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classes dominadas. O reposicionamento do conceito de sociedade civil, bem como de Estado, associada ao estímulo tutelado a uma forma específica de organização social, cumpre o papel de adquirir esse consenso. A isso se somam os esforços de disseminação do empreendedorismo, do ideário da sociedade de “patrões” (ver SOTO, 2001), complementado pelo crescimento vertiginoso do individualismo e da competição.

Para entender como isso ocorre, não podemos nos ater à versão liberal, que transcreve a realidade de maneira fragmentada e, por consequência, simplista. As dimensões política, econômica e ideológica funcionam em unidade, de forma complexa. É necessário analisá-las dialeticamente.

2.4.1 Estado / sociedade civil como unidade dialética: de Marx a Gramsci

Os estudos de Marx sobre o par sociedade civil/Estado, fundamental para o desenvolvimento de suas análises em economia política, partiram da crítica à concepção de Hegel. Marx contesta a formulação hegeliana de que “o fim do Estado [é] o interesse universal” (MARX, 2010, p. 36), argumentando que o Estado assume a feição de defensor do interesse universal apenas formalmente. Sua aparência é essa; sua essência é a defesa dos interesses de classe (burguesia) como se esses interesses fossem universais. Nas suas palavras,

o interesse estatal, enquanto interesse real do povo, existe apenas formalmente, e existe como uma forma determinada ao lado do Estado real. [...] O elemento estamental é a mentira sancionada, legal, dos Estados constitucionais: que o Estado é o interesse do povo ou o povo é o interesse do

Estado. Essa mentira será revelada no conteúdo [grifos do autor] (Ibid., p. 83).

Em A ideologia alemã, Marx e Engels explicam que o Estado precisa assumir uma feição de defensor do interesse universal, à medida que

6 O conceito de hegemonia empregado nesta tese parte de Gramsci, para quem, diferentemente da ideia prevalecente no senso comum (monopólio, com uso intensivo de poder e força), significa a capacidade de um grupo de dirigir eticamente e estabelecer um campo de liderança. Para ser hegemônico, não é necessário que o grupo seja numericamente superior.

7 Consenso também é utilizado na acepção gramsciana, que pode ser traduzido como a articulação pluralista de ideias e valores, a unidade na diversidade. Não quer dizer ausência de dissenso ou de divergência, mas a capacidade de construir essas ideias e valores em meio à diversidade.

cada nova classe no poder é obrigada, quanto mais não seja para atingir os seus fins, a representar o seu interesse como sendo o interesse comum a todos os membros da sociedade ou, exprimindo a coisa no plano das ideias, a dar aos seus pensamentos a forma da universalidade, a representá-los como sendo os únicos razoáveis, os únicos verdadeiramente válidos (MARX e ENGELS, s/d, p. 30).

Esse “interesse universal ilusório” manifesta-se “sob a forma de Estado” (MARX e ENGELS, s/d, p. 18), cuja origem é a defesa de uma classe contra suas antagônicas. É o que explica Engels, em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, quando afirma que o Estado

é antes um produto da sociedade, quando esta chega a um determinado grau de desenvolvimento, é a confissão de que essa sociedade se enredou numa irremediável contradição com ela própria e está dividida por antagonismos irreconciliáveis que não consegue conjurar. Mas para que estes antagonismos, essas classes com interesses econômicos colidentes não se devorem e não consumam a sociedade numa luta estéril, faz-se necessário um poder colocado aparentemente por cima da sociedade, chamado a amortecer o choque e mantê-lo dentro dos limites da ‘ordem’. (ENGELS, 1978, p. 191).

O autor destaca que há períodos, entretanto, em que “as lutas de classes se equilibram de tal modo que o Poder do Estado, como mediador aparente, adquire certa independência momentânea em face das classes” (Ibid., p. 194). Isso, contudo, não altera sua essência. É assim que os autores alemães vão dizer que "todas as lutas no interior do Estado, a luta entre democracia, aristocracia e monarquia, a luta pelo direito ao voto, etc., etc., são apenas as formas ilusórias nas quais se desenrolam as lutas reais entre as diferentes classes" (MARX e ENGELS, 1982f, p. 48).

Uma vez que se entenda que o Estado, para Marx, não é a totalidade existente e consciente da sociedade humana, isto é, o universal-concreto, mas “um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa” (MARX e ENGELS, op. Cit., 1982e, p. 23), é possível compreender o que é a sociedade civil. Ao contrário de ser oposta ao Estado, a sociedade civil, ainda que distinta, compõe a totalidade do modo de produção, razão porque, para Marx, como já citado anteriormente, é ela “o verdadeiro lar e teatro de toda a história”, onde se trava a luta de classe fundamental, dado que é nela que se desenvolvem a produção e as relações sociais de produção, as relações econômicas. Como diz o pensador alemão no Prefácio à “Contribuição à crítica da economia política”,

tanto as relações jurídicas como as formas de Estado não podem ser compreendidas por si mesmas nem pela chamada evolução geral do espírito humano, mas se baseiam, pelo contrário, nas condições materiais de vida cujo conjunto Hegel resume, seguindo o precedente dos ingleses e franceses do século XVIII, sob o nome de “sociedade civil”, e que a anatomia da sociedade civil precisa ser procurada na economia política (MARX, 1982c, p. 301).

Aqui Marx localiza a sociedade civil na estrutura e o Estado, como dimensão jurídico- política, na superestrutura. Não significa, no entanto, que o autor estabeleça uma separação entre as duas esferas. São constitutivas de uma totalidade, e como tal, as partes são interdependentes. O Estado não pode ser compreendido sem que se conheçam as relações estabelecidas na sociedade civil, que congrega as classes antagônicas e, por consequência, suas lutas. Essa ideia também é encontrada em A Ideologia Alemã, onde, de forma mais clara, Marx e Engels (s/d, p. 24) afirmam que a história tem como base

o desenvolvimento do processo real da produção, contritamente a produção material da vida imediata; concebe a forma das relações humanas ligada a este modo de produção e por ele engendrada, isto é, a sociedade civil nos seus diferentes estádios, como sendo o fundamento de toda a história. Isto equivale a representá-la na sua ação enquanto Estado, a explicar através dela o conjunto das diversas produções teóricas e das formas da consciência, religião, moral, filosofia, etc., e a acompanhar o seu desenvolvimento a partir destas produções; o que permite naturalmente representar a coisa na sua totalidade.

Embora as críticas ao idealismo hegeliano, isto é, ao entendimento de que o Estado seria o sujeito da história e a sociedade civil o predicado, possam levar à interpretação de que o que faz Marx é inverter essa ordem – sociedade civil como o sujeito da história e o Estado como predicado – relegando, como alguns estudiosos interpretaram da citação anterior, de maneira metafísica, ou seja, não dialética, a sociedade civil à estrutura e o Estado à superestrutura, nessa passagem, fica evidente como Marx identifica uma relação muito mais complexa, dialética, desses dois elementos. Como defende Liguori (2006, p. 7), Marx “não se limita a inverter a relação Estado-sociedade hegeliana, mas se opõe a essa tese; critica a dicotomia ante a esfera pública e a privada, refuta o confinamento do político no Estado e do socioeconômico na sociedade, mostra como o poder (e a política) é a própria mediação de ambos os momentos”.

A compreensão de Marx e Engels sobre o papel do Estado, como argumentamos em estudo passado (GURGEL e JUSTEN, 2011), está conectado com o estágio de desenvolvimento do capitalismo de sua época. A burguesia, que “desempenhou na história um papel

eminentemente revolucionário” (MARX, 1982, p. 28), até a sua constituição enquanto classe dominante, agiu apesar do Estado. Por isso, para esses pensadores,

o Estado no capitalismo não seria mais que uma consequência do desenvolvimento econômico. Antecipando o que diriam mais adiante, em O

Capital, o verdadeiro teatro da história é a sociedade civil e nela,

essencialmente, a sociedade econômica, onde a nova classe dominante, a burguesia, operava as transformações que levavam ao lucro e à acumulação contínua. Não foi o Estado, tanto quanto não foram/nem são os heróis, que explicam a origem e a expansão histórica do capitalismo, mas a própria ação transformadora da burguesia (GURGEL e JUSTEN, 2011, p. 164).

Naquele estágio de desenvolvimento, o Estado assumia um papel gendarme, repressor; um dos papéis históricos do “comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa” (op. cit.).

Antonio Gramsci, vivendo um momento distinto de desenvolvimento do capitalismo, com a ampliação da intervenção do Estado nas esferas da produção e social, vê a política se ampliar e ocupar muitos espaços. Eram várias as mudanças verificadas no início do XX: “alterações no padrão produtivo, expansão da classe operária, crescimento do associativismo, da diversificação e da organização dos interesses, socialização da política, maior peso do Estado vis-à-vis o mercado, aumento da regulação e das políticas de proteção e bem-estar etc” (NOGUEIRA, 2003, p. 190). O pensador italiano, consegue, dentro do marxismo, apreender esses novos desenhos e compreendê-los, fazendo a teoria marxista sobre o Estado se ampliar e ganhar novos contornos. Por consequência, o conceito de sociedade civil torna-se mais complexo, assim como o Estado, passando ambos, integrados, a serem referenciais para o entendimento da realidade. Como lembra Nogueira (2003, p. 186), entre os vários interlocutores que usam o termo sociedade civil, “a referência nem sempre é Gramsci, mas Gramsci está presente sempre, é sempre lembrado e muitas vezes é apresentado como parâmetro principal”.

O marxista italiano afirma que o “conceito de Estado, que, habitualmente, é entendido como sociedade política (ou ditadura, ou aparelho coercitivo, para moldar a massa popular segundo o tipo de produção e a economia de um dado momento)” (GRAMSCI, 2011, p. 267), deve ser compreendido como “um equilíbrio da sociedade política com a sociedade civil (ou hegemonia de um grupo social sobre toda a sociedade nacional, exercida através das organizações ditas privadas, como a igreja, os sindicatos, as escolas, etc.)” (Ibid.).

Para ele, sociedade civil é “hegemonia política e cultural de um grupo social sobre toda a sociedade, como conteúdo ético do Estado” (GRAMSCI, 2000, p. 225). De início,

concordando com Marx e Engels, Gramsci identifica a sociedade civil como arena de luta de classes, onde um grupo social, a classe dominante, exerce hegemonia (uma forma complexa de dominação) política e cultural sobre toda a sociedade. No entanto, a hegemonia necessita da existência do Estado. Por isso, seu conteúdo ético está lá. Quando Gramsci esclarece o que entende por Estado ético, ele revela de maneira mais detalhada sua compreensão do próprio Estado. Nas suas palavras, “todo Estado é ético na medida em que uma de suas funções mais importantes é elevar a grande massa da população a um determinado nível cultural ou moral, nível (ou tipo) que corresponde às necessidades de desenvolvimento das forças produtivas e, portanto, aos interesses das classes dominantes” (Ibid., p. 284).

Diferentemente do Estado do século XIX, ao Estado visto por Gramsci já não cabia mais unicamente a função gendarme, repressora. A repressão, ferramenta indispensável do Estado, revelara não ser suficiente para manter certo equilíbrio, ainda que instável, entre as classes, isto é, controlar as classes subalternas. A história mostrava que a repressão tinha limites. Era necessário combiná-la com um mecanismo de aquisição do consenso das massas. O Estado do século XX, como destaca Nogueira (2003, p. 190), “estava sendo reconfigurado: era invadido pela socialização da política que se verificava e levado a ir além do aparato repressivo e coercitivo”. Por isso, Estado possui duas dimensões absolutamente necessárias que podem ser ditas das seguintes maneiras: “força e consenso, coerção e persuasão, Estado e Igreja, sociedade política e sociedade civil, política e moral, direito e liberdade, ordem e disciplina ou [...] violência e fraude” (GRAMSCI, 2000, p. 243). A hegemonia é a expressão do Estado no seu sentido ampliado (sociedade civil + sociedade política). Como diz Gramsci (1981, p. 124), “el ejercicio ‘normal’ de la hegemonía [...] está caracterizado por una combinación de la fuerza y del consenso que se equilibran.”

Introduzindo o que Althusser (1985), mais tarde, chamaria de aparelhos ideológicos de Estado, Gramsci (2000, p. 284), tratando de como o Estado opera suas duas frentes, identifica que

a escola como função educativa positiva e os tribunais como função educativa repressiva e negativa são atividades estatais mais importantes neste sentido: mas, na realidade, para este fim tende a uma multiplicidade de outras iniciativas e atividades chamadas privadas, que formam o aparelho de hegemonia política e cultural das classes dominantes.

Vale destacar que a hegemonia não surge a partir do Estado. Como diz o próprio Gramsci, “a hegemonia vem da fábrica”, com as transformações fordistas e “uma quantidade

mínima de intermediários profissionais da política e da ideologia” (GRAMSCI, 1968, p. 381/2). Mas é o Estado que vai aparecer como educador, dando assim a direção moral e intelectual à sociedade. Por isso, Gramsci afirma que “a direção do desenvolvimento histórico pertence às forças privadas, à sociedade civil, que é também ‘Estado’, aliás o próprio Estado” (GRAMSCI, 1968, p. 148).

Em outra passagem, Gramsci explica que “o Estado tem e pede consenso, mas também “educa” este consenso através das associações políticas e sindicais, que, porém, são organismos privados, deixados à iniciativa privada da classe dirigente” (GRAMSCI, 2000, 119). O sufrágio cumpre a função de adquirir consenso, mas só o faz de maneira pontual. É necessário que o consenso seja construído de maneira sistemática, “educando” o conjunto da sociedade. O Estado tem essa responsabilidade de produzir um “consenso organizado” (Ibid.), diferente do consenso “genérico e vago tal como se afirma no momento das eleições” (Ibid.).

Daí decorre sua definição mais conhecida: Estado = sociedade civil + sociedade política, isto é hegemonia revestida de coerção” (Ibid., p. 244). Mais objetivamente, adiante, o autor italiano refere-se a “Estado (no significado integral: ditadura + hegemonia). A sociedade política é o Estado em sentido estrito ou o Estado-coerção, “formada pelo conjunto dos mecanismos através dos quais a classe dominante detém o monopólio legal da violência e da execução das leis, mecanismos que se identificam com os aparelhos de coerção sob controle das burocracias executiva e policial-militar, ou seja, com o governo (COUTINHO, 2006, p. 35). A sociedade civil, como vimos, é formada pelo “conjunto das organizações responsáveis pela elaboração e/ou difusão das ideologias” (Ibid.). Ela é a conformação de múltiplos organismos “privados”, mas nem por isso menos estatais; eles (re)produzem relações de força e são agentes de consenso e hegemonia. Por esse motivo, Nogueira (2003, p. 190) afirma que “a ideia gramsciana de sociedade civil espelharia a nova situação: abrigava a plena expansão das individualidades e diferenciações, mas acomodava também, acima de tudo, os fatores capazes de promover agregações e unificações superiores”.

Como se vê, as funções estatais, que transcendem a sociedade política, são também desempenhadas pela sociedade civil. Esta última, por conseguinte, assume, na teoria gramsciana, um caráter complexo, pois ao ser incluída como componente constitutivo do Estado, torna-se parte da superestrutura. No entanto, como não poderia deixar de ser, não abandona sua materialidade na estrutura. Seguindo a afirmação de Marx e Engels, em A Ideologia Alemã, de que não é a ideia que constrói a realidade, mas a realidade que define a ideia, a sociedade civil gramsciana é, em última instância, a arena da luta de classes, onde estão presentes intensas contradições, constituídas pelas relações sociais de produção, portanto pela

estrutura. A sociedade civil, como o espaço que expressa os antagonismos indissolúveis entre as classes, é também onde as lutas ocorrem. As classes dominantes passaram a se valer de mecanismos, nessa mesma arena, para controlar as classes subalternas, para fazê-las consentirem ativa (sob adesão ideológica) ou passivamente (aceitação) a ordem capitalista. É por isso que Coutinho (2006, p. 41) afirma que, para Gramsci, “a sociedade civil é não só um momento do Estado, mas o que nela tem lugar não pode ser entendido fora das relações sociais que se expressam no mercado”.

Althusser (1985, p. 67, nota 7), reconhecendo que o autor italiano foi quem “teve a ideia ‘singular’ de que o Estado não se reduzia ao aparelho (repressivo) de Estado, mas compreendia, como dizia, um certo número de instituições da ‘sociedade civil’”, identifica que essas “instituições da sociedade civil” são Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE), que compreendem “instituições distintas e especializadas (Ibid., p. 69), tais como igreja, família, sindicatos, escola, cultura, sistema político, meios de comunicação, dentre outros. A função primordial de qualquer AIE, para Althusser, é reproduzir as “relações de exploração capitalista” (Ibid., p. 78). Nesse sentido, para este pensador, não faz sentido estabelecer uma separação entre público e privado. Na relação Estado – sociedade civil, essa separação é tênue.

É importante destacar que Gramsci efetivamente ampliou a teoria marxista do Estado. No entanto, não há qualquer oposição deste autor em relação aos fundamentos do marxismo e do materialismo histórico. Gramsci não inverte a posição do Estado na órbita da história, ou seja, não dá à esfera do Estado o protagonismo e a autonomia que alguns autores supostamente enxergam em sua obra8.

Em primeiro lugar, como observa Coutinho (2006, p. 31), “para Gramsci, a produção e reprodução da vida material continuam a ser o fator ontologicamente primário na explicação da história”. Prova disso é uma afirmação de Gramsci, em Cadernos do Cárcere, de que “a estrutura e as superestruturas formam um ‘bloco histórico’, isto é, o conjunto complexo e contraditório das superestruturas são o reflexo do conjunto das relações sociais de produção” (GRAMSCI, 2001, p. 250).

Em segundo lugar, Gramsci, em nenhum momento, nega – nem sequer minimiza – a grande descoberta de Marx, qual seja, “o caráter de classe de todo fenômeno estatal” (COUTINHO, 2006, p. 32), que é definido muito bem por Engels:

8 Mencionamos a polêmica obra de Norberto Bobbio (1999), intitulada “Ensaios sobre Gramsci e o conceito de sociedade civil” publicada em 1967, que serviu de suporte para leituras distorcidas posteriores.

como o Estado nasceu da necessidade de conter o antagonismo das classes, e como, ao mesmo tempo, nasceu em meio ao conflito delas, é, por regra geral, o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente dominante, classe que, por intermédio dele, se converte também em classe politicamente dominante, e adquire novos meios para a repressão e exploração da classe oprimida (ENGELS, 1978, p. 193).

Isso define a razão própria de ser do Estado, o qual só existe quando e enquanto houver classes, pois sua função “é precisamente a de conservar e reproduzir esta divisão em classes, assegurando que os interesses particulares de uma classe se imponham como se fossem os interesses universais da sociedade” (COUTINHO, 2006, p. 32).

A teoria gramsciana tem esse fundamento marxista como pressuposto e, a partir do materialismo histórico, procura decifrar a complexificação das relações sociais, da sociedade civil e do Estado em correlação dialética, que tem como objetivo primordial produzir e reproduzir o sistema capitalista. Formam, assim, a “unidade na diversidade”. Por isso Gramsci afirma que “a supremacia de um grupo social se manifesta de dois modos, como ‘domínio’ e como ‘direção intelectual e moral’. Um grupo social é dominante dos grupos adversários que tende a ‘liquidar’ ou a submeter também mediante a força armada; é dirigente dos grupos afins ou aliados” (GRAMSCI, 2002, p. 62).

O marxista italiano mostra que a sociedade civil guarda autonomia material na sociedade capitalista. Essa autonomia material é a que, segundo Coutinho, vai fazer com que Gramsci enxergue o “conjunto das organizações responsáveis pela elaboração e/ou difusão das ideologias” como “aparelhos privados de hegemonia”. Esse seria um fenômeno histórico identificado por Gramsci, dado que o processo de ‘laicização do Estado’, promovido pelas revoluções burguesas, deslocou os aparelhos ideológicos da esfera “pública”, no caso a igreja, para a esfera “privada”. Dessa forma, “as ideologias, ainda que obviamente não sejam indiferentes ao Estado, tornam-se assim algo “privado””, porque “a adesão às ideologias em disputa torna-se um ato voluntário – ou melhor, relativamente voluntário, já que poderosos instrumentos de manipulação pressionam no sentido da adoção desta ou daquela ideologia – e não mais algo imposto coercitivamente” (COUTINHO, 2006, p. 40).

A posição complexa da sociedade civil merece alguns apontamentos adicionais. Como vimos, Gramsci a considera como parte do Estado e a define como uma esfera da superestrutura. Contudo, ela não é o Estado em sentido estrito (esta é a sociedade política); a sociedade civil é parte do Estado ampliado. Não significa, no entanto, que sua posição enquanto locus da economia política desapareça. Ela é parte da superestrutura e também é estrutura. Por isso, Dias

(1996, p. 10), argumentando que não é correto limitar a sociedade civil gramsciana à superestrutura, destaca que

O processo de hegemonia se realiza tanto no plano do movimento quanto no plano das instituições. Não faz, assim, o menor sentido reduzir Gramsci a um teórico da cultura ou das “superestruturas”. [...] Trata-se da transformação das

condições de existência das classes subalternas. Esta reforma intelectual e

moral deve, necessariamente, estar ligada a um programa de reforma econômica que é, exatamente, o seu modo concreto de apresentar-se” [grifos do autor].

Esse caminho analítico nos leva à questão da luta de classe. Se a sociedade civil é responsável pela construção e difusão da ideologia e, ao mesmo tempo, é a arena dos conflitos entre as classes antagônicas, é possível que as classes dominadas consigam disputar e conquistar os “aparelhos privados de hegemonia”?

Essa é seguramente uma das questões mais polêmicas do pensamento de Gramsci,

Benzer Belgeler