Durante as entrevistas foi muito frequente a referência de haver pelo menos um membro da família exercendo atividade bancária e dois respondentes relataram ainda terem sido ex-bancários do Banrisul e de outras instituições. Esta citação era feita geralmente em momentos que os entrevistados expressavam que possuíam uma relação estreita com o Banrisul ou outro banco estatal como o Banco do Brasil. Os entrevistados E3 e E5 referiram “Ah eu tenho um filho no Banrisul” e “Meu irmão foi gerente do Banco do Brasil durante anos”. Já os entrevistados E3 e E6 relataram “Eu já trabalhei no Banrisul” e “Eu já fui funcionário do Sul Brasileiro3”.
Estas referências, além de chamarem a atenção do pesquisador pela relevância durante as entrevistas, também podem significar que este parentesco imprime uma relação mais intensa, quase familiar, com a organização bancária. Nesta referência também podem estar presentes as questões ligadas ao status social de ser bancário ou de ter um parente trabalhando no setor financeiro que será analisada mais adiante.
A questão de pertencer a um grupo determinado, que por definição é diferente de outro, e as relações de parentesco são elementos ligados ao conceito de família cuja citação foi frequente durante as entrevistas. Por isso é importante buscar compreender o conteúdo dos
3 O Banco Sulbrasileiro foi uma instituição financeira regional originada em 1973 da fusão dos três maiores
bancos gaúchos da época: o Banco da Província do Rio Grande do Sul, o Banco Nacional do Comércio e o Banco Industrial e Comercial do Sul. Em 1985 o Sulbrasileiro sofreu intervenção extrajudicial por falta de liquidez e foi incorporado pelo então Banco Meridional.
discursos dos entrevistados quando se referiram aos seus laços de parentesco para construir as representações a cerca do atendimento do Banrisul.
O conceito de família tem sido estudado por diversas ciências e a Antropologia é um dos principais ramos do conhecimento que contribui para estas pesquisas. Segundo Lévi- Strauss (1982) a família tem uma relação direta com a existência da sociedade. O autor diz que o que realmente diferencia o homem dos animais irracionais é o fato de que, na humanidade, uma família não poderia existir se não houvesse sociedade e que os laços entre as pessoas são maiores que as relações consanguíneas. Para além dos laços do núcleo central da família, existem outros grupos de afinidades que podem ser procurados para a criação de outros grupos distintos dos originais. Sendo assim, “a sociedade pertence ao reino da cultura, enquanto a família é uma emanação, no nível social, daqueles requisitos naturais sem os quais não poderia haver sociedade nem, certamente humanidade” (LÉVI-STRAUSS, 1982, p. 379).
Para a antropologia clássica, podem ser enumerados alguns parâmetros que auxiliam no conceito de família. O primeiro deles é que a família tem origem no casamento; o segundo é que a sua constituição engloba pai, mãe, filhos e outros parentes próximos ao núcleo e finalmente que seus membros estejam unidos por laços legais, econômicos, regimentais, existindo entre estes laços uma quantidade variada de sentimentos psicológicos como amor, afeto, respeito e reverência. Como elemento de contraponto a esta quase regra das sociedades humanas, o celibato é visto em geral com rejeição. A existência de religiosos católicos ou de filhos que demoram a casar (ou que não se casam nunca) sempre gera no imaginário social uma visão negativa do sujeito celibatário, até por que o ato reprodutivo é a garantia da perpetuação da espécie (LÉVI-STRAUSS, 1982, p. 361).
Ainda segundo Lévi-Strauss (1982), a durabilidade da relação e a existência de vínculos levam este conceito de família ocidental a também abordar a prática, de forma geral, universal da monogamia que por diversas razões, sejam elas econômicas ou naturais, é a maneira mais corriqueira da constituição da família nas sociedades. É importante destacar que sociedades poligâmicas também ocorrem, no entanto, com frequência bem reduzida e que possuir muitas esposas ou muitos esposos não é um fenômeno geral destas sociedades e sim de castas restritas, principalmente economicamente.
Por outra perspectiva, Velho (1987) diz que o conceito de família varia de sociedade para sociedade, dependendo de um complexo conjunto de símbolos associados ao tema que se modificam ao longo do tempo e das estruturas constituídas, ou seja, as categorias associadas ao domínio da família imbricam-se e são indissociáveis das esferas da cultura. Segundo o autor, enquanto as sociedades tradicionais buscavam que os membros mais jovens da família
auxiliassem na manutenção do nível social, a família contemporânea busca um projeto pessoal para cada integrante do grupo, em uma busca hedonista por um nível mais avançado de possibilidades de ascensão social e de pertencimento a outros grupos considerados em um patamar mais elevado. Segundo o autor, o projeto individualizante de cada membro da família não nasceu da noite para o dia. Esta mudança do nível coletivo para o projeto pessoal da vida familiar se deu mediante a radicalização da sociedade de consumo, principalmente depois do final da II Guerra Mundial.
Mas para explicar esta família contemporânea Ariés (1981) retoma os costumes do Século XVIII e aborda a questão pelo ponto de vista da sociabilidade. Segundo o autor, enquanto nos Séculos XVI e XVII a centralidade da vida social estava no coletivo, nas multidões, não a multidão maciça das grandes cidades, mas a assembléia, o teatro ou a Igreja. No Século que se segue as mudanças sociais, advindas da concentração metropolitana, e todas as suas consequências, tornaram a família fechada como se fosse uma defesa contra uma sociedade cujo convívio constante destruía as relações entre senhores e escravos, grandes e pequenos, amigos e clientes. Em toda parte este movimento reforçaria a intimidade da vida privada em detrimento da vizinhança, de amizades e tradições. A casa vira um lugar reservado e com acesso restrito. Ela é agora um lugar de identidade onde os membros da família se unem pelo sentimento, o costume e o gênero de vida.
Este sentimento de identidade e principalmente de que somos “melhores” que os outros é que de certa forma explica o discurso dos entrevistados quando se referem a ter alguém na família que trabalhe ou já tenha trabalhado no Banrisul ou em outro banco.
Para auxiliar na discussão sobre a representação social de ter uma familiar no Banrisul, DaMatta (2001) diz que, de fato, quando o indivíduo é membro de uma família este pertence a um núcleo de pessoas que possuem a mesma substância, a mesma carne e sangue. Este grupo, ao mesmo tempo, preocupa-se em resguardar e preservar conjuntos de objetos, relações e valores idiossincráticos a qual chama de “tradição de família” que se traduzem principalmente em preceitos morais, que são únicos e geralmente sentidos como “melhores” que os das outras famílias próximas. Sendo assim, quando há a referência de casa, não é do local propriamente dito que se fala, e sim de um espaço profundamente totalizado numa forte moral e um bem definido senso social. “Assim, cada grupo é singular entre suas teias de relacionamentos. Tudo que está na casa é mais belo e decente, até mesmo as plantas são mais viçosas que as do vizinho” (DAMATTA, 2001, p 27).