PEKTİNİN KAYNAĞI ESTERLEŞME ORANI (%)
4. SONUÇ VE ÖNERİLER
Ao tratarmos do trabalho associado partimos da premissa de Marx (apud SILVER, 2005, p. 28-29) de que a experiência histórica tem demonstrado a capacidade da classe trabalhadora refazer-se constantemente em função de cada período de avanço do capitalismo. Para Silver (2005, p. 28-29) essa percepção contesta as teorias do fundo do poço, para as quais a hipermobilidade do capital teria enfraquecido o poder de barganha dos trabalhadores, e aponta as transformações que tem sofrido o movimento operário, inclusive, em direção à transnacionalização, como as novas ondas de constestações similares a Seatlle, cujo resultado representou o recuo do capital, e também as contestações na América Latina39.
39 O avanço do capital em direção ao rompimento com os pactos sociais em decorrência das políticas neoliberais
implantadas, bem como a degradação das condições de vida e sobrevivência da população latino-americana, que nos interessa, suscitam diversos movimentos sociais em oposição à lógica do capital. O trabalho associado surge permeado de diversos movimentos sociais de diferentes tipos. Novaes (2011) sintetiza as manifestações populares que se direcionam ao confronto com capital e sua lógica de mercadorização da vida, tais conflitos situam-se em defesa da água, sementes, energia elétrica, petróleo e gás natural, etc. O autor cita: a avalanche neoliberal na Argentina e a resistência do povo e da classe média; a oposição, na Bolívia e Venezuela, à expropriação dos seus recursos naturais e, na Bolívia, há a insurreição indígena pela contestação dos acordos de exploração do gás e culmina com a renuncia do então presidente em 2003 para em 2005 eleger o Evo Morales de origem indígena; as lutas no México pela soberania na produção e comercilaização do milho no contexto de criação do Nafta e, ainda neste páis, as lutas de Chiapas, Guerrero e Oaxaca contra os produtos transgênicos; no Brasil, na Amazônia, há luta contra a instalação de usinas hidrelétricas; a luta da via campesina pela socialização de sementes crioula como patrimônio histórico em oposição às sementes geneticamente modificadas introduzidas por multinacional; no Acre, a luta pela terra e pela vida manifestando-se em torno da figura de Chico Mendes; no Nordeste, a luta pelo babagaçu livre; em Santa Catarina, em 1980, surgiu o movimentos dos atingidos pelas barragens no rio Uruguai, além das ligas camponesas do nordeste (NOVAES, 2011, p. 53-64).
Todas as manifestações explicitam as novas formas de luta do trabalho e se pautam na organização dos trabalhadores sem intermediários como o partido, o sindicato, o Estado. Um traço comum dessas lutas é que são geridas pelos próprios trabalhadores, portanto, traz enquanto embrião seu potencial revolucionário.
55 É no bojo dessas agitações populares e concomitante a elas que surgem as experiências de trabalho associado a partir da recuperação de fábrica na Argentina, na Venezuela e no Brasil, entre outros, e em outros setores da atividade laboral, como o de serviços e agricultura. Para Silver (2005, p. 29) o maior poder de barganha dos trabalhadores pode se referir à capacidade deles saírem do mercado de trabalho formal e sobreviverem de outras fontes de renda. Podemos perceber que esse parece ser um traço bastante marcante do movimento do trabalho a partir das décadas de 1980 e 1990 na América Latina.
Sob diferentes formas de organização, sejam cooperativas, ONGs, associações têm proliferado experiências de alcances distintos no Brasil. Nas áreas metropolitanas, predominam as cooperativas populares em setores intensivos em trabalho, como a reciclagem, artesanato, costura e confecções, serviços diversos, pesca, hortifruticultura, mel e derivados, panificadoras e confeitarias, produção de alimentos, etc. No caso das fábricas recuperadas especializam-se em algum segmento específico da antiga linha de montagem (CRUZ, 2006, p. 241) e, por essa razão, é comum encontrá-las sob a forma terceirizadas.
No caso brasileiro, as primeiras experiências de recuperação de fábricas pelos trabalhadores surgem, de modo mais contundente, a partir da crise de 1981-1983 (SINGER, 2002, p. 87), quando muitas indústrias, inclusive de grande porte, pedem concordata e entram em processo falimentar. Este é o caso da Wallig Sul, em Porto Alegre (SILVA, 1999), a Cooperminas, que explora minas de carvão em Criciúma, no estado de Santa Catarina e as cooperativas da antiga tecelagem Parayba, em Recife e em São José dos Campos. Tendo em vista os setores em que se inserem e a condição dos processos de trabalho que herdam, Cruz (2006, p. 241) constata que operando em pequena escala os empreendimentos autogestionários que ultrapassam o ciclo da consolidação permanecem em situação de instabilidade crítica.
Em geral, essas experiências inserem-se no que se tem denominado de economia Solidária. Cruz (2006, p. 69) se propõe à definição do conceito a fim de melhor balizar as experiências que a integram:
O conjunto das iniciativas econômicas associativas nas quais (a) o trabalho (b) a propriedade de seus meios de operação (de produção, de consumo, de crédito, etc.), (c) os resultados econômicos do empreendimento, (d) os conhecimentos acerca de seu funcionamento e (e) o poder de decisão sobre as questões a ele referente são compartilhados por todos aqueles que dele participam diretamente, buscando-se relações de igualdade e de solidariedade entre seus partícipes.
56 O autor (CRUZ, 2006, p. 69) inclui diferentes iniciativas e exclui as formas flexíveis nessa definição, assim como não se reporta às experiências dos países centrais porque são substancialmente distintas. Contudo, tal conceito expressa uma compreensão acerca da realidade que se tem denominado de Economia solidária, que longe de ser consenso, há diferentes leituras desse fenômeno. Novaes (2011, p. 27) diz que a visão mais radical sobre autogestão não ganhou espaço nos debates teórico-praticos de Economia solidária e organiza o debate nas seguintes abordagens: a) Adeptos à Economia solidária socialista40; b) Outros pertencentes à vertente socialista, sendo que muitos não utilizam o termo e têm ressalvas a ele41; e incluímos a c) Tendência hegemônica da Economia solidária liderada no Brasil por Paul Singer.
Tendo em vista as diferentes orientações teóricas das abordagens acima, ao nos referirmos a essas experiências, optamos por utilizar o termo trabalho associado42, em identificação com o segundo grupo pertencente à vertente socialista. Ao utilizarmos a terminologia trabalho associado temos como propósito, de um lado, aglutinar a diversidade de fenômenos de natureza bastante distinta do ponto de vista da sua constituição produtiva, organizativa, do atrelamento político e ideológico e das potencialidades vigorantes que se ensejam enquanto perspectiva futura de desenvolvimento. De outro lado, rejeitar a opção pelo conceito Economia Solidária para evitarmos a identificação com a abordagem hegemônica e porque o termo assume um sentido específico quando compreendidos a partir das apropriações institucionalizadas feitas pela Secretaria Nacional Economia Solidária, que nos interessa nesta pesquisa. Esta questão será melhor problematizada nos capítulos seguintes, entretanto, vale apenas apontar que o termo “solidariedade” liga-se à ideia de preocupação de distribuição justa de resultado, com meio ambiente e bem-estar dos consumidores (MTE;SENAES;SIES, 2006 apud MELLO, 2006, p. 67). Podemos notar subjacente a esse conceito apresentado pela SENAES a presença da ideia de que é possível viver no capitalismo e utilizar as mesmas categorias do seu modo de produção para organizar uma sociabilidade distinta da que vigora nas relações hierarquizadas das organizações comandadas pelo capital, ou seja, a ideia do convívio “harmonioso” com diferentes modos de organização social nesta sociedade de trabalho segmentado.
40
Novaes inclui os trabalhos de Cruz (2006), Nascimento (2011), Tiriba (2001; 2007), Faria, M. (2005); Schmidt (2008) e Novaes (2007). (NOVAES, 2011).
41 Inclui Bernardo (1975, 1986); Faria, J. (2004); Guimarães (2004); Vieitez e Dal Ri (2001, 2008); Pinassi
(2005); Antunes (2008). (NOVAES, 2011)
42 Essa denominação é utilizada por Vieitez e Dal Ri (2001). Além dessa denominação, os autores utilizam
57 Vieitez e Dal Ri (2009, p. 55) assim como Novaes (2011) dizem que um traço distintivo do movimento de economia solidária é a crença de que se constitui em alternativa radical ao capitalismo e que seu desenvolvimento por si próprio é suficiente para transformar a sociedade. Além disso, apontam (VIEITEZ; DAL RI, 2009, p. 55) que os empreendimentos do movimento de economia solidária no Brasil se encontram mais inclinados a estimularem empreendimentos novos, embora também se caracterizem pela apropriação de empreendimentos que eram propriedade capitalista e acrescentam, ainda, que em geral apresentam militância no âmbito do trabalho associado, embora essa postura não propicie a participação das organizações de trabalho associados nas lutas mais amplas da sociedade.
Do ponto de vista econômico e social, a reestruturação do capital a partir do início de 1970 provocou o rompimento do pacto social construído entre capital e trabalho no pós- guerra, devido ao rompimento com o processo que Silver (2005) denominou de “desmercadorização do trabalho” pela elevação da seguridade social nos países centrais. Os efeitos da reestruturação eclodiriam na periferia mais claramente a partir da década de 1980, como apontamos acima. Do ponto de vista da organização dos trabalhadores, o agravamento da conjuntura recessiva com efeitos sociais deletérios provocou movimentações em diversas partes do continente e, na América Latina, em especial no Brasil, algumas vertentes dos movimentos sociais se fortaleceram e algumas se renovaram, como o ressurgimento do “novo sindicalismo” a partir das greves da região do ABC, do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra) e de outras frentes novas que vieram à tona, como o surgimento do Trabalho Associado na década de 1980.
Quando pactos sociais se desfizeram, conforme Silver (2005, p. 131), no final dos anos 1980, os protestos nos países centrais cresceram e logo decaíram. Esse fenômeno de insatisfação declarada dos trabalhadores apareceu no mundo pós-colonial no início dos anos 1990, com atraso. Esse movimento do trabalho, em que Silver (2005) capta os maiores picos, representa a resistência dos trabalhadores dos países centrais à “desmercadorização do trabalho” e, na periferia, ocorre com a destituição das poucas referências construídas no âmbito dos direitos sociais, apesar de praticamente serem ausentes os benefícios advindos dos pactos sociais.
Concordamos com a afirmação de Vieitez e Dal Ri (2009) de que o trabalho associado por si só não pode ser considerado como solução para o desemprego, uma vez que este tem dimensões estruturais. Marx (1974, p. 723) diz que não é o aumento ou o decréscimo da classe trabalhadora que torna excessiva a oferta da força de trabalho para o capital, ao contrário, é a expansão do capital ou a sua retração que torna insuficiente ou abundante a
58 força de trabalho, assim como influencia seu preço. Essa concepção de Marx decorre da compreensão do autor sobre a composição orgânica do capital, do ponto de vista do valor e da técnica,43 pois no curso do processo de acumulação ocorrem modificações nesta composição orgânica. Entendemos que as novas formas de organização do trabalho alteram justamente a composição orgânica do capital, pois cada vez mais o capital constante é utilizado e aperfeiçoado para aumentar a produtividade em detrimento do capital variável (tendência progressiva da queda da taxa de lucro). Ocorre que não se pode acumular capital sem o aumento contínuo e generalizado da capacidade de trabalho. No processo de acumulação, a força de trabalho é a mercadoria fundamental, pois não há como o capital se expandir sem acréscimo da força de trabalho, ainda que ela troque de mãos de capitalista e de localidade, encontra-se na esfera da circulação de mercadorias e sua reprodução é fator de reprodução do próprio capital (MARX, 1974, p. 717). Com a tendência progressiva a baixar a taxa de lucro, a qualificação da força de trabalho assume centralidade na discussão, uma vez que é por meio do incremento na formação que se pode auferir maiores patamares de extração de mais-valia relativa, decorrentes da exploração sobre o trabalho de natureza complexa. Desse modo, tenta- se contrabalançar a queda tendencial da taxa de lucro, à qual o capital está fadado no seu processo de acumulação.
Entendemos que o desemprego da década de 1990 é de novo tipo porque apesar da natureza estrutural, ocorre em determinado contexto histórico do processo de acumulação capitalista com efeitos específicos para a classe trabalhadora, como já abordamos. No Brasil, tanto a crise da década de 1980 como a abertura comercial do governo Collor se constituem no pano de fundo em que eclodem as organizações de trabalho associado a partir de empresas que se encontravam em processo falimentar, bem como surgem as organizações que se destinam a assessorar tais organizações. Dentre as razões que impulsionaram a formação das organizações de trabalho associado, Dal Ri e Vieitez (2008, p. 49) apontam: o desemprego estrutural; a precarização do mercado de trabalho; a ideologia44 e; a autonomização do trabalho.
Das organizações que abarcam a economia solidária existem diferentes setores produtivos, categorias informais e organizações econômicas populares constituídas por grupos marginalizados de diversa natureza, pois são bastante abrangentes os tipos de
43 A composição do capital (MARX, 1974, p. 715) tem que ser apreciada sob dois aspectos intimamente
imbricados e atrelados: do ponto de vista do valor, divide-se em capital constante e variável; do ponto de vista da técnica, divide-se em relação entre meios de produção e força de trabalho.
44 Embora os autores advirtam que é mais raro encontrar tal fator, pois em pesquisa realizada em 2001
59 empreendimentos que se aglutinam sobre essa denominação e o elemento que os aglutinam refere-se à organização autogestionária e a propriedade coletiva, segundo Singer (2002). A título de ilustração há o movimento de catadores e de reciclagem de lixo, as empresas recuperadas em sistema de autogestão e de cogestão e cooperativas de produção de diferentes portes, os empreendimentos cooperativistas rurais de diversos ramos: na apicultura, piscicultura, etc.
Gaiger (2004, p. 374-377) atribui o surgimento recente dos empreendimentos econômicos solidários à conjunção de cinco circunstâncias na mesma proporção: a) presença de setores populares com experiências em práticas associativas, comunitárias ou de classe, dentre os exemplos cita o Rio Grande do Sul em que os empreendimentos mais avançados líderes e militantes de lutas sociais, rurais, urbanas, e sindicais; b) existência de organizações e lideranças populares genuínas, vincadas nos movimentos de ação direta e nos sistemas de representação dos interesses coletivos; c) chances favoráveis para que as práticas econômicas associativas sejam compatíveis a economia popular dos trabalhadores, amoldando aos arranjos que lhe asseguram subsistência, neste caso, a economia solidária reorganiza os fatores produtivos, materiais e humanos do tipo de produção já existente muitas vezes informal; d) presença de entidades capazes de canalizar os trabalhadores para alternativas autogestionárias; e) Redução das modalidades convencionais de sobrevivência devido a seletividade do mercado e a ineficácia das políticas públicas; f) formação de um cenário político ideológico favorável ao reconhecimento dessas demandas sociais de modo a penetrar em amplas frações dos movimentos sociais e na institucionalidade política.
Deste último aspecto apontado pelo autor, podemos dizer que a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) no Ministério do Trabalho e Emprego, que será objeto de discussão no capítulo 3, decorre deste cenário político e ideológico favorável a sua institucionalidade política decorrente, inclusive, da disseminação dos empreendimentos populares da pressão exercida pelos movimentos sociais que aderiram à Economia Solidária.
Dal Ri e Vieitez (2008, p. 21) indicam as entidades e os movimentos que atualmente prestam assessoria técnica e política às empresas de autogestão, sendo elas:
a) Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acionária (ANTEAG);
b) União e Solidariedade das Cooperativas do Estado de São Paulo (UNISOL); c) Confederação das Cooperativas de Trabalho (COOTRABALHO);
d) Cáritas Brasileira;
e) Ação da Cidadania Contra a Fome a Miséria e pela Vida (ACCMV); f) Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCP);
60 A Cáritas Brasileira, atualmente, é responsável pelo Centro de Formação Economia Solidária (CFES), em âmbito Nacional..
De acordo com a caracterização de Dal Ri e Vieitez (2008, p. 21) é uma instituição da igreja católica e pertence à rede Cáritas Internacional. Está ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Singer (2002, p. 117) diz que Cáritas passou a apoiar milhares de PACs (Projetos Alternativos Comunitários) por todo o Brasil desde 1984 contando com ajuda da Cáritas Suíça, Miserior, Cebemo, Entraide e Fraternité e Cáritas Alemã. Dos PACs existentes 100 dos 252 eram associações ou cooperativas solidárias (GAIGER apud SINGER, 2002, p. 118-119).
Outra instituição que desenvolveu ações de qualificação profissional para Economia Solidária no âmbito do Plano Nacional de Qualificação (PNQ) por meio dos Projetos Especiais de Qualificação (PROESQ) foi a ANTEAG. De acordo com Martins (1998) a ANTEAG formou-se com o episódio de recuperação de Markeli, fábrica do ramo têxtil e calçadista, em que um grupo de sindicalistas do Dieese inicia a discussão sobre os trabalhadores assumirem a fábrica sob a forma de autogestão, diante da alarmante situação de desemprego. Para Dal Ri e Vieitez (2008, p. 21) a ANTEAG desde a sua criação em 1992 coloca-se a tarefa de salvar e criar postos de trabalho numa situação de desemprego alarmante, no entanto seu projeto é mais ambicioso ao acreditar na possibilidade de expandir relações de trabalho não assalariadas. Para se referir a essas novas relações de trabalho utiliza- se do termo autogestão.
Com diferentes projetos e em diferentes espaços, essas entidades desempenham atividades relacionadas ao suporte técnico tendo em vista a sustentabilidade dos empreendimentos solidários, dentre essas ações está a educação que, em geral, ocupa grande parte do tempo despendido por essas instituições. Tendo em vista essa integração, ao se discutir a política pública de formação para a Economia Solidária dos CFES, no Comitê Temático de Formação e Assistência Técnica (CTFAT) do Conselho Nacional de Economia Solidaria (CNES), na SENAES, compreendeu que a assistência técnica deve estar integrada à Educação (CONFERÊNCIA TEMÁTICA DE FORMAÇÃO E ASSESSORIA TÉCNICA EM ECONOMIA SOLIDÁRIA, 2010, p. 1).
61 1.3 A Política Pública Brasileira de Formação do Trabalhador a partir do Contexto de
Modificação das Relações de Trabalho
Os efeitos da crise do início da década de 1970, ao impulsionarem uma reestruturação da produção, também conduzem à reforma política da gestão do Estado. Nos países centrais, a retórica neoliberal se defronta com padrões de Welfare State mais alargados45 do que aqueles que vigoraram nos países periféricos, porém, naqueles países o projeto neoliberal foi incisivo até porque encontraram menor resistência de movimento trabalhista na sua implantação, como ocorreu nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Nova Zelândia. Guardadas as diferenças nos padrões de seguridade social entre eles, todos apresentaram flexibilização do mercado de trabalho, depreciação salarial e principalmente fragilização do sistema de proteção social por meio da focalização de clientelas, uma vez que eram incapazes de aprimorar e de generalizar os benefícios, conforme identificou Azeredo (1998, p. 10).
Além disso, no que se refere às reformas neoliberais nos países latino-americanos é preciso considerar a proporção que estas políticas tiveram sobre as reformas dos programas sociais. Segundo Draibe (1993, p. 92-93), o neoliberalismo vem alterando suas proposições ou pelo menos a ênfase e a prioridade no que se refere às políticas sociais. Draibe diz que foram poucos os programas sociais efetivamente reformados, tendo como referência o Chile e alguns foram no sentido inverso ao preconizado pelo neoliberalismo. Isso faz a autora defender a ideia de que a alteração parcial da agenda neoliberal de reforma dos programas sociais está relacionada aos desafios da modernização e da melhoria da competitividade sistêmica das economias na busca da integração internacional e do crescimento sustentado. Desse modo, o investimento em recursos humanos e, como consequência disso, o reforço às políticas sociais de educação, voltaram a fazer parte da agenda de reformas e do redirecionamento do gasto social mesmo do neoliberalismo, o que em parte se reverte às teses de diminuição do Estado e de focalização e de seletividade neste caso (DRAIBE, 1993, p. 93). De acordo com Draibe (1993), não é apenas o Primeiro Mundo que tende a se ajustar às novas exigências de formação do capital humano pautado pela nova configuração mundial e pelas novas tecnologias e a valorizar as instituições que promovam este perfil de força de
45
Draibe (1990, p. 6) utiliza a tipologia elaborada por Ascoli para diferenciar tipos de Welfare State, isso porque a autora entende que mesmo em países como o Brasil, semiperiferia do capital, houve um deteminado padrão de Welfare State. O Welfare State que vigorou nos países centrais nesta classificação é “Welfare Institucional
–Redistributivo”, cujas principais características são: o welfare é parte constitutiva das sociedades
contemporâneas, voltado para a produção e distribuição de bens e de serviços sociais extramercado, os quais devem ser garantidos a todos os cidadãos. O mercado é incapaz por si só de alocar os recursos de modo que elimine a insegurança e reduza a pobreza atual e futura.
62 trabalho, no caso de privilegiar a educação básica e secundária, mas também na América Latina novas estratégias de crescimento vêm se desenhando. Para a autora há razões de ordem