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Ao se falar sobre os usos e recursos da música, bem como dos seus efeitos sobre o ser humano, não há como deixar de associar esses aspectos à psicologia, visto que ela estuda o comportamento humano e suas relações com o meio físico e social em que o indivíduo se insere.

A psicologia da música pode ser definida como o ramo da psicologia que tem por objetivo o estudo científico da conduta musical. Constitui uma disciplina multidimensional, considerada como ciência que se ocupa da natureza e da resposta humana, cujas áreas de investigação estão voltadas para a criação, execução e experiência musical. Desde o trabalho pioneiro de Carl E. Seashore, publicado em 1938, cujo interesse principal relacionava-se à aptidão musical, seguiram-se vários anos de pouca ênfase à psicologia da música. O interesse pelo tema ressurge em meados dos anos 1970, impulsionado pelo próprio desenvolvimento da psicologia (TEJEIRO, 2000).

Em um rápido traçado histórico, Sekeff (2007) apresenta cronologicamente os caminhos que levaram à consolidação da psicologia como ciência. Tal fato se dá no fim do século XIX, ao se abandonar a ideia de que os relatos de natureza subjetiva seriam a única fonte de conhecimento. Estudiosos como o psicólogo e fisiologista alemão Wilhelm Wundt e o filósofo norte-americano William James são apontados pela referida autora como idealizadores desse novo caminho, ao fornecerem uma base lógica à concepção da psicologia como ciência.

Continua a autora, relatando tais caminhos, ao informar que o Instituto de Psicologia Experimental foi criado por Wundt, em 1875, em Zurique, inaugurando-se no ano seguinte o primeiro laboratório americano de Harvard, fundado por James. Inicia-se, então, o estudo das funções intelectuais sob novas concepções. Nessa mesma época, o conceito de equação

pessoal é introduzido, surgindo a psicologia individual.

Ainda segundo a mencionada autora, a psicologia experimental, em fins da década de 1960, passa a ser conhecida como psicologia cognitiva, a partir da transição da concepção comportamental para a cognitivista. Nova mudança de paradigma ocorre na década de 1970, quando o estudo da psicologia científica é direcionado aos processos relacionados ao percurso

mental da informação. Para tanto, o método experimental é utilizado, visto que a psicologia se fundamenta em observações comportamentais.

Considerando-se que a música é uma forma de comportamento, enfatizam-se as pesquisas psicológicas no contexto de seus usos e recursos (SEKEFF, 2007). A investigação músico-psicológica tem-se concentrado, durante os anos setenta e oitenta, no modo como as pessoas utilizam a música, além de serem estudadas as múltiplas funções desempenhadas por esta, a exemplo da permanência de seu uso em guerras, rituais, cerimônias religiosas, tratamentos médicos, e no trabalho (HERRERO, 1997).

Especial atenção é dada a esse último, no presente estudo, ao se propor considerar a música funcional como estímulo à QVT e ao rendimento no trabalho, a partir de suas funções ou efeitos benéficos sobre o ser humano.

Uma visão geral sobre os estudos em psicologia da música é abordada por Child (1969), que subdividiu a psicologia da arte em quatro dimensões, a saber: (1) o artista, referindo-se aos estudos sobre ele e seu processo de criação; (2) a obra de arte, que se diz respeito ao material que une o artista e sua obra ao expectador e sua experiência; (3) a experiência artística, que engloba os estudos relativos aos processos/experiências de apreciação da arte; e (4) os efeitos de experienciar uma obra de arte, que se referem às consequências que a apreciação de uma obra de arte pode trazer para as pessoas.

Em relação a este último aspecto, Konecni (1982) chama atenção para o fato de ter sido pouco explorado nos estudos sobre psicologia da arte. Critica, ainda, o vácuo cognitivo, social e emocional em que ocorre a maioria dos estudos realizados e das tentativas teóricas nesse campo de estudo, ressaltando a relevância dos eventos e dos estímulos que se convive/recebe no cotidiano. Ademais, o autor reconhece a presença cada vez maior da música na vida das pessoas, de forma ampla, sendo apreciada em diversos contextos sociais.

Corroborando com essa concepção, sobretudo quanto ao fato de os estudos sobre música não se dissociarem de aspectos relativos aos contextos sociais, Hargreaves (1986) menciona uma diversidade de questões relacionadas à psicologia da música, envolvendo tais aspectos, a exemplo do ambiente familiar, da escola, da cultura de massas, da interação social, entre outras. Ademais, Hargreaves e North (1997) constatam a reduzida ênfase aos aspectos que contemplem contextos sociais em que a música é elaborada/ouvida, em relação aos estudos da área de psicologia da música. Reconhecem a necessidade de se tratar essa área de forma interdisciplinar, argumentando que a perspectiva psicológica no estudo da música envolve a investigação dos processos perceptivos e cognitivos que as pessoas utilizam para

entender/criar música, o que implica em se considerar tanto aspectos estruturais da música como o contexto social imediato e amplo em que a mesma se insere.

Complementando essas concepções acerca dos estudos sobre a psicologia da música, Hargreaves, Marshall e North (2003) distinguem quatro níveis de influência social, a saber: (1) individual, que inclui estudos com foco nas dimensões idade, gênero e personalidade, cuja influência ocorre indiretamente; (2) interpessoal, a exemplo de estudos sobre comportamentos de colaboração entre colegas em atividades de composição e criatividade e a influência de pequenos grupos sobre as preferências musicais; (3) institucional, referindo-se a um nível mais geral, que considera a influência de grupos institucionais como família e escola no comportamento musical; e (4) cultural, que engloba influências dos aspectos nacionais e tradicionais da cultura, incluindo, ainda, comerciais e a mídia em geral.

Os referidos autores ressaltam, ainda, as funções sociais da música que se manifestam no dia a dia, sobretudo de três formas: no gerenciamento da identidade do eu (self-identity), nas relações interpessoais e no humor das pessoas. Tais funções/efeitos, além de outros já tratados no subtópico 2.1.3 (Efeitos da Música Sobre o Comportamento Humano), remetem ao aspecto funcional da música nos mais diversos contextos.

No intuito de esclarecer a definição do que vem a ser música funcional, sobretudo quanto à sua aplicação e ao seu conceito, faz-se necessário situá-la dentro de um quadro teórico de investigação científica, que fundamente os estudos sobre o tema. Desse modo, seguiu-se o caminho sequencial, envolvendo a pedagogia da música, a psicologia da música e, finalmente, a psicologia da música aplicada, onde se encontra inserida a música funcional.

Ao relacionar a pedagogia da música, que estuda as relações entre pessoas e música, às disciplinas das chamadas ciências sociais, Souza (2000) discorre sobre aspectos históricos, sociológicos, musicológicos, pedagógicos e psicológicos, no intuito de explicar tais relações.

Ressaltem-se os aspectos psicológicos, relacionados à psicologia da música, especialmente a aplicada, em que se insere a música funcional, que constitui a base desse estudo. Trata-se de música no ambiente de trabalho, com finalidades extramusicais, direcionada a influenciar o comportamento humano na atividade laboral, sendo utilizada, ainda, ao consumidor, em lojas dos mais diversos ramos de atividade.

Conforme destaca Souza (2000), a psicologia ocupa-se com contextos, condições e resultados dos processos e estados psíquicos. Os contextos ligados a regras de comportamento e às vivências humanas são abordados na visão psicológica geral, envolvendo as maneiras de funcionamento do pensar, do falar, do sentir, do agir e da percepção.

Ainda segundo a referida autora, o comportamento e as vivências musicais são investigados pela psicologia da música, que se ocupa em analisar diferenças e semelhanças observáveis de comportamento e da vivência musical, desenvolvimento musical e a influência do meio social no comportamento musical. A autora apresenta uma figura esquemática, atribuída a Hans Günther Bastian, que mostra as contribuições da psicologia da música para a pedagogia da música. Este esquema pode ser visualizado na Figura 3, a seguir.

Figura 3 - Subárea da pesquisa psicológico-musical hoje

Psicologia geral da música Psicologia diferenciada da música

- pesquisa sobre a recepção

- talento musical e sua medição estética sociológica - desenvolvimento de testes - características da personalidade e do comportamento musical - pesquisa sobre aprendizagem

- pesquisa sobre motivação

Psicologia da música psicológico-social Psicologia do desenvolvimento

- socialização musical - gênese de determinados comportamentos - pesquisa sobre concepção musical - musicais e níveis de vivência em relação ao:

- pesquisa sobre comunicação - amadurecimento - crescimento - meio sociocultural

Psicologia da música aplicada

- música “funcional” (música no ambiente de trabalho, em lojas) - música na propaganda

- música de filmes - musicoterapia

Fonte: Souza (2000, p. 56).

Observando-se a Figura 3, percebe-se que dentro do campo de conhecimento da psicologia da música encontra-se a psicologia da música aplicada, a qual investiga, entre outros temas, musicoterapia, música de filmes, música na propaganda e música no ambiente de trabalho. Este último faz parte do objeto desse estudo, que buscou investigar, a partir da inserção de música no local onde os trabalhadores desempenham as suas atividades laborais, a contribuição daquela para a obtenção da QVT dos colaboradores da empresa.

No Quadro 5, a seguir, são apresentados aspectos relacionados às disciplinas de outras ciências, de acordo com os elementos constituintes da pedagogia da música, suscitando

orientações temáticas interdisciplinares, indicando que a psicologia da música está imbricada com outras disciplinas.

Quadro 5 – Particularidades das disciplinas e complexos temáticos interdisciplinares

Elementos Constituintes Aspectos relacionados às disciplinas Orientação temática

Ser humano Perspectivas humanas

Apropriação Filosófico-antropológico Percepção estética

Transmissão Ética, cultura

Música Teoria científica

História das ideias

Efeitos educacionais Histórico Pesquisa sobre o espírito

da música da época [Zeitgeist]

Pesquisa biográfica História social Instituições Psicológicos gerais Psicológicos diferenciais Manifestação da Psicológicos

Personalidade Psicológico Desenvolvimentistas

Sociopsicológicos

Psicoanalíticos

Psicologia da música

Participação Aplicada

na cultura Socialização musical

Sociológico Socialização através da música

Música no contexto social

Meios de comunicação Experiência Histórico-musical Sensorial Estético-musical Musicologia Sociológico-musical Psicológico-musical Etnomusicológico Educação e formação

Pedagogia Ensinar e aprender

Ensino e preparação

Ciências políticas,

Medicina, Direito...

Fonte: Souza (2000, p. 62).

Conforme pode ser observado no Quadro 5, dentro dos elementos constituintes, estão os problemas relacionados à apropriação e à transmissão da música, que constituem o centro das reflexões musicais. Percebem-se, ainda, orientações temáticas interdisciplinares nas perspectivas das respectivas disciplinas humanas, sociais e culturais, denotando que as fronteiras entre as ciências vizinhas são flexíveis, podendo sobrepor-se umas às outras ou mesmo serem abolidas.

Contudo, torna-se evidente que dentro do campo psicológico encontra-se a orientação

temática “psicologia da música aplicada”, cuja perspectiva, mais especificamente relacionada

à música funcional, constitui uma das orientações teóricas do presente estudo.

Benzer Belgeler