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A história do humor confunde-se praticamente com a história do humano. E m meio a mitos, rituais e outras faculdades que envolviam o lado místico, o homem se utilizava do riso arcaico como ferramenta de retorno ao caos, possibilitando o contato com o divino. No E gito A ntigo, por exemplo, a modalidade mais comum era o humor gráfico, que incluía em suas representações pictóricas elementos de ridicularizaçã o de divindades e personagens públicos, além de cenas de cunho sexual e fusões entre humanos e animais com finalidade satírica. “E sse humor visual tinha, ainda, uma preocupaçã o diversa da ótica oficial: era subversivo e, muitas vezes, ultrajante; disseminava visões que contradiziam certas crenças e tradições acolhidas nas altas esferas políticas e sociais” (GA L L A S , 2011, p. 258).

J á para a antiga civilizaçã o helê nica, rir de algo era uma forma de aproximar-se da morada dos deuses, e dos vícios do próprio Olimpo deveria-se rir também (MINOIS , 2003) . E mbora nã o fosse unanimidade – posto que certas correntes de pensamento gregas, como o E stoicismo, desconfiavam do humor e conferiam-lhe caráter enfraquecedor do ser –, o riso “infernal”, presente de forma pioneira nas obras de L uciano, A ristófanes e D iógenes, era a essê ncia da “liberdade de espírito e da palavra” (Idem, p. 69). Helena B eristáin (2011), reporta-nos à dicotomia tragédia/comédia para associar tal liberdade justamente ao culto dionisíaco, possivelmente influê ncia do intercâmbio grego outras culturas. O humor nascia entã o da ridicularizaçã o do que era estranho, diferente, atípico e, portanto, engraçado.

O cômico surge da imitaçã o caricaturesca e satírica das instituições sociais, dos costumes e dos tipos de personagens representativos de uma dada classe social. F requentemente se inaugura como uma improvisada invençã o, espontânea, que se plasma mediante uma linguagem cheia de equívocos, de jogos de palavras, enfim, de chistes, enfatizando os defeitos físicos e morais dos personagens (B E R IS T Á IN, 2011, p. 74) .

A ristóteles sentenciara que “nenhum animal ri, exceto o homem”, embora reconhecesse que era uma característica potencial e nã o essencial: nã o se pode rir sem ser homem, mas pode-se ser homem sem jamais rir (A R IS T ÓT E L E S apud MINOIS , 2003, p. 72). Para o filósofo, dois domínios deveriam sempre escapar ao riso: a lei e a religiã o. C ontrariando A ristóteles, a sátira chega sim à esfera da lei e da política. E sse processo,

contudo, só se concretiza quando surge o que podemos chamar de “embriã o” da opiniã o pública, condiçã o sine qua non para a repercussã o do humor. J á no auge da civilizaçã o romana, a sátira política ganha corpo quando das Guerras Púnicas (264 a 146 a.C .), conflito entre romanos e cartagineses pela hegemonia comercial no Mar Mediterrâneo. E mergia entã o a prática da zombaria contra a realeza e os chefes militares, prática potencialmente perigosa, principalmente quando dirigida a um dos C ésares. Os recursos usados eram cânticos e versificações irônicas, louvando os líderes e vencedores, porém lembrando todos de sua humanidade – e portanto, falibilidade. Na fase do Império, esse tipo de sátira ganhava um tom interessante: o ridículo recaía sobre o imperador, mas só após seu falecimento. E a finalidade era rebaixá-lo para evidenciar a figura do sucessor. E xemplos disso sã o as obras de C ícero, C atulo e Plínio, o J ovem (MINOIS , 2003, p. 89-90).

E scolas posteriores, como a da F ilosofia T eológica C ristã , cujos principais expoentes sã o S anto A gostinho, S ã o J erônimo e S ã o T omás de A quino, eram partidárias da sobrepujança da razã o acima da emoçã o. L ogo, os teólogos eram pouco simpáticos ao riso. Na visã o agostiniana, por exemplo, a sabedoria residia muito mais no dever – e portanto na dor – que na recompensa (alegria). O caráter sombrio do humor se intensifica sobretudo na Idade Média, conforme J acques L e Goff, quando os legisladores do clero cultivam uma relaçã o entre o riso e o corpo. C ircunscrito à esfera do prazer, obviamente era uma prática incompatível com a maioria dos dogmas e rituais cristã os, como jejuns, castidade e penitê ncias ( L E GOF F , 1994).

Na gê nese do E stado Moderno, Peter B urke (2010) destaca que, em meio à

efervescê ncia político ideológica que marcou a ascensã o da sociedade burguesa, o apogeu da imprensa ideológica favoreceu o começo do delinear do que se entenderia por esfera pública (HA B E R MA S , 2003). “Na Inglaterra do século X V III, as baladas e panfletos continuaram a ser um importante meio de comunicaçã o política [ ...] S e há alguma coisa que integrou a política à vida comum do povo na Inglaterra do século X V III, pelo menos nas cidades, foi certamente o jornal” ( B UR K E , 2010, p. 348-349). E foi nesse ambiente que amadureceu uma das manifestações mais significativas da sátira política: a caricatura.

“A caricatura política, aparecida sob a L iga e desenvolvida sob a F ronda, era, até o século X V II, muito complexa, pegando emprestados elementos da cultura popular [ ...] para colocá-los a serviço de uma mensagem muito elaborada” (MINOIS , 2003, p. 468). No século X IX , de maneira muito mais intensa que nos dois anteriores, a ironia ocupa um papel preponderante, e dir-se-ia até essencial, na lida com a política. Um jornalismo político

ancorado na sátira floresce, com opositores ridicularizando-se mutuamente e desencadeando crises. D e acordo com S ylvia L eite, a caricatura é a criaçã o de um perfil simplificado (seja ele gráfico, literário, teatral ou de qualquer outra linguagem), no qual se empreende "a deformaçã o deliberada do original, com propósitos jocosos ( L E IT E , 1996, p. 20). É a arte que transfigurava o indivíduo satirizado em grotesco, animalizando-o ou coisificando-o. “R edutora, ela põe em evidê ncia o ridículo da comédia política e social. E la desce o herói de seu pedestal e espezinha o orgulho humano” (MINOIS , 2003, p. 471). O avanço tecnológico e a consolidaçã o de um modelo industrial de imprensa favoreceram a proliferaçã o das revistas humorísticas no século X IX . Uma consequente associaçã o entre humor e imprensa foi bastante natural em diversos países europeus – e acabou se reproduzindo também na conjuntura brasileira, conforme será explanado um pouco mais à frente.

O século passado, com seu contexto de extremos, duas guerras mundiais, avanços tecnológicos e sociais, além de regimes totalitários em diferentes níveis, foi marcado pelo uso do humor na propaganda política. Nos círculos de poder, passou-se a ver o riso como ferramenta útil para suportar a realidade e até ressignificá-la. “O século X X o provou: é possível rir de tudo, e, de certa forma, isso é bom. D uas guerras mundiais nã o aniquilaram o senso do cômico. E m 1914-1918, ri-se na guerra e contra a guerra” (MINOIS , 2003, p. 554).

A lém do jornal impresso, dois novos elementos juntam-se ao aparato: o rádio e a televisã o. No tocante ao uso político do humor no contexto brasileiro, E lias T homé S aliba

(2002) esclarece que, embora a utilizaçã o de representações cômicas para fazer referê ncia a personalidades políticas e à vida pública no B rasil nã o tenha começado com a adesã o do país

à R epública, novos contornos foram dados a essa prática com o início do regime. D urante o Primeiro e o S egundo reinados, chegaram a circular em torno de 60 periódicos ilustrados na cidade do R io de J aneiro, e na grande maioria delas já estava presente a charge associada a uma forma embrionária de histórias em quadrinhos. C om uma gradual popularizaçã o da fotografia entre os editores, algumas delas começaram a conter ainda as fotomontagens.

Mas a caricatura brasileira, conforme ressalta L ustosa (1989), até o final do século X IX era produzida eminentemente por estrangeiros. A Revista Illustrada (1876-1898) , fundada pelo italiano A ngelo A gostini, foi uma das mais representativas do humor no período pré-republicano, com suas crônicas dos fatos políticos semanais contatos por meio de arte sequencial. A firma S ylvia L eite:

No B rasil, a caricatura será fortemente impulsionada pela difusã o da imprensa ( jornais e revistas) , mesmo que restrita ainda a insignificantes parcelas das

populações urbanas. T ambém o tom da imprensa da época é estímulo ao delineamento caricaturesco: agressivo, frontal, pasquinesco, chegando à s vezes, no confronto das posições políticas, à s raias da brutalidade dos ataques pessoais ( L E IT E , 1996, p. 211-212) .

Parte dessa agressividade é transferida para a mídia que se segue à impressa em importância, o rádio. O modo de fazer humor nele muito importou da ironia dos semanários

ilustrados e do teatro de revista. E ssa característica era acentuada na gê nese da mídia radiofônica, quando os meios de gravaçã o eram ainda inexistentes e havia necessidade de transmitir tudo em tempo real. C ontudo, nem com o aparato tecnológico em ascensã o o costume foi abandonado, já que

...aquele humor de traços pesados, anárquicos, no limite do mau gosto [...] transformou-se, bem ou mal, numa espécie de idioma radiofônico com o advento das gravações sonoras, da radiofonia e, depois, com as primeiras produções brasileiras de cinema sonoro, que chamaríamos pejorativamente de chanchadas ( SA L IB A , 2002, p. 298) .

E m seu estudo sobre as relações entre riso e classe social em programas humorísticos de televisã o, L uiz C arlos T ravaglia (1989) exemplifica bem certa polarizaçã o, existente nessa mídia praticamente desde seu surgimento, entre um humor “inteligente” e um de caráter mais popular. S egundo o pesquisador, os primeiros seriam marcados por estrutura narrativa complexa, discurso ácido, crítica social, quebra de estereótipos, e uso do humor “de salã o” (mais leve e com lingauajar mais polido) J á os programas populares teriam como traços fortes estrutura narrativa mais simples e descritiva, discurso hegemônico, pouca ou nenhuma crítica social, recorrê ncia de estereótipos e uso de “humor médio” (em uma classificaçã o que segue ainda para a categoria sujo/pesado). A pesar de parecer antagônica, T ravaglia alerta que “cumpre lembrar que essa classificaçã o dos programas sofre a influê ncia

entre as redes de televisã o pela audiê ncia, sobretudo das classes A e B , principalmente se lembrarmos que isto tem implicações diretas na obtençã o de patrocinadores” (1989, p. 7).

D eixando a seara do audiovisual, mas ainda se debruçando sobre a política, nã o se pode deixar de mencionar a importância nacional do S alã o de Humor de Piracicaba, cuja primeira ediçã o ocorreu em agosto de 1974. O que começou com uma tentativa de mostra de cartuns em paralelo ao S alã o de A rte C ontemporânea daquele município culminou em uma das iniciativas mais bem-sucedidas de açã o político-cultural durante o período da ditadura militar. O premiado dessa primeira ediçã o foi nada menos que L aerte C outinho, jovem oriundo da E scola de C omunicações e A rtes da Universidade de S ã o Paulo (US P). E m

analogia ao conto “A R oupa Nova do Imperador”, de Hans C hristian A ndersen (1805-1875), o artista sintetizou muitas das vozes que eram caladas e censuradas sob tortura e outras práticas brutais do regime (QUE IR OZ , 2013).

F igur a 9. “O r ei estava vestido” (1974), de L aer te, obr a vencedor a do I S alã o de H umor de Pir acicaba

F onte: Google Imagens, 2015

A o se consolidar, além de revelar novos talentos (como L aerte, A ngeli, e Glauco) o evento polarizou a atuaçã o de nomes consagrados do humor jornalístico com passagem pelo periódico O Pasquim, dentre eles Z iraldo A lves Pinto, S érgio J aguaribe ( J aguar), R eginaldo J osé A zevedo F ortuna (F ortuna), Henrique de S ouza F ilho (Henfil) e Millôr F ernandes. “A ridicularizaçã o dos personagens da R epública foi uma das frentes de batalha adotadas pelos artistas que participaram do processo de desconstruçã o da ‘ imagem pública’ dos generais presidentes, seus ministros, assessores” ( QUE IR OZ , 2013, p. 131). E ssas críticas ultrapassaram os lápis e papéis e chegaram até “a televisã o, o jornalismo, o rádio, as revistas e

o teatro, cuja contribuiçã o à política de conscientizaçã o da sociedade foi decisiva no período” (Idem, 2013, p. 132).

D ando um salto no tempo até os dias atuais, segue-se percebendo que as relações entre humor e política nã o se tornaram menos tensas e, tampouco, mais fáceis. O exemplo mais recente a ganhar as manchetes do mundo todo foi o atentado contra a redaçã o do

semanário humorístico C harlie Hebdo, ocorrido em 7 de janeiro de 2015. A pós pelo menos oito anos de ameaças contínuas devido à s charges e caricaturas provocativas sobre lideranças políticas e religiosas, típicas do estilo que a publicaçã o adotara ainda nos anos 1970, 12 funcionários do veículo, entre jornalistas e cartunistas, foram assassinados por indivíduos ligados ao E stado Islâmico (F OL HA ONL INE , 2015). A inda assim, o jornal seguiu com suas atividades, lançando uma tiragem de mais de sete milhões de exemplares na ediçã o da semana subsequente, feita pelos sobreviventes do atentado ( L E MOND E , 2015).

Benzer Belgeler