2.2.1. A Teoria das Necessidades Humanas Básicas
Com o objetivo de descrever a Enfermagem como uma ciência, Horta, durante sua trajetória profissional de trinta anos, acumulou observações, aprendeu, estudou e refletiu. Isso fez com que desenvolvesse uma teoria segundo a qual pudesse explicar a natureza dessa profissão, definir seu campo de ação específico e sua metodologia científica. Afirmava que nenhuma ciência podia sobreviver sem uma filosofia própria. Embora estivesse imperceptível de maneira clara e escrita, a filosofia científica é percebida quando todos os cientistas estão ligados entre si por uma unidade de pensamento comum. Nesse sentido, a Enfermagem como um dos ramos do conhecimento humano não pode prescindir de uma filosofia que lhe conceda bases para o seu desenvolvimento enquanto ciência. Filosofar segundo Horta é pensar a realidade, é uma interrogação. Na sua concepção, apesar de existirem diversos conceitos de filosofia, todos têm em comuns três pontos: o ser, o conhecer e a linguagem (HORTA, 2011).
Na Enfermagem, distinguem-se os três Seres: o Ser-Enfermeiro, o Ser- Cliente ou Paciente, o Ser-Enfermagem. Nesse sentido, o Ser-Enfermeiro é um ser humano que assume o compromisso com a Enfermagem. Então, a partir dessa responsabilidade com a profissão, esse ser adquire conhecimentos e habilidades tornando-se enfermeiro, cuja sanção é dada pela sociedade que lhe outorga o direito de cuidar de gente. Por sua vez, o Ser-Cliente ou Paciente pode ser um indivíduo, família ou comunidade que necessita de cuidados de outros seres humanos. O Ser- Enfermagem é um ser abstrato que se manifesta na interação e transação do Ser- Enfermeiro com o Ser-Cliente ou Paciente (HORTA, 2011).
No dizer de Horta, o Ser-Enfermeiro, para alcançar os níveis mais elevados do Ser-Enfermagem, subtranscende e atinge sua plenitude de ação, ou seja, ele vai além da obrigação do fazer. É estar comprometido e engajado na profissão. Do mesmo modo, quando se envolve com a pessoa a ser cuidada, por conseguinte, se deixa usar terapeuticamente, visto oferecer calor humano a outrem. É viver a cada momento como o mais importante de sua profissão, isto é, aquele em que o (a) enfermeira (o) ajuda um novo ser a vir ao mundo, a crescer, como também o assiste durante a morte. (HORTA, 2011).
O Ser-Enfermeiro tem como objeto assistir às necessidades humanas do indivíduo, os entes da Enfermagem. Essa assistência ocorre em qualquer fase do ciclo vital do ser humano. A Enfermagem caracteriza-se como ciência quando descreve os entes, explica-os, relaciona-os entre si e prediz sobre eles. Partindo desses conceitos, a Enfermagem busca desvelar o ser humano, seja ele indivíduo, família ou comunidade. Para Horta, a Enfermagem constitui-se como ciência, pois os fenômenos que estuda são reais e experimentáveis. As teorias existentes exprimem relações necessárias entre os fatos e os atos; além de que suas conclusões probabilisticamente explicam as ciências hermenêuticas, as empírico-formais e a formal ou positiva, como a física. Entretanto, a teórica reconhece a Enfermagem carente de um conjunto de conhecimentos organizados e sistematizados (HORTA, 2011).
Comprometida com uma sistematização da assistência de enfermagem, Horta desenvolveu a TNHB. Esse modelo conceitual põe em foco e engloba leis que regem os fenômenos universais, quais sejam: lei do equilíbrio (homeostase ou homeodinâmica), na qual o universo se mantém em equilíbrio dinâmico entre seus seres; lei da adaptação, todos os seres interagem buscando forma de ajustamento para se manter em equilíbrio e a lei holística. Nessa visão, o universo é um todo, o ser humano é um todo, a célula é um todo e não a soma das partes formadoras de cada ser (HORTA, 2011). Para seu trabalho, Horta respaldou-se em teorias de Enfermagem elaboradas por enfermeiros norte-americanos, quais sejam: “teoria da homeostase” de MacDowell, “teoria holística” de Levine, “teoria da adaptação” de Roy, “teoria de King” e a “teoria de Rogers” (CIANCIARULLO, 1987).
A TNHB foi desenvolvida a partir da teoria da motivação humana de Maslow que se fundamenta nas necessidades humanas básicas. Na teoria em
questão, a Enfermagem reconhece o ser humano como parte integrante do universo, sujeito a estados de equilíbrio e desequilíbrio. É agente de mudança, como também a causa de equilíbrio e desequilíbrio em seu próprio dinamismo. Os desequilíbrios geram no ser humano necessidades que, se não atendidas ou atendidas inadequadamente, trazem desconforto que, se prolongado, se torna causa de doenças (HORTA, 2011).
Ainda com relação à TNHB, no cuidado ao ser humano, devem-se considerar seus entes concretos. No caso da Enfermagem, esses entes são as necessidades humanas básicas, cujos conceitos não satisfazem plenamente quanto ao seu significado. Horta as define como sendo estados de tensões, conscientes ou
inconscientes, resultantes dos desequilíbrios homeodinâmicos dos fenômenos vitais
(HORTA, 2011. p. 38). As necessidades não se manifestam em condição de equilíbrio, porém estão latentes e surgem a depender de estado de desequilíbrio em que porventura se apresente. Essa situação ao se manifestar leva à necessidade de uma resolução. As necessidades básicas são universais e comuns a todos os seres humanos. Suas manifestações bem como a maneira de satisfazê-las variam em cada indivíduo.
Na elaboração da TNHB, Horta utilizou, como suporte teórico, a teoria da motivação humana nas necessidades humanas básicas de Maslow. Estas foram hierarquizadas por ele em cinco níveis: necessidades fisiológicas, de segurança, de amor, de estima e de autorrealização. Para o teórico, o indivíduo só procura satisfazer as necessidades seguintes quando conseguem satisfazer, ainda que minimamente, as necessidades anteriores. No entender de Maslow, no ser humano, é inexistente a plena e permanente satisfação de uma necessidade, pois, assim ocorrendo, não haveria mais motivação individual (HORTA, 2011).
Na sua hierarquia das necessidades humanas básicas, Horta utilizou a denominação de João Mohana para os níveis dos instintos psíquicos: necessidades de nível psicobiológico, psicossocial e psicoespiritual (Quadro - 1). Os dois primeiros níveis são comuns a todos os seres vivos. Entretanto, as necessidades espirituais são inerentes apenas ao ser humano. Essas são inter-relacionadas, ao fazerem parte do ser humano que é um todo indivisível, um ser holístico (HORTA, 2011).
Quadro 1 - Classificação das necessidades humanas básicas de Horta
FONTE: HORTA (2011)
2.2.2. A Teoria das Necessidades Humanas segundo Garcia e Cubas (2012).
Em virtude de sua morte prematura, aos 55 anos de idade, a Dra. Wanda Horta foi impossibilitada de realizar o aprimoramento e a validação de sua teoria. Alguns estudiosos a usam até os dias atuais em diversos trabalhos, cenários de prática e ensino. Nesse sentido, uma reformulação na ordem e títulos de algumas necessidades humanas propostas por Horta foi realizada por Benedet e Bub (2001), a fim de promover um ajustamento aos conceitos e princípios estabelecidos pela teórica.
Recentemente foram realizadas adequações de alguns aspectos relacionados com as NHB por Garcia e Cubas (2012). Houve alteração quanto ao número, nos títulos e na forma e/ou conteúdo de suas definições. Esta nova classificação foi utilizada neste estudo, por se considerar que apresenta mais correspondência com as necessidades atuais do ser humano - (Quadro - 2). Esse ajuste teve como propósito adequar um referencial que contribuísse na aplicação dos diagnósticos, das intervenções de enfermagem e resultados. Neste sentido, foram estabelecidas prioridades, conciliando as necessidades orgânicas de sobrevivência com as dos grupos de necessidades psicossociais e psicoespirituais. Conforme as autoras supracitadas, a aplicação do PE requer embasamento de uma
Necessidades psicobiológicas Necessidades Psicossociais
Oxigenação Hidratação Nutrição Eliminação Sono e repouso
Exercício e atividades físicas Sexualidade Abrigo Mecânica Corporal Motilidade Cuidado corporal Integridade cutaneomucosa Integridade física
Regulação: térmica, hormonal, neurológica, hidrossalina, eletrolítica, imunológica, crescimento celular, vascular
Locomoção
Percepção: olfatória, visual, tátil, gustativa, dolorosa Ambiente Terapêutica Segurança Amor Liberdade Comunicação Criatividade
Aprendizagem (educação à saúde) Sociabilidade
Recreação Lazer Espaço
Orientação no tempo e no espaço Aceitação Auto-realização Autoestima Participação Autoimagem Atenção
teoria, que por sua vez precisa estar orientada por outra teoria. No entanto, para que isto ocorra, sua definição precisa estar apresentada de modo que seja compreendida e assimilada por quem a utiliza.
Quadro 2 - Classificação das necessidades humanas segundo Garcia e Cubas, 2012
Fonte: GARCIA; CUBAS (2012)
Assistir o ser humano, no entender de Horta (2011), é fazer por ele aquilo que ele não pode fazer por si mesmo. É ajudá-lo quando impossibilitado de se autocuidar; orientar ou ensinar; supervisionar e encaminhar a outros profissionais quando necessário. Dessa forma, o enfermeiro exerce suas funções na área de atuação específica que consiste em assistir o ser humano no atendimento de suas necessidades básicas e ensinar o autocuidado. Enquanto isso, a interdependência visa à manutenção, promoção e recuperação da saúde. Relativo à função social, as atividades residem no ensino, pesquisa, administração, responsabilidade legal e participação na associação de classe. A partir do estudo das NHB, foram estabelecidos dois eixos, quais sejam, a Enfermagem é um serviço prestado ao ser humano; a Enfermagem é parte integrante da equipe de saúde.
Na proposta de Horta (2011, p. 30), a Enfermagem é conceituada como ciência e arte de assistir o ser humano no atendimento de suas necessidades básicas,
de torná-lo independente desta assistência, quando possível, pelo ensino do autocuidado, bem como de recuperar, manter e promover a saúde em colaboração com profissionais.
Esta profissão respeita e mantém a unicidade, autenticidade e individualidade do ser
Necessidades psicobiológicas Necessidades Psicossociais
Oxigenação Hidratação Nutrição Eliminação Sono e repouso Atividade física Sexualidade e reprodução
Segurança física e do meio ambiente Cuidado corporal e ambiental
Integridade física
Regulação: crescimento celular e desenvolvimento funcional Regulação vascular Regulação térmica Regulação neurológica Regulação hormonal Sensopercepção Terapêutica e de prevenção Comunicação Gregária Recreação e lazer Segurança emocional Amor, aceitação
Autoestima, autoconfiança, autorrespeito Liberdade e Participação
Educação para a saúde e aprendizagem Autorrealização
Espaço Criatividade
Garantia de acesso à tecnologia
humano, pois assiste o indivíduo e, não, a sua doença. Alem disso, reconhece o homem como membro de uma família, de uma comunidade e participante ativo no seu autocuidado. Convém ressaltar que todo o cuidado de enfermagem é preventivo, curativo e de reabilitação. Em virtude dessa compreensão, a Enfermagem necessita desenvolver sua metodologia de trabalho fundamentada em um método científico, tecnologia essa denominada de Processo de Enfermagem.
No contexto dessa tecnologia, o cuidado é o foco da Enfermagem. Trata- se de um processo interativo não realizado apenas pelo uso de equipamentos e saberes estruturados, pois suas ações se configuram como intervenções, relações e subjetividades. O PE, embora possua a mesma elaboração e efetivação, tem aplicação que depende de quem o executa, do referencial teórico adotado e das perspectivas predominantes no ambiente do cuidado (AMANTE et al., 2010).