Normal que o homem se interesse não pela religião, mas pelas religiões, pois somente através delas poderá compreender as múltiplas versões de seu colapso espiritual.1
Por mais complexa e controversa que seja a questão do pessimismo na obra de Cioran, não dá para negar que ele exista. Descrença, desencanto, desesperança, uma visão negativa não apenas da condição humana (e de sua viabilidade histórica), mas também do mundo, do universo, da matéria enquanto tal – um pessimismo ontológico que encontra expressão maior no título do Breviário de Decomposição. Não apenas este, como muitos outros títulos, sugerem, de imediato, alguma idéia nada alegre em relação à existência; como poderia ser de outra forma, sendo todos livros de alguém que escreve para atenuar o inconveniente de ter nascido?
Mas o que é, afinal de contas, o pessimismo? Ou ainda, o que significa ser pessimista? Na história da filosofia, o termo aparece pela primeira vez de forma sistemática, designando uma doutrina, em Schopenhauer2 (1819), muito embora esteja presente também em outros
1 Emil CIORAN, De L’inconvenient d’être né, in: Œuvres, p. 1321.
2 “Sobre pessimismo – Schopenhauer adotou ou criou, penso eu, esta palavra para fazer dela uma contrapartida da palavra otimismo, pela qual se designava a doutrina de Leibniz. Mas enquanto este declarava expressamente e pretendia demonstrar que este mundo é o melhor possível, não creio que Schopenhauer tenha pretendido seriamente que ele fosse o pior possível. Disse com certeza que era o pior que podia subsistir (um pior ter-se-ia aparentemente destruído a si próprio), mas era para justificar de algum modo o uso desta palavra: a única coisa que ele teria querido dizer, no fundo, é que o mundo seria a obra de uma vontade indiferente ao bem e ao mal e, contudo, mais má do que boa, uma vez que é essencialmente egoísta em cada uma de suas concentrações. A questão do prazer e da dor é apenas um argumento a favor da tese geral, de que o mundo é muito mau.” J. LACHELIER apud André LALANDE, Vocabulário técnico e crítico da filosofia, p. 811.
autores – ainda que não sistematicamente e apesar das variáveis semânticas implicadas por suas respectivas “cargas contextuais”. As principais teses sustentadas pela maioria dos filósofos considerados “pessimistas” incluem idéias como as de que: o mal prevalece sobre o bem, assim como a dor sobre o prazer (sendo este, na pior das hipóteses, apenas uma ausência momentânea daquela); a vontade, a inteligência e a felicidade humanas não parecem determinar o desenrolar dos acontecimentos (impotência de nossos planos e desejos); e, por fim, uma certa predisposição do espírito segundo a qual o sujeito tende a enfatizar mais o lado negativo das coisas em detrimento de seus aspectos positivos, afirmando que tudo caminha para o pior.3
Por mais que haja uma continuidade histórica no uso do termo através dos diferentes autores – e que, portanto, poder-se-ia deduzir o pessimismo de Cioran a partir daquele presente em filósofos que ele leu e que são considerados “pessimistas” – consideramos mais adequado nos basear no próprio autor e no que ele diz (sua auto-referência), de modo a identificar, antes de mais nada, aquilo que, na trama conceitual do seu texto, permite assumir um pessimismo – independente de referências históricas terceiras4. Como ele está expresso em sua obra? Como se articula? Cioran não conceitua o pessimismo, não faz desta uma palavra de ordem, um imperativo a partir do qual norteia seu pensamento. Ser pessimista, pelo menos no caso dele, não significa “defender o pessimismo” – teorizá-lo, levantar sua bandeira, panfletar o baixo-astral ou coisa que o valha – até porque isso, “defensor [exclusivamente] das causas indefensáveis”, Cioran jamais faria. Em uma entrevista, chega inclusive a negar o rótulo: “não sou um pessimista, mas talvez um, como devo dizer, um...
consommateur (Geniesser).”5 Sua tentativa de se esquivar do rótulo de pessimista nos leva a uma questão crucial implicada na utilização de um tal adjetivo: trata-se do caráter equívoco entre as diferentes concepções subjetivas/particulares do que significa ser pessimista. Dito de outra maneira: apesar de divergentes (uma questão de critérios, valores, referências), as opiniões são todas, a rigor, equivalentes entre si (equivocidade), no sentido de que, sendo todas humanas, nenhuma é, a priori, mais verdadeira que as outras; quando chamo alguém de
3 J. LACHELIER apud André LALANDE, Vocabulário técnico e crítico da filosofia, p. 811. (verbete: “pessimismo”)
4 O próprio caráter, a natureza mesma de sua obra parece exigir isso. Cioran nos parece autêntico – e orgulhoso – demais para ser pessimista por que... leu filósofos pessimistas. Ele não nega as influências, algumas das quais fundamentais em sua formação, ainda que não atribua a elas, determinantemente, sua “visão de mundo.” A fonte de seu pensamento, ao que nos parece, reside muito mais em sua própria experiência de vida do que nos livros. 5 O correlato em alemão, Geniesser, ajuda a precisar o sentido: um consumidor, alguém que consome, experimenta, degusta, testa, etc. Emil CIORAN, Entretiens, p. 252.
“pessimista”6, esteja eu consciente disto ou não, parto de minha visão pessoal e parcial acerca das coisas para fazer este juízo. Obviamente, eu e X não compartilhamos as mesmas idéias e as mesmas perspectivas sobre o assunto em questão, mas, em todo caso, ele pode perfeitamente refutar a predicação de pessimista uma vez que não concorda com minhas premissas e que se, por um lado, eu considero sua visão de mundo “irrespirável”7, por outro, ele consegue viver normalmente com ela. Tudo isso para dizer que, quando chamamos alguém de pessimista, este é um juízo parcial e relativo, havendo provavelmente, no fundo, uma divergência significativa entre nossas maneiras de pensar, além de que partimos de parâmetros diferentes para chegar a nossas conclusões.
Mas como pode Cioran negar que é pessimista? Não estaria ele, ao responder negativamente a esta pergunta, supondo que o entrevistador tem em mente certa noção trivial e previsível de pessimismo da qual busca dissociar-se? Às vezes, um autor como ele – irônico, ambíguo, contraditório, “chato!” – só dificulta a tarefa8, pois faz com que o crítico tenha que ficar lutando contra o próprio objeto para justificar uma tese que, dentro dele, parece tão escandalosamente óbvia a ponto de parecer desnecessário argumentar a favor dela. Mas, antes que isso se torne um problema, ou seja, para que não restem dúvidas quanto ao seu pessimismo, perguntamos: é possível ler o fragmento abaixo e não admitir nele, por mais carregado de uma sutil ambigüidade que esteja, a presença de um pessimismo feroz acerca da humanidade, no que diz respeito a seu futuro e perpetuação?
O homem não durará. Espreitado pela exaustão, deverá pagar por sua carreira demasiado original. Pois seria inconcebível e contra natura que ele persista por muito mais tempo e que termine bem. Esta perspectiva é deprimente, logo verossímil.9
Muitos outros são os aforismos em que seu pessimismo antropológico fica patente: “o homem é inaceitável.”10 Além disso, ele afirma a “supremacia do adjetivo”, cuja variação e renovação consistiriam, em sua visão, no recurso último para se combater o desgaste da linguagem e mantê-la viva, fértil. Neste sentido, Cioran só poderia ser contrário a qualquer
6 Em uma entrevista, a primeira frase da entrevistadora é: “On dit que vous êtes un pessimiste.” Cioran responde: “Ce n’est pas vrai. Je n’ai pas l’impression de l’être.” Emil CIORAN, Entretiens, p. 159 (grifo nosso).
7 “‘Suas verdades são irrespiráveis.’ – ‘Elas o são para você’, respondi imediatamente àquele inocente. Mas eu deveria ter completado: ‘Para mim também’, ao invés de bancar o valentão.” – Id., Aveux et Anathèmes, in:
Œuvres , p. 1684.
8 “Querer facilitar a tarefa do leitor é um erro. Ele não será nada grato por isso, pois não quer compreender, senão estancar-se, atolar-se, ser punido. Daí o prestígio dos autores confusos, daí a perenidade da balbúrdia (fatras).” Id., Écartèlement, in: Œuvres, p. 1443.
9 Id., De L’inconvenient d’être né, in: Œuvres, p. 1357. 10 Id., Écartèlement, in: Œuvres, p. 1503.
tipo de definição ou etiqueta fácil com os quais se quisesse classificar seu pensamento (como, por exemplo, “niilista” ou “reacionário”). Conforme pensa, não apenas os rótulos e definições se mostram insuficientes – e como que rígidos demais para comportar as nuanças e oscilações do espírito – como também é preciso encontrar novas maneiras de adjetivar, buscar qualificações não tão desgastadas pela repetição. Eis o segredo da linguagem:
O que o espírito inventa não é mais do que uma série de qualificações novas; rebatiza os elementos ou busca em seus léxicos epítetos menos gastos para uma mesma e imutável dor. Sempre se sofreu, mas o sofrimento tem sido ou “sublime”, ou “justo”, ou “absurdo”, segundo a visão de conjunto que o momento filosófico cultivava.11
O “pessimismo”, assim – tão banalmente empregado, transformado em senso comum, esvaziado de sentido –, é recusado pelo autor, intolerante com conceitos cujo sentido parece ter se estabilizado e se tornado evidente a ponto de se, apenas empregando-o, disséssemos muita coisa e definíssemos com exatidão um autor ou uma obra. “Cioran é... pessimista”: o que isto nos acrescenta, o que nos revela sobre ele efetivamente? É quase como se, no limite, denominássemos alguém de “pessimista” simplesmente porque não concordamos12, ou porque sua forma de pensar e de ver as coisas nos incomoda por parecer demasiado deprimente. Assim, cumpre enfatizar que, se por um lado, há de fato um tom pessimista em Cioran, por outro, este não pode eclipsar a complexidade e a sutileza de sua obra (até porque, na nossa compreensão, nela subjazem uma leveza e uma jovialidade que geralmente tendem a ser ignoradas).
Por mais que Cioran negue qualquer consideração com o leitor no momento da escrita (assim como nega o rótulo de pessimista), sentimo-nos forçados a contrariá-lo e partir justamente da posição daquele que é excluído de suas preocupações literárias. Mesmo que se diga “otimista”, sentimos a necessidade de partir deste pressuposto – seu pessimismo – para descobrir se ele realmente se sustenta até o final e, em caso positivo, compreender o que nos diz sobre sua obra. Só assim é que poderíamos lançar alguma luz sobre a sua tão complicada e polêmica concepção de ser humano.
Retomemos a questão da equivocidade implicada na utilização de um termo como “pessimista”, considerando a parcialidade/relatividade inerente a todo juízo particular. Um exemplo que pode esclarecer o que queremos dizer é o de Dostoievski: o escritor russo pode facilmente ser considerado pessimista (e/ou reacionário) uma vez interpretado a partir de uma
11 Emil CIORAN. Breviário de decomposição, p. 27.
12 “Aquele velho filósofo, quando queria desqualificar alguém, taxava-o de ‘pessimista’. Como quem diz ‘canalha’. Para ele, pessimista era qualquer pessoa a quem a utopia causasse repúdio. É assim que difamava todo inimigo das ninharias (fariboles).” Id., Écartèlement, in: Œuvres, p. 1478.
perspectiva humanista e secular (com todo o ateísmo e pretensão de auto-suficiência humana aí implicados). Da posição, digamos, de um jovem ocidental pós-moderno que acha que religião é “assunto chato”, perda de tempo, coisa do passado, algumas considerações dostoievskianas acerca do caráter pecador e sofredor do homem seriam no mínimo espantosas. Isto porque o ocidental pós-moderno não compartilha do horizonte de referenciais religiosos (no caso, cristãos ortodoxos) de Dostoievski. Por outro lado, partindo desta perspectiva cristã, fundada na fé, no amor e na graça divina, não há (e nem poderia haver13) pessimismo, uma vez que o homem, visto como criatura de Deus cujo destino é a transcendência, teria à sua frente a perspectiva da salvação e da eternidade. Não que Cioran compartilhe com Dostoievski a fé nos dogmas cristãos e que, assim como o escritor russo, possa ser inscrito na tradição ortodoxa do mesmo (ortodoxia aqui em sentido amplo, podendo- se incluir o catolicismo e o protestantismo, na medida em que os mesmos partilham de certas premissas básicas14). Contudo, ele parece considerar alguns postulados teológicos que são fundamentalmente os mesmos da tradição cristã oficial – como o pecado original, que teremos oportunidade de aprofundar em breve –, ainda que o faça de forma muito sui generis e, diga-se de passagem, nada preocupada com a conformidade em relação a qualquer tipo de ortodoxia ou normatividade religiosa.
A filosofia: antídoto contra a tristeza
Sendo o nosso interesse identificar aquela que seria a “escola do pessimismo” freqüentada por Cioran, cumpre analisar suas influências – tanto no âmbito individual (filósofos, escritores), quanto no âmbito das “áreas de conhecimento” por ele visitadas (filosofia, literatura, religião, etc.) – para ver quais podem ter, e em que medida, influenciado seu pessimismo em relação ao mundo e ao ser humano. Para fins tipológicos e práticos, propomos a seguinte divisão básica das categorias que constituem a formação erudita de Cioran: filosofia, literatura e religião. Dentro de filosofia, ficam incluídas as diversas ciências humanas (psicologia, história, sociologia); dentro de literatura, escritores e poetas em geral; e,
13 Temos muitos motivos para crer que, tanto no cristianismo quanto no judaísmo, qualquer tendência pessimista, isto é, de uma postura e uma perspectiva negativas em relação à vida e à existência, tenderia a ser considerada, em última instância – quanto mais próximos estivermos de suas respectivas “ortodoxias” – como uma heresia. 14 “Primeiro, aceitam o cânone do Novo Testamento; segundo, confessam o credo apostólico; e, terceiro, afirmam formas específicas de instituição eclesiástica.” Elaine PAGELS, Os Evangelhos Gnósticos, p. XXV.
em religião, todo tipo de texto antigo15, de cunho teológico e mitológico (seja da tradição judaico-cristã ou de tradições orientais) que inclua narrativas sobre o divino, a origem do mundo, do homem, etc. A divisão proposta não exclui a possibilidade de que, em alguns casos, as categorias se confundam, resultando impossível separar o autor em apenas uma delas. Por exemplo, Pascal, Kierkegaard e Dostoievski: independente de serem “filósofos” ou “escritores”, o que importará neste caso é o fato de terem um “background religioso.”
Cioran é filósofo de formação. Não obstante, leu muito, e de tudo: literatura, poesia, historiografia, relatos místicos, correspondências, memórias, mitologia, teologia e o que mais se puder imaginar. Por isso que uma primeira questão seria: partindo da hipótese de que há um pessimismo profundo a permear o seu pensamento, seria possível que a “causa eficiente” do mesmo residisse em suas leituras filosóficas? Desde já, não nos parece que seja este o caso, pelo menos se levarmos em consideração o juízo que faz da atividade filosófica enquanto tal16: “os verdadeiros problemas só começam após havê-la percorrido ou esgotado, após o último capítulo de um imenso tomo...”17
Mesmo dentro da filosofia, Cioran não estudou apenas filósofos que se possa considerar “pessimistas”. Bergson, por exemplo. A tese de conclusão de seu curso de filosofia é sobre o autor de A Evolução Criadora e, mais tarde, chegaria inclusive a cogitar a realização de uma segunda tese sobre o filósofo francês (que nunca realizou) – dessa vez relacionando o conceito de intuição à experiência mística. Por mais que se possa sustentar uma permanência da influência bergsoniana no pensamento de Cioran, somos levados a crer que, desde cedo, ele se distancia de Bergson, ao mesmo tempo em que se aproxima de Nietzsche, pelo motivo de encontrar neste algo que falta no primeiro: uma sensibilidade trágica; o reconhecimento de que a vida, para manter-se, deve destruir-se. “Bergson, com efeito, negligenciou o lado trágico da existência, e é aí que se deve buscar a razão de seu esquecimento.”18
15 Não necessariamente antigos, mas também recentes, desde que inseridos numa longa tradição de comentários e exegeses de seus respectivos textos originais (como a teologia cristã e o midrash judaico).
16 “A filosofia serve de antídoto contra a tristeza. E há quem ainda acredite na profundidade da filosofia.” Emil CIORAN, Silogismos da amargura, p. 24. Ao invés de tomá-la por um monólito homogêneo, parece-nos mais adequado falar da filosofia (assim como de outras disciplinas) no plural: filosofias e filosofias. Justamente para enfatizar as divergentes definições e paradigmas: “a” filosofia.... mas qual? Cioran é crítico do racionalismo, do rigor lógico, da vontade de sistema, dos métodos pré-estabelecidos, dos conceitualismos e das terminologias rebuscadas (segundo ele, demonstrações de impostura intelectual). Cioran prefere todo pensamento que seja orgânico, pulsante, fragmentário, e não nos parece negar o valor da filosofia entendida simplesmente como atividade do espírito, reflexão, contemplação, busca desinteressada pela verdade.
17 Id., Breviário de decomposição, p. 55 18 Id., Entretiens, p. 217.
Martin Heidegger é outro que, após exercer sobre Cioran um fascínio inicial, logo cedo acaba sendo deixado de lado. A decepção com a filosofia heideggeriana corresponde, de certa forma, a uma decepção maior: aquela com a filosofia acadêmica em geral. Durante muito tempo, antes que se voltasse contra a “extravagância terminológica” de Heidegger, Cioran foi um grande entusiasta do jargão filosófico – o único, acreditava, capaz de dar conta da complexidade dos problemas filosóficos. “Eu estava apaixonado pelos meus estudos, e confesso inclusive que estava intoxicado pela linguagem filosófica, que agora considero uma verdadeira droga.”19 Só muda de opinião quando, devorado pela insônia, se dá conta de que a filosofia nada podia fazer para ajudá-lo nos momentos de extrema desolação. “Eu deixei de acreditar na filosofia em virtude de uma catástrofe pessoal da qual falo nos meus livros: a perda do sono. Assim, aos vinte e seis anos, abandonei a filosofia, já que ela não me servia para nada.”20 No caso de Heidegger, a queixa é contra a sua valorização excessiva da linguagem, contra sua “linguagem para iniciados”:
A fascinação que a linguagem exerce explica, a meu ver, o sucesso de Heidegger. Manipulador sem igual, ele possui um verdadeiro gênio verbal que vai longe demais, atribuindo à linguagem uma importância vertiginosa. Foi precisamente este excesso que despertou minhas dúvidas, quando, em 1932, eu lia Ser e Tempo. A vaidade de tal exercício me saltava aos olhos. Parecia que queriam me enganar com palavras. Agradeço a Heidegger por ter, com sua prodigiosa invenção verbal, me aberto os olhos. Compreendi o que deveria ser evitado a todo custo.21
Se não rompe por completo com a filosofia, Cioran se interessa muito mais por aqueles filósofos que considera “casos”, no sentido quase clínico do termo. Isso vale também para a literatura: preferência pelos autores que escrevem com o sangue, as lágrimas, os punhos, com martelos; que projetam seus desequilíbrios nas páginas e dão testemunho de sua enfermidade. Nietzsche é um deles, sem dúvida mantendo, muito mais do que os dois anteriores (Bergson e Heidegger), uma repercussão não apenas estética (o estilo aforismático), mas também filosófica na obra de Cioran.
Nietzsche e Cioran têm muito em comum, ainda que as afinidades, conforme alegadas pelo romeno, sejam outras que não aquelas comumente supostas: “há, ouso dizer, uma semelhança de temperamento entre Nietzsche e eu; nós somos dois insones. Isso cria uma cumplicidade.”22 Além disso, é impossível ler o romeno e, recorrentemente, não pensar em
19 Emil CIORAN. Entretiens, p. 216. 20 Ibid., p. 137.
21 Ibid., p. 216. 22 Ibid., p. 167.
Nietzsche, percebendo a influência do filósofo alemão sobre o seu pensamento. Não obstante, somos levados a crer que, inclusive de Nietzsche, Cioran acaba mantendo muito menos do que se costuma imaginar. Sobretudo no que concerne aos olhares sobre a condição humana, as divergências são enormes.
Conforme avança em idade, Cioran descreve um progressivo distanciamento em relação a Nietzsche, com o qual deixa de se identificar quanto mais se afasta da juventude. Inclusive no que diz respeito ao pessimismo antropológico, somos levados a questionar se sua origem encontra-se nele, uma vez que, segundo o próprio Cioran, algumas de suas idéias sugeririam, pelo contrário, uma visão até que otimista do ser humano: “[...] mesmo Nietzsche me parece demasiado ingênuo. Distanciei-me dele, por quem já nutri muita simpatia, admiração [...] Ele era um solitário... no fundo, só conhecia as coisas de longe [...] Não conheceu todos os conflitos que existem entre os seres, as profundidades, tudo isso, justamente por ter vivido sozinho.”23 Ao mesmo tempo, Cioran reivindica um conhecimento muito mais profundo dos homens, uma vez que conviveu e se misturou com eles24 o suficiente para conhecê-los a fundo, de perto, flagrando suas artimanhas, misérias e fraquezas.
Ao que nos parece, um dos motivos do rompimento de Cioran em relação a Nietzsche é sua divergência acerca de uma das idéias centrais do pensamento nietzscheano. O amor fati: o imperativo de aceitar e amar a vida da forma como ela se apresenta a nós, com tudo o que possui de trágico, irracional e doloroso. O romeno é enfaticamente contra esta “alegria trágica”, ainda mais conforme atualizada por um dos “discípulos” de Nietzsche, Clement Rosset. Rossano Pecoraro25 mostra como, através das lentes de Rosset, o pensamento nietzscheano adquire tons tão forçosamente alegres que Cioran não teria como aceitá-lo. Rosset tenta argumentar a favor da idéia de que, afinal de contas, não há motivos para a tristeza, que é por assim dizer um sentimento vago, sem motivo, falso. A alegria, por outro