Outra categoria a ser analisada é o contexto escolar; nesse momento, podemos relacionar a estrutura das escolas com o trabalho de cada docente participante da pesquisa.
Rubi leciona em uma escola híbrida, onde a janela da sala fica para o pátio da escola e os alunos que são da rede pública, quando estão na hora do intervalo ou
sem aula, em razão da ausência do professor, ficam na janela e atrapalham a atividade que está sendo desenvolvida.
[...] então, o pessoal do colégio, do ensino médio sai, ficam papeando na minha janela. Às vezes, eles olham pelo vidro e mexem com aluno meu. Hoje, aconteceu isso, eu peguei um livro de história e comecei a ler, fazer uma leitura coletiva. Todos juntos, pra todos juntos entender, trabalhar bastante interpretação, que eles têm dificuldades. Eu tinha que gritar pra que eles me ouvissem, gritar, saí daqui rouca (Rubi).
Provavelmente, se a escola não fosse híbrida, não passaria por esta situação, pois os alunos das séries iniciais e da educação infantil não ficam sem aulas. Quando acontece da professora faltar, os alunos ficam com professor eventual ou são remanejados para outras classes.
A professora não esconde sua indignação em relação às condições de trabalho, pois a escola não tem biblioteca, a sala de informática está desativada. Então, fica um tanto complicado ensinar sem recursos. Na sala de inglês, tem uma TV, um vídeo e jogos, mas a sala é desconfortável e tem aulas duas vezes por semana.
Com a filmagem de sua aula, podemos observar que o prédio está em má conservação e que os recursos utilizados durante a aula foram lousa, giz, livro didático e a criatividade da professora. Ela estava ensinando unidade de medidas e utilizou o passo dos alunos, altura dos alunos e o palmo dos alunos. Em seguida, ela fez uma comparação entre as medidas e explicou o motivo pelo qual havia diferenças entre eles.
Uma das dificuldades apontadas por Esmeralda, que leciona na mesma escola que Rubi, em relação à escola híbrida é o barulho que faz os alunos dispersarem-se.
[...] Sempre tem um na árvore para chamar a atenção das crianças. Esse barulho todo no corredor, as outras classes gritam, a escola é barulhentinha. Sexta-feira, eu não tenho mais voz. O barulho a gente aprende a conviver, não tem outro jeito, porque a gente pede. Até que tiraram o som, porque antes tinha um som que tocavam das 9h30 às 10h, então, esse horário era horrível. Eu não conseguia dar aula esse horário, que era o intervalo do estado. Então, cortaram, melhorou quase cem por cento, mas a quadra, eles já acostumaram com o barulho (Esmeralda).
Já a relacionados a outros aspectos, Esmeralda cita também os recursos precários que a escola oferece. A lousa, por exemplo, não pode ser utilizada integralmente em razão da claridade que bate, como não tem cortinas, os alunos não enxergam.
As atividades elaboradas são mimeografadas, mas a escola possui apenas um mimeógrafo e faz pouco tempo. Logo, ele é bastante concorrido. Se pensar em fotocopiar precisa ser do bolso do professor e impressão nem pensar. Esmeralda sente-se acuada. No dia em que foi filmada a aula da Esmeralda, pude notar o mimeógrafo na sala dela, como mostra a imagem.
Figura 7 – Mimeógrafo utilizado pelos professores da escola A para
reprodução das atividades
No dia da entrevista, observei que a sala de aula estava com as carteiras amontoadas. Em seus relatos, a professora comenta que havia chovido e a sala tem uma janela sem vidros e molhou. Para dar aula naquela sala nesse dia, ela teve de pedir para uma funcionária da limpeza enxugar.
O que mais me chamou a atenção, foi o mercadinho montado sobre as carteiras no fundo da sala. Esse mercadinho foi montado com embalagens vazias que os alunos e a professora trouxeram.
Ao contrário da escola de Rubi e Esmeralda, a escola de Diamante e Ametista tem uma cota para fotocopiar as atividades para os alunos e, caso ultrapasse o limite, há um computador e uma impressora na sala de aula à disposição dos professores.
A escola possui uma sala de informática que foi inaugurada no ano anterior, Diamante conta que antes da sala ficar pronta era complicado trabalhar com um computador e 26 crianças. Agora com a nova sala, os alunos têm uma aula por semana, e a professora trabalha com a metade da sala no primeiro momento e, no segundo momento, com a outra metade. Enquanto uma turma está na sala de informática, a outra fica na sala desenvolvendo outra atividade.
Guarnieri (1996) cita como dificuldade o trabalho com crianças diferenciadas por não saber quem atender primeiro, mas se analisarmos, o mesmo acontece com o professor que trabalha com a sala dividida em dois ambientes, acreditamos que ele acaba sem saber para qual turma dá atenção primeiro.
Diamante ainda destaca que procura elaborar uma atividade para deixar na sala de aula que tenha a mesma duração que a atividade desenvolvida na sala de informática.
Acrescentando os relatos de Diamante sobre o contexto escolar, Ametista aponta a Hora de Estudo (HE), como um horário produtivo, pois discutem os problemas internos da escola, passam os recados, há uma interação em relação aos problemas da escola, uma troca de experiência. Ela considera um horário agradável.
Já na entrevista de Safira, podemos destacar como estrutura escolar a preocupação que a escola tem para com os alunos com dificuldades de aprendizagem. Ela encaminha o aluno para a recuperação / reforço. Essas aulas são ministradas pelas estagiárias da escola no mesmo horário da aula, pelo simples motivo dos alunos dependerem do transporte escolar oferecido pela escola.
A infraestrutura da escola de Pérola é indiscutível, é uma escola privada e, por esse motivo, muitas vezes, o pai acaba atribuindo à escola responsabilidades que não lhe cabem. Outro ponto que podemos destacar em relação aos alunos do ciclo I do Ensino Fundamental, que não possuem plantão de dúvidas, como os alunos do ciclo II, quando acontece do aluno ter dúvidas, é encaminhado a uma professora particular.
A escola de Topázio não possui a mesma infraestrutura que a escola de Pérola, mas também é uma escola privada com todos os recursos disponíveis, ela aponta que o sistema de ensino adotado pela escola é difícil.
Podemos inferir que o contexto escolar para os professores das séries iniciais no início da carreira contribui para seu desempenho, independente da escola ser privada ou pública. Os dilemas e as dificuldades podem ser amenizados, dependendo desse contexto.