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Pittsburgh. O plano geral dessa cúpula foi consolidar os caminhos para a promoção de um desenvolvimento forte, equilibrado e sustentável. Po entanto, o cenário e os entusiasmos para com a retórica cooperativa já não eram mais os mesmos, apesar de os líderes terem destacado que o G-20 seria “o principal fórum para a nossa cooperação internacional” (Declaração de Pittsburgh, 2009, p. 4). A cúpula de Pittsburgh foi interpretada como o ponto de inflexão na trajetória do G-20 financeiro por conta da percepção dos atores sobre a melhora nos indicadores econômicos globais. A partir dessa reunião, as preferências individuais de cada ator foram evidenciadas em comparação com a retórica cooperativa antes mais enaltecida. Apesar da melhora na condição do cenário econômico, a declaração de Pittsburgh sugeriu que o contexto não era para otimismos.159

“Hoje nos comprometemos a manter nossa firme resposta política até que esteja assegurada uma recuperação duradoura. Agiremos para garantir que, quando o crescimento voltar, também haverá empregos. Evitaremos qualquer retirada prematura dos estímulos. Ao mesmo tempo, prepararemos nossas estratégias de saída e, quando chegar a hora, eliminaremos, de forma cooperativa e coordenada, nossas políticas extraordinárias de apoio, mantendo nosso compromisso para com a responsabilidade fiscal.” (Declaração de Pittsburgh, 2009, p. 2).

Os governos apresentaram propostas relacionadas à construção e ao fortalecimento das instituições intergovernamentais. Pessa ocasião, os líderes assumiram que o G-20 substituiria na íntegra o G-7 como o principal fórum para cooperar e coordenar as preferências dos Estados nos assuntos econômicos internacionais _ fato que marcou um dos pontos altos do processo analisado. Aos ministros das finanças e ou das economias, caberiam as funções semelhantes

159 “Reunimo-nos em momento crucial de transição entre a crise e a recuperação econômica, a fim de virar a página

de uma era de irresponsabilidade e adotar um conjunto de políticas, regulamentações e reformas que atendam às necessidades da economia global do século XXI.” (Declaração de Pittsburgh, 2009, p.1).

aos de acessores, preparando as agendas e implementando as decisões com o suporte do FSB e do FMI. Institucionalmente, algumas divisões de tarefas ficaram mais claras: coube ao FSB a regulação dos mercados financeiros e a supervisão das importantes e influentes instituições financeiras internacionais; ao Comitê da Basiléia, ficou a responsabilidade de definir os padrões de adequação de capital e de regulação das atividades bancárias via acordo da Basiléia III; e ao FMI, as ações de supervisão das políticas macroeconômicas e de financiador de última instância, consubstanciando uma governança em três linhas: G-20 no esforço político de governança econômica; o FSB no de regulação e supervisão da atividade bancária junto com o Comitê da Basiléia; e o FMI no financiamento e na supervisão das políticas macroeconômicas dos Estados.

“Designamos o G-20 como o principal foro para a nossa cooperação econômica internacional. Criamos o Conselho de Estabilidade Financeira (Financial Stability Bureau – FSB) para incluir as principais economias emergentes e saudamos seus esforços em coordenar e monitorar o progresso no fortalecimento da regulamentação financeira.” (Declaração de Pittsburgh, 2009, p. 4).

Sobre a reforma financeira, o desafio do grupo em Pittsburgh foi o de manter em funcionamento os parâmetros e as diretrizes acertados nas cúpulas e nos encontros anteriores. Pessa matéria, os líderes delegaram as funções de regulador financeiro ao FSB e às autoridades nacionais. Quanto à administração do risco financeiro, a mensagem foi de fortalecer a capitalização dos bancos e de atentar para os níveis de liquidez e de alavancagem dos bancos privados. Essas tarefas, posteriormente, foram designadas ao Comitê da Basiléia.160 O documento atestou que:

“Comprometemo-nos a agir em conjunto para elevar os padrões de capital, implementar estritos padrões internacionais de remuneração para acabar com práticas que incentivaram a excessiva tomada de riscos, melhorar o mercado de derivativos de balcão e criar ferramentas mais poderosas para tornar as grandes firmas globais responsáveis pelos riscos que assumirem” (Idem, p.1).

160 “Garantir que nosso sistema regulatório para os bancos e outras empresas financeiras controle os excessos que

levaram à crise. Considerando que o comportamento negligente e a falta de responsabilidade levaram à crise, não permitiremos o retorno às práticas bancárias até então habituais. Comprometemo-nos a agir em conjunto para elevar os padrões de capital, implementar estritos padrões internacionais de remuneração para acabar com práticas que incentivaram a excessiva tomada de riscos, melhorar o mercado de derivativos de balcão e criar ferramentas mais poderosas para tornar as grandes firmas globais responsáveis pelos riscos que assumirem. Os padrões para grandes empresas financeiras globais devem ser proporcionais aos custos de sua falência. Para todas essas reformas, estabelecemos prazos precisos e rigorosos” (Declaração de Pittsburgh, 2009, p. 4).

Sobre o tema das reformas e do fortalecimento do FMI, a declaração de Pittsburgh afirmou que:

“Estamos comprometidos com uma transferência das quotas de participação no Fundo Monetário Internacional (FMI) para os mercados emergentes e os países em desenvolvimento dinâmicos de, no mínimo, 5% dos países sobre-representados para países sub-representados, utilizando a fórmula atual de quotas como a base para esse trabalho. Hoje, registramos o cumprimento de nossa promessa de contribuir com mais de US$ 500 bilhões para um renovado e expandido Povo Arranjo para Empréstimos (Pew Arrangements to Borrow – PAB) do FMI.” (Declaração de Pittsburgh, 2009, p. 2). “O FMI realizou alocações de Direitos Especiais de Saque (Special Drawing Rights -SDR) da ordem de US$ 283 bilhões no total, dos quais mais de US$ 100 bilhões complementarão ativos de reserva existentes nos mercados emergentes e nos países em desenvolvimento” (Declaração de Pittsburgh, 2009, p. 13). Saudamos a reforma das linhas de empréstimos do FMI, incluindo a criação da inovadora Linha de Crédito Flexível” (Idem).

Como parte do pacote abrangente de reformas, concordamos que os chefes e diretores seniores de todas as instituições internacionais devem ser nomeados mediante processo aberto, transparente e baseado no mérito. Devemos urgentemente implementar o pacote de reformas de quotas e voz do FMI, acordadas em abril de 2008.” (Declaração de Pittsburgh, 2009, p.14)

Outra promessa feita em Pittsburgh foi a reforma e o fortalecimento dos bancos multilaterais de desenvolvimento que atendem as economias pobres que não acessam o mercado internacional e privado de créditos. Pelo documento de Pittsburgh, “reafirmamos nosso compromisso de assegurar a disponibilidade de fundos necessários para os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento e suas linhas de crédito concessional, especialmente a Agência de Desenvolvimento Internacional (International Development Agencc - IDA) e o Fundo Africano de Desenvolvimento (FAD)” (Idem, p. 14).

O tema dos desequilíbrios globais (acúmulo excessivo de reservas em dólares por um país) também foi discutido nessa reunião.161 Os encontros anteriores não avaliaram essa questão, pois o tema sempre foi interpretado como extremamente sensível para os EUA e para a China. Ao mesmo tempo, as negociações multilaterais nunca foram capazes de administrar

161 Vide item 1 do capítulo 5: O tema dos desequilíbrios globais, do Acúmulo de reservas em dólares e da política

esse assunto. Como destacou Andrew Walter, “In manc wacs, the abilitc of these two countries

and of the institutions of global economic governance more generallc to manage the problem of global imbalances can be seen as a litmus test of contemporarc multilateralism.” (WALTER,

2010, p. 2). E complementa Angeloni: “the issue had been left aside in the two previous

meetings, first to avoid turning the summits into WS-China confrontations and second, because the prioritc was to address financial regulation failures and the common risk of a depression”

(APGELOPI, 2013, p. 110).

Outra iniciativa para se desenvolver os instrumentos de governança no campo econômico e financeiro foi com o advento do “Mutual Assessment Process” (MAP) dentro do FMI. Esse instrumento serve, em seu plano, para dar suporte técnico aos Estados de modo que os mesmos tenham condições de captar as implicações e os impactos das suas políticas macroeconômicas nas outras economias. Ficou a cargo do FMI “on the request of the G20, the IMF provides

technical analcsis to evaluate kec imbalances and how members' policies fit together—and whether, collectivelc, thec can achieve the G20's goals.” (IMF, “The G-20 Mutual Assessment

Process”).162

A declaração final da reunião de Pittsburgh apresentou intenções referentes à ampliação da sua agenda. Pela primeira vez, desde 2008, o comunicado final do grupo propôs resolver temas correlacionados com a segurança energética, com a mudança climática, com o combate à pobreza, com o comércio e com o investimento. Po entanto, essas novas temáticas foram marginalizadas nos encontros posteriores do grupo.

***

O cenário econômico e político, em setembro de 2009, era de otimismo com a recuperação da economia global. Em certo sentido, essa condição, ainda que perdurou durante um curto espaço de tempo, até a crise da Europa, fez com que os atores reduzissem as suas expectativas para com a cooperação empreendida dentro do grupo. Como conseqüência, os governos voltaram as suas atenções para os seus interesses econômicos domésticos.

“The contrast with April´s London summit is stark. Then, leaders contended themselves with grand gestures, devising wacs to claim unimaginablc large quantities of monec were being thrown at the crisis. Now the focus for the bodc that has in effect become the most important international economic decision-making forum, is of how to clean up the mess, and of the grittc process of prevention. Then, solidaritc reigned; divisions were dangerous. Now, countries are once more forging their own paths. Wniform action will be harder and,

in some areas, less necessarc. The main reason for this change is the resumption of growth. The French, German and Japanese economies began to expand in the second quarter. Ben Bernanke, Federal Reserve Chairman said the WS recession was ‘verc likelc over’; Mervcn King, his WK counterpart, declared: “There are now signs that growth has resumed in the third quarter.” Such positive signs have allowed Dominique Strauss-Kahn, head of the IMF, to conclude: “the global economc appears to be emerging at last from the worst economic downturn in our lifetime.”163

Sobre os resultados alcançados com as propostas para reformar as instituições de Bretton Woods, em especial o FMI, as expectativas e as interpretações dos atores não foram consensuais. Robert Zoelick, presidente do Banco mundial, declarou em tom de entusiasmo, que as reformas no FMI gerariam um novo Bretton Woods: “Bretton Woods is being

overhauled before our eces”.164 A revista The Economist ainda destacou a seguinte percepção

de Robert Zoelick: “The G20 leaders agreed to shift voting power substantiallc within the IMF

towards "dcnamic emerging markets and developing countries", and endorsed similar reform at the World Bank” (Idem).

Po entanto, as razões dos impasses com respeito à reforma no FMI foram consideradas na reportagem: “But reforming IMF quotas will necessarilc involve a loss of power for some

countries, manc of which have far more influence in the fund than benefits their share of the world economc” (Idem). Sobre uma possível reforma da composição da mesa diretora do FMI,

as posições dos países europeus foram desfavoráveis à execussão das promessas: “Axel Weber,

a member of the European Central Bank's governing council, said that ‘Germanc and EW countries must continue to be treated as fairlc and justlc as other IMF members.” (Idem).

Raghuram Rajan, ex-economist chefe do FMI, também indicou a pouca propensão dos atores de peso em ver reformado o FMI "the fundamental question is, how much sovereigntc

are cou willing to give up for the global economic good? The answer, right now, is zero”

(Idem). A declaração de Raghuram Rajan, um dos mais importantes economistas do FMI, foi emblemática no sentido de demonstrar a indisposição dos atores de peso em ver reformado o FMI via delegações de parcelas das suas soberanias em prol do fortalecimento institucional mais inclusivo e representativo. Tal observação indicou, na conjuntura na qual ela foi proferida, uma ponderação responsável sobre os limites do G-20 financeiro enquanto iniciativa capaz de reformular profundamente a estrutura da governança do SMFI.

163 A pattern emerges. The Financial Times, September 21, 2009.

Algumas avaliações com respeito à institucionalidade do G-20 foram divulgadas: “for a

start, it has no permanent secretariat”.165 Ademais, o ministro das finanças sul-africano, Trevor Emanuel, criticou a presença dos chefes de Estado em um fórum específico para técnicos e ministros das finanças: “when cou take it up to heads of state and government, the imbalances

are accentuated.” (Idem). Pesse sentido, para esse ator, os temas relacionados com a dinâmica

monetária e financeira internacional deveriam ser tratados por técnicos especializados e afastados dos debates políticos.

Sobre as reformas no FMI estimuladas pelo G-20, “The IMF has been given more monec:

fine, but not dramatic.” Sobre a regulação do setor financeiro “The regulators’ forum now includes more emerging markets: sure, but the test will be the rigour of rules that emerge”.166 Conforme a declaração de Pittsburgh atestou, o G-20 substituiu o G-7 enquanto o fórum privilegiado para a cooperação econômica internacional, mas “although the Group of Seven

rich countries has largelc been replaced bc the Group of 20, which includes the scstemicallc significant emerging markets, so far it has not distinguished itself” (Idem). Ao final do ano de

2009, as notícias caracterizaram o G-20 desde uma perspective pessimista: “At the G20 meeting

in Washington in November 2008 the global governance rhetoric rose to fever pitch. The crisis has not produced a new world order” (Idem).

O material de mídia prospectado revelou a cautela necessária para interpretar essa iniciativa de governança no campo monetário e financeiro. De fato, a crise foi um estímulo para cooperar, mas os resultados e as expectativas com G-20 deveriam ser interpretados com cautela e responsabilidade. A responsabilidade analítica não permite idealizar que os Estados, a partir do G-20, poderiam questionar a ordem monetária e financeira vigente e, consequentemente, reformar e reformular profundamente a estrutura da governança do SMFI.

Benzer Belgeler