua extensão recoberta de papel celofane frizado (ou outro material plástico brilhoso), em camadas de cores variadas, num formato cilíndrico que se acentua na dança do brincante, rolando-a.

Sua função simbólica é a de instrumento de uso para tanger o Boi, embora nunca o fira nem de forma simulada. Neste caso, na animação da Vara-de- Ferrão, a matriz expressiva observada é a do vaqueiro-capataz, cujo brincante- dançarino transforma-se em animador do objeto em questão.

A coreologia dos seus movimentos implica no deslocamento espacial do corpo, valorizando todo o nível eucinético do mesmo, fornecendo uma visão de voltas (giros) incessantes em torno do seu eixo espinhal expandido até a ponta da

vara num movimento elegante e de um equilíbrio precioso, que dá a impressão de uma só haste girando sempre.

A harmonia desse movimento eucinético que desenha uma linha única, cujos extremos são a ponteira da vara e os calcanhares do brincante-dançarino, o faz deslizar no espaço cênico com giros suaves só transferindo o eixo levemente, mas sem alterar a dinâmica dos passos (flexão de joelhos e pernas apoiando o quadril que impulsiona o deslocamento), quando toca suavemente a vara nos chifres do Boi e reinicia outra seção de giros ininterruptos.

Não cabe aqui analisar dialogação, tampouco entrada e saída, pois o objeto em questão é também um instrumento da expressividade do vaqueiro- capataz.

GRINALDA:

Chapéu utilizado pelos “rajados” – os baiantes do cordão – dos Bois de Zabumba. É um chapéu

(...) de formato convexo com estrutura de buriti e arame, recoberta com fitas coloridas que saem do topo do adereço e chegam próximo ao chão. Estes chapéus possuem aproximadamente 50 cm de diâmetro e 15 cm de altura. Na parte frontal, logo acima do rosto do brincante, é fixada a grinalda, um ornamento de forma trapezoidal que possui bordados de miçangas e canutilhos. Na parte superior do chapéu, os brincantes costuram tecidos brilhosos ou criam outros ornamentos como bordados ou tramas de canutilho. (ARAUJO JUNIOR, 2008,p.29-30)

Não possui a priori função simbólica. É um objeto de adereçamento da fantasia do rajado, baiante do cordão. Porém a duplicação de significado desse objeto se dá na amplificação do espectro formado pelo movimento frenético das viradas (sucessão de giros) que expandem o conjunto de fitas, realizando preciosos e inusitados desenhos.

Este adereço como que esconde o brincante-dançarino recobrindo-o todo, deixando visíveis apenas partes do rico vestuário e as mãos que separam as fitas segundo o traçado de abertura da grinalda, enquanto canta as respostas do coro e toca um pequeno maracá.

O brincante-dançarino anima esse objeto realizando um movimento especial que o faz utilizar toda sua cinesfera sem deslocamento, balançando-se em movimentos sinuosos em torno do seu eixo, e executando giros que ampliam e retraem a abertura de pernas, flexão de joelhos e, com a coluna vertebral, sustenta e apoia a cabeça que orienta a descrição dos giros do chapéu grinalda. O movimento

que provoca o espalhar e recolher das longas fitas desenha sucessivas figuras de formatos extravagantes.

A dialogação do Grinalda é um solilóquio gestual e suas entradas e saídas (na execução dos movimentos descritos) se dão quando o cordão não está rolando, geralmente nos longos intervalos sonoros das matanças.

CAPACETE:

Nome atribuído ao chapéu dos rajados do cordão dos Bois da Baixada que também são usados por seus cabeceiras e vaqueiros.

Denominado de Capacete (ou por alguns brincantes de conjuntos desse sotaque, de chapéu de penacho) é construído em uma estrutura complexa e curiosa, além de um tamanho bastante avantajado que segue a disposição, força física e poder econômico do brincante-dançarino.

Partindo de um “coco” reforçado, uma aba dianteira levanta-se tendo sua borda ampliada por um grande leque de penas de ema, longas. A testeira, como denominam essa aba do chapéu é segura por cordões ou finas hastes à parte traseira do mesmo, proporcionando um equilíbrio de sustentação, mantendo-a de pé como suporte do penacho. Essa testeira é bordada com uma profusão de pingentes de canutilhos. E na parte traseira do Capacete, a partir do “coco” é que são afixadas as fitas de seda que se estendem até o chão e garantem, com seu peso, um certo equilíbrio do chapéu sobre a cabeça.

Sua função é definitivamente adereçar o traje dos brincantes. A matriz corporal dos baiantes que portam esses chapéus são similares às dos Vaqueiros e Amos., que aqui só se acrescenta e é o que se observa durante sua atuação.

A marca desses brincantes é postural. O peso do Capacete coíbe-lhes o alongamento do pescoço evitando o movimento da cabeça para os lados e para frente. Sua movimentação executa uma dança em andamento rápido, deslocando as pernas para o lado e em direção ao centro da roda. Marcam o passo batendo pé após pé, desenvolvendo deslocamentos laterais.

As figuras desenhadas pela dança desses baiantes e seus Capacetes, no nível eucinético, apesar de seus giros, dando volta em tordno dos seus eixos, apresentando seqüencias intermitentes, desenhando assim pequenos círculos, não causam tanto impacto visual quanto no nível do movimento coreológico, quando os brincantes-dançarinos se deslocam para a frente e, no centro da roda, formam um

grande círculo e aí sim, com firme transferência de eixo, alongam o pescoço, para frente, posicionando a cabeça para frente, baixando as testeiras dos chapéus que se juntam lateralmente e muito próximos uns dos outros, rodando o círculo formado a partir daí para a direita e para a esquerda, no tempo suficiente para dar a impressão de uma grande flor, ao levantarem concomitantemente os penachos.

A partir daí, a liberdade de girar o Capacete obedecendo a apoios diversos do eixo, faz que o baiante, agora no cordão que forma a roda da boiada, execute “roladas” em giros sinuosos sobre e em volta do próprio corpo.

CABOCLO-DE-PENA:

Também chamado Caboclo Real, personagem da estirpe indígena do Boi de Matraca.

Seu traje completo pesa entre 8 e 16 quilos, fantasia composta de roupa e grande cocar (também chamado de capacete pelos brincantes) é construído totalmente com penas de ema, tinturadas ou naturais.

O cocar ou capacete tem o diâmetro de aproximadamente um metro ou um metro e meio. É elaborado em uma armação de arame e papelão grosso e o corpo do brincante-dançarino é recoberto de penas montadas em perneiras, braceletes, tanga e peitoral. Esse conjunto da indumentária é determinante para a evolução coreográfica, segundo Ribeiro(In: IPHAN, 2011, p.117)

Sua função simbólica é de guardião da fazenda e da mata e, em seu entorno, e como “guarda”, ajuda a prender o Pai Francisco.

A figura composta de penas, por excepcionalidade, metamorfoseia o brincante-dançarino, fazendo com que este exteriorize uma personalidade nova, como se fosse sobreposta, chegando a confundir brincante e personagem, dando impressão à assistência de ser inseparáveis, formando uma unidade.

A matriz corporal do Caboclo Real se compõe a partir do imaginário popular sobre o “índio guerreiro” e sua expressividade se desenvolve com o emprego de grande força física que auxilia em seu potencial dramático. Essa força, essa energia adquirida a partir de um incansável treinamento físico, intenso e ininterrupto entre os brincantes-dançarinos durante treinos e ensaios, mesmo que estes não possuam regras formais, o que deixa transparecer que “essa energia difere de uma pessoa para outra”,Ribeiro, (In: IPHAN, 2011, p.117)

Sua atuação está pautada na execução da dança durante toda a brincada, mudando o comportamento cênico nas cenas em que é requisitado durante a matança.

Os movimentos do Caboclo Real são calcados numa seqüência de passos complicados que partem e dão continuidade a um equilíbrio precário que envolve a execução de saltos, corridas, giros, sapateados, deslizamentos e balanço pendular. A transferência constante do eixo, como se quisesse amparar uma possível queda do cocar, apresenta um precioso meneio de cabeça que deixa patente os apoios coxo-femurais e pélvicos desse eixo, partido do quadril para as extremidades do corpo, firmados pela flexão de pernas e pés, o que demonstra seu nível eucinético completo, dentro do movimento coreológico, que se dá durante a expansão dos passos na fluência livre por todo o espaço do centro da roda.

Esse movimento, que descreve figuras e desenhos coreográficos bastante delineados, é visível pela ação da dança coletiva do conjunto de Caboclos- de-Pena.

A dialogação dessa personagem se dá vocalmente em respostas de um brincante ou em coro. Suas entradas e saídas durante a matança estão restritas aos chamados e dispensas do Amo.

Benzer Belgeler