Santos (B-SPG)
O DFH avalia a representação conceitual de crianças. Está associado a medidas cognitivas (principalmente, não verbais), ao repertório conceitual, e à aquisição de escrita (escolaridade). Apresenta características maturacionais e dá indícios da organização do processo mental da criança. A ordem evolutiva do DFH é constante e universal, independente de fatores sociais, mas é
influenciada por fatores culturais (por exemplo, DFH sem sapatos). Assim, pode-se afirmar que o DFH não é um trabalho estético, mas intelectual.30 Na amostra estudada, encontraram-se 27,5% das crianças com desempenho abaixo da média, demonstrando um comprometimento cognitivo não verbal, repercutindo na aquisição da informação.
Perets-Dubrovsky et al. pesquisaram uma amostra clínica de 136 meninos entre 8 a 10 anos com QI ≥ 90, diagnóstico de TDA/H e/ou TA, analisando o DFH – Escala Koppitz (desenho da figura humana, casa e árvore) para desenvolvimento cognitivo e emocional. Os autores sugerem a possibilidade da ansiedade e da depressão sobre a atividade motora e, consequentemente, sobre as características do desenho. Em seus resultados, suportam correlação significativa entre as medidas cognitivas do DFH, atenção e habilidades percepto-motoras, além de defenderem o uso do DFH na prática do pediatra como instrumento avaliativo.84
Na avaliação do Bender-SPG, foram obtidos 32,5% da amostra encontrando-se resultado abaixo da média. Mediante a reprodução de figuras do Bender, são avaliados: percepção visual, habilidade motora manual, conceitos (temporais e espaciais), organização (ou representação) viso- espacial efatores emocionais.31
Koppitz ressalta em seus estudos a importância da avaliação das habilidades percepto-motoras, pois o desenvolvimento cognitivo infantil se dá inicialmente por meio de experiências sensório-motoras. É notório o caráter maturacional desta habilidade. É esperado que a criança aos 11-12 anos não apresente erros na cópia de figuras do Bender.31,85
O desenvolvimento percepto-motor pode ser considerado como requisito para o desempenho cognitivo e acadêmico. O baixo desempenho percepto-motor dificulta o aprendizado, principalmente o escolar. É reconhecido como preditor de aproveitamento de aprendizagem nos primeiros anos escolares.31,85
Nos estudos prévios utilizando o Bender no Brasil, observou-se pior desempenho do que neste estudo. Porém, ressalta-se que foram utilizadas escalas de avaliação diferentes. Em Porto Alegre - RS, Rotta utilizou o Bender, por meio da escala Koppitz, e encontrou diferença significativa entre os grupos
de crianças com e sem dificuldades escolar (84,0% vs 58,0%).25 Meister et al., em Curitiba - PR, pesquisaram 69 crianças com queixas de MDE, de primeira a segunda série de uma escola pública, sendo 50 (72,5%) crianças entre 7 a 9 anos e 58 (84,1%) meninos. Na aplicação do Bender Infantil em 47 crianças, 38 (55,1%) apresentaram desempenho percepto-motor abaixo do esperado.86 4.3.3 Teste neuropsicológico de Luria-Nebraska C (adaptação da bateria neuropsicológica) – TNLN-C
A avaliação das habilidades de leitura e expressão da escrita consta dos seguintes testes no TNLN-C: análise e síntese fonêmica, leitura e escrita (enfoque na avaliação ortográfica). Foram classificados como defasados 17 (42,5%) na análise fonêmica e 23 (57,5%) na síntese fonêmica.
Há consenso entre os pesquisadores de que o processamento fonológico (consciência fonológica, memória de trabalho verbal e capacidade de nomeação rápida) é um dos principais preditores de aquisição de leitura.18,42,47 Portanto, o comprometimento das habilidades fonêmicas das crianças avaliadas neste estudo já aponta para uma dificuldade na aquisição da leitura. Tal dado foi confirmado pela avaliação de leitura, uma vez que 75,0% da amostra apresentou defasagem na leitura. As inabilidades de ler e compreender são um dos maiores obstáculos à aprendizagem escolar, com graves consequências educacionais, sociais e emocionais. Por meio da leitura, o indivíduo extrai conhecimento e significado de caracteres simbólicos escritos.42
Este teste (TNLN-C) avalia também a ortografia. As letras devem compor uma palavra, dentro de uma frase e de uma produção de texto, obedecendo a regras gramaticais implícitas da língua (sintática) e traduzindo um significado (semântica).1,2,3 A expressão da escrita precisa ser legível e ter a sua mensagem compreendida pelos leitores. Nesta pesquisa, durante a avaliação de escrita, foram classificadas 34 crianças como defasadas (85,0% da amostra).
A expressão da escrita é fortemente influenciada pela capacidade de leitura, bem como por fatores linguísticos-culturais e métodos pedagógicos.3
Assim, fica claro por que foi encontrada maior defasagem na expressão da escrita do que na leitura no presente trabalho.
Na avaliação das habilidades aritméticas, foram encontrados os resultados defasados em 11 crianças (27,5%) no subteste de compreensão
das estruturas numéricas, em 35 (87,5%) nas operações matemáticas e em
20 (50%) na resolução de problemas.
A aritmética é também uma atividade mental complexa.87-89 De forma didática, o desenvolvimento do processamento mental aritmético ocorre em quatro etapas. A primeira etapa é representada por um componente genético, inato que é o ―senso numérico‖, comum a diversos espécimes animais. O ―senso numérico‖ permite perceber o número de objetos que compõem um grupo de forma aproximada e distinguir entre muito e pouco. A segunda etapa é representada pela representação verbal do conceito de magnitude, dependendo do desenvolvimento das habilidades linguísticas. A terceira etapa refere-se à aquisição das representações numéricas (sistema de código arábico). A quarta etapa é representada pelo raciocínio aritmético e depende do desenvolvimento das funções executivas, prioritariamente a atenção e memória de trabalho. As habilidades aritméticas envolvem tanto de habilidades não verbais (principalmente, visuoespaciais) quanto as verbais.87-89
Os resultados obtidos neste estudo revelaram menor comprometimento nas habilidades aritméticas do que na leitura e escrita. Tal fato pode ser explicado pelo processamento mental aritmético, no qual o senso numérico é inato para diversas espécimes animais. Portanto, é consenso na literatura a influência genética sobre o ―senso numérico‖ e ambiental (experiências individuais e escolares) no desenvolvimento das demais etapas do processamento mental aritmético.90,91
Em relação às habilidades aritméticas, foram encontrados maiores comprometimentos nas operações matemáticas, seguindo-se a resolução de problemas e a compreensão de estruturas numéricas. Nota-se uma inversão dos resultados entre operações matemáticas e resolução de problemas, uma vez que o usual seria maior defasagem na resolução de problemas. Tal fato pode estar relacionado à menor complexidade dos problemas do subteste do
TNLN-C. Existe uma progressiva demanda das funções executivas com o aumento da complexidade do problema.
Em relação à capacidade dos professores de classe para identificar as crianças com MDE, os resultados mostraram que estes são aptos a fazê-lo mediante a comparação com os seus pares de mesma idade (nível maturativo) e escolaridade. Nos resultados desta pesquisa, encontrou-se alta frequência de defasagem graves nas áreas de leitura, escrita e matemática. Como a leitura é fundamental à aprendizagem escolar, é o problema mais facilmente e precocemente detectado pelos professores.92 Isto foi corroborado neste estudo, uma vez que a amostra de crianças com MDE, na percepção dos professores, apresentou grande índice de defasagem na leitura e escrita. Assim como na literatura, outros pesquisadores sugerem que as dificuldades em leitura são mais precocemente identificadas pelos professores e rapidamente encaminhadas para programas de remediação que as dificuldades aritméticas.63,92
Os resultados da pesquisa atual mostram que a opinião dos professores de classe em relação ao rendimento de seus alunos é relevante. Da mesma forma, no Brasil, interior de São Paulo, Capellini, Tonelotto e Ciasca compararam a opinião dos professores sobre desempenho escolar de 164 alunos de escola pública e a avaliação formal (teste do desempenho escolar), sendo a opinião dos professores fundamental para identificação das crianças com MDE.93
4.3.4. Análise associativa entre os resultados do ENE e os da avaliação