Vlaar e Wade (2003), em avaliação com pacientes com Esclerose Múltipla, constataram que o teste de fluência fonológica (categoria FAS) é de confiança em pessoas com Esclerose Múltipla. Henry e Beatty (2006) tiveram constatação semelhante, ao fazerem lev antamento de 35 estudos com 3.673 participantes com testes de fluência fonológica e fluência semântica, em que os pacientes foram semelhantemente confrontados em relação a participantes-controle saudáveis.
Os principais testes são o teste de fluência fonológica (categoria FAS) e o teste de fluência semântica. No primeiro, o sujeito gera o maior número de palavras possíveis em 60 segundos, com cada uma das letras: F, A e S. No segundo teste, o teste de fluência semântica, o sujeito nomeia objetos de diferentes categorias semânticas como “animais”, “frutos” e “partes do corpo”.
Segundo os pesquisadores Vlaar e Wade (2003), tanto o teste de fluência fonológica (FAS) quanto o teste de fluência semântica dependem de processamentos que envolvem o lobo frontal e o temporal. De acordo com Martin e colaboradores (1994), na recuperação por letra, o processamento predominante é no lobo frontal, enquanto na recuperação por categoria, o processamento predominante é o temporal.
Rao e equipe (1991) constataram que a fluência verbal está prejudicada em cerca de 25% dos pacientes com Esclerose Múltipla.
Beatty (2002) observou correlações altas e positivas entre medidas verbais e não verbais: fluência verbal (FAS), fluência semântica (nomes de animais e partes do corpo) e velocidade de processamento da informação. O pesquisador mostrou que o teste de fluência verbal pode ser substituído pelos testes de fluência semântica (nomes de animais e partes do corpo) sem prejuízo.
Os críticos da universalidade do teste de fluência verbal (FAS) usam o argumento de que as línguas dispõem de diferentes números de
palavras que começam com as letras F, A e S, e isso poderia interferir no resultado do teste e, em consequência, não poderia ser um teste internacional.
Henry e Beatty (2006) analisaram 35 estudos com 3673 participantes cujos objetivos era mapear os déficits em testes de fluência fonêmica e semântica de participantes com Esclerose Múltipla em relação a um grupo de controle. Os resultados mostraram que os participantes com Esclerose Múltipla tinham a fluência fonêmica e a semântica parcialmente comprometidas. O intrigante, contudo, e que terá olhar especial neste trabalho, é o fato de que os déficits em fluência foram maiores do que o déficit em teste de nomeação. Os pesquisadores ressaltam que as medidas de fluência verbal podem estar entre as medidas neuropsicológicas mais sensíveis para portadores de Esclerose Múltipla.
O aumento da incapacidade neurológica e o curso da doença em sua forma Crônica Progressiva (ao contrário de Remitente) foram associados positivamente com maiores déficits em testes de fluência fonêmica e semântica.
Rosser e Hodges (1994) têm defendido a ideia de que processos executivos idênticos estão envolvidos na iniciação e no controle de ambas as tarefas, mas que a fluência semântica é relativamente mais dependente da integridade da memória semântica (HENRY e CRAWFORD, 2004). Com isso colocado, parece importante avaliar os déficits na fluência fonêmica e semântica em portadores de Esclerose Múltipla, já que parece haver associação entre fluência verbal, de maneira geral, e déficits de funções executivas. Embora possa haver mais de um motivo para o prejuízo equivalente na fluência fonêmica e semântica, um padrão de comprometimento comparável seria consistente com a possibilidade de que os déficits refletem disfunção executiva.
Em contrapartida, o comprometimento cada vez maior em medidas de fluência semântica pode ser indicativo de disfunção da memória
semântica. No entanto, embora alguns estudos tenham relatado déficits comparáveis sobre as medidas de fluência fonêmica e semântica (BEATTY, 2002; PARRY e colaboradores, 2003), outros têm sugerido que a fluência fonêmica é a mais afetada pela doença (NOCENTINI e colaboradores, 2001). Maior comprometimento na fluência semântica também tem sido relatada (FOONG e colaboradores, 1997).
Em particular, pacientes com Esclerose Múltipla apresentam déficit em desempenho do teste Symbol Digit Modalities Test (SDMT)12 na versão oral, o que pode ser interpretado como reflexo da redução na velocidade de processamento da informação (HUIJBREGTS e colaboradores, 2004). Ao que parece, os testes de fluência verbal impõem demandas substanciais sobre a velocidade de processamento da informação (SALTHOUSE, ATKINSON e BERISH, 2003). Isso sinaliza que os déficits de fluência podem ser em decorrência da redução da velocidade de processamento, e não necessariamente da diminuição de funções executivas.
Crawford e Henry (2005), por sua vez, sugerem que os déficits em fluência fonêmica e semântica simplesmente refletem a deficiência geral nas habilidades verbais.
Na investigação bibliográfica acima referida, de Henry e Beatty (2006), as correlações indicam que o prejuízo nos testes de fluência fonêmica e semântica está substancialmente associado negativamente com a porcentagem de pacientes com Esclerose Múltipla Remitente- Recorrente, e substancialmente associado positivamente com a porcentagem de pacientes com Esclerose Múltipla Secundária Progressiva ou Crônica Progressiva (embora as correlações com fluência semântica não alcancem significância).
A fluência verbal fonêmica e semântica foi apresentada para serem medidas da disfunção executiva (CRAWFORD e HENRY, 2005) e, no
12 Teste em que o sujeito, num tempo de 90 segundos relaciona figuras geométricas e
estudo desses autores, nenhum desses déficits foi desproporcional em relação aos déficits no SDMT. Também incompatível com a possibilidade de uma participação significativa de funções executivas em Esclerose Múltipla, a outra medida mais usada da construção, no Wisconsin Card Sorting Test13, foi menos prejudicado do que qualquer tipo de fluência.
Henry e Beatty (2006) sugerem que, embora os pacientes com Esclerose Crônica Progressiva em curso apresentem resultados menos expressivos em relação aos pacientes com Esclerose Múltipla Remitente- Recorrente, esses resultados podem ser atribuídos à idade avançada, à maior duração da doença e à incapacidade neurológica.
Déficits em fluência fonêmica e semântica foram maiores para os pacientes com maior deficiência neurológica e que apresentaram diagnóstico de Esclerose Múltipla Crônica Progressiva, do que em pacientes com Esclerose Múltipla Remitente-Recorrente.
No que diz respeito à ativação e lateralidade, é possível visualizar, nas tabelas abaixo em estudo de Rosset (2008), ativação bastante robusta de áreas frontais, pré-frontais, principalmente no hemisfério esquerdo. Contudo, é possível visualizar ativação bastante bilateral do giro do cíngulo nas tarefas de fluência verbal semântica e fonêmica.
13 O Wisconsin Card Sorting Test (WCST), instrumento psicológico frequentemente
utilizado em processos de avaliação neuropsicológica, examina as funções executivas: planejamento, flexibilidade do pensamento, memória de trabalho, monitoração e inibição de perseverações. Destacou-se na literatura internacional na última década, sobretudo em pesquisas aplicadas na clínica neurológica, psiquiátrica e psicológica.
Tabela 1 – Giros e áreas de Brodmann ativadas pela tarefa de fluência verbal semântica em participantes controles destros
Fonte: ROSSET, 2008.
Na Tabela 1 é possível visualizar a ativação em tarefa de Fluência Verbal Semântica enquanto na Tabela 2 é possível ver as áreas de ativação em tarefa de Fluência Verbal Fonológica em participantes destros sem diagnóstico de patologia neuronal.
Tabela 2 – Giros e áreas de Brodmann ativadas pela tarefa de Fluência Verbal Fonológica em participantes controles destros
Fonte: ROSSET, 2008
As figuras 6 e 7, a seguir, mostram ativação em tarefa de Fluência Verbal tanto semântica quanto fonológica e mostram ativação em ambos
os hemisférios, com maior ativação no hemisfério esquerdo, especialmente na região frontal.
Figura 6 – Imagem representando análise de grupos de destros em tarefa de Fluência Verbal Semântica, mostrando maior ativação na região frontal
esquerda. Fonte: ROSSET, 2008
Figura 7 – Imagem representando análise de grupos de destros em tarefa de Fluência Verbal Fonológica, mostrando maior ativação na região
frontal esquerda. Fonte: ROSSET, 2008
Rosset (2008), em estudo que envolvia Fluência Verbal Semântica e Fluência Verbal Fonológica, mostrou que houve diferença significativa entre o gênero masculino e feminino, sendo as mulheres com índices mais baixos que os homens.
Assim como outros elementos linguísticos, a disartria tem importante descrição na literatura, descrição mais bem detalhada a seguir.