«TEXTO AUTOMÁTICO DA TARDE DO DIA 14 DE OUTUBRO DE 1946, EM LISBOA»101
Quando do novo oriente suspeitado se ergueram sinuosas as pregas do vestuário com o tufão das montanhas nasceram das lápides antigas músicas de máquina rotativa com cabelos dum rosa desnorteante. A donzela estava só e na mansão das nuvens baixas correram velozes por arquitraves e aquedutos gorgolejos ruinosos de bússola partida. Quási não havia pétalas na sombra do gineceu. Das folhas tombadas gotejava como que um murmúrio noctívago e havia em todo o ambiente um ruflar transitório de obnubilados. Sabia muito a todas as angústias. Nas primeiras horas da manhã fundeara no silêncio álgido um clangor de clavilâminas. O vermelho das espadas encheu de tremolinas o ar imperturbável como as ameaças. Gemeu lubricamente o canto das anémonas. Nem flores. Do ruído das algas ergueu- se um vapor de fluoroscópio estabelecendo-se no coração dos homens as neves perpétuas duma imaculada Conceição.
Não venhas amanhã que o ruído dos meus passos amaciou-se no branco isófono das noites. O que ficou de cada um de nós esbateu-se sensível como uma reprovação silenciosa e não há motivos que valham um suspiro na perturbação das alamedas. Ergue os teus braços até à minha fome como um suplício e reconhece-te assim, virgem, na imagem das árvores. Nem há furor nem lástima no negrume dos céus irremediáveis. Deus perdeu-se na penumbrosa quietação dos leitos aureolados e ao desfazerem-se em névoa as folhas dos redodendros sorvamos a alegria inefável desta renúncia.
O amanhã será. Valham ao segredo das nossas dúvidas os cárceres do dia. A morte não chega nunca.
101 E5-412; ms.; s.ass.; 14 de Outubro de 1946; 1.ª publicação: Marinho, 1987.
A escrita automática revela, de facto, que a linguagem, não submetida aos referentes colectivos e liberta, portanto, do jugo da lógica e da função comunicativa, pode ser utilizada de maneira absolutamente distinta, conquistando uma autonomia que redunda numa fonte de poder contra a ordem existente, contra o quotidiano. A subversão que se quer operar no plano ético, a revolução que se quer proclamar nas esferas individual e social, começa no próprio texto, pelo desregramento de todas as regras. À parte de todo o absurdo do texto, no qual se dissimula inconscientemente o Eu do autor, a própria sintaxe é violentada pela ausência de pontuação. Note-se que Pedro coloca apenas duas vírgulas em todo o texto para isolar a palavra «virgem», deixando fluir todo o texto a um ritmo tal que a consciência não terá capacidade para apreender as imagens racionalmente, efeito explosivo que está em consonância com o próprio processo de criação. Como tal, não procedemos a qualquer alteração na pontuação.
Contrariamente ao segundo texto automático que consta desta edição, este manuscrito não oferece quaisquer problemas de decifração.
«TEXTO AUTOMÁTICO DO DIA 6 DE DEZEMBRO DE 1946, ÀS 13,30»102
Anda-me um sumo de matraca no horizonte entupido de crisântemos. As anémonas elevaram-se de gradação em gradação até ao substractum do caso e na nêspera das hemorróidas calcinou-se de branco o suspiro das velhas e dos imbecis. Basta-nos esta afronta de semear cactos e lavar no gorgolejar sensacional das amnistias para que ténue ou gorgolejante se apague principalmente o alvorecer das jóias. Ah se eu pudesse sumir a gula dos vasos na tépida água das nascentes sulfurosas e a cada borbulha do Outono que chamejasse o linguado das paixões anestésicas. Bem vai o destino dos humildes com madréporas e andrágoras no coche frio das nomenclaturas. Basta a cada um o seu sustento de pássaros! Recamei de porcelanas antigas o meu palácio de eunucos e na fronte de cada vestal desenhou-se o sexo das ambições recalcadas e espúrias. Assim se consumiu toda uma noite de angústia e à flor da pele se cousificaram exaltações. O amor abriu os braços e o sexo aconchegou-se no cruzar dos pés perfurados pelo cravo de ferro. Baixaram pudores do céu como folhas de pássaros caídas pelo Outono. Nada se adivinhava da pêra de satanás e andavam, os pés descalços e a fronte altiva, como nos romances, as canganheiras de estrume pelo átrio dos epitalâmios.
Ninguém se esforça do que não teme. Nos grandes plainos da Etrúria cisalpina o nevão sumiu-se pelos buracos da terra e quem ficou aos arruaços do vento ficou desamparado e só.
102 E5-416; ms.; s.ass.; 6 de Dezembro de 1946; 1.ª publicação: Marinho, 1987.
O manuscrito oferece grandes dificuldades à lição do texto. O carácter imprevisível do mesmo, construído a partir de associações perfeitamente ilógicas e inesperadas, dificulta ainda mais o trabalho de conjectura que, neste caso, para além de se bater contra uma caligrafia apertada e informe, tacteia um trilho inglório no habitual exercício de experimentação de vocábulos/sentidos passíveis de serem admitidos num determinado contexto, simplesmente porque o contexto se esfuma em movimentos de distorção lógico-semântica.
Muitas palavras suscitaram dúvidas, pelo que o texto deveria estar povoado de pontos de interrogação. No entanto, isso iria interromper o fluxo de apreensão do leitor que se deteria nas nossas problematizações em vez de se deixar envolver pelo ritmo alucinante de projecção de imagens insólitas. Uma vez que se trata de um texto automático, portanto, desvinculado dos trâmites do pensamento racional, optámos por oferecer a nossa lição enquanto uma lição possível, entre muitas outras, evitando perturbar a predisposição de relaxamento que se requer ao leitor no encontro com o texto, necessariamente tão fortuito como aquele que subjaz à criação.