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Toda essa argumentação aqui exposta evidentemente demanda sua efetiva aplicação por parte dos operadores do Direito, principalmente os advogados, provocando o Judiciário para fins de responsabilização civil dos agentes públicos que insistem em lavrar Autos de Infração sem qualquer cuidado e zelo, por saberem que na prática não são responsabilizados.

Sob o ponto de vista processual, a melhor forma de resolver-se a questão é processar o agente público responsável pelo dano (a cópia do PAF será na maioria das vezes, a nosso ver, mais do que suficiente para arguir sua imperícia – uma das modalidades de culpa – na lavratura de algum dos atos administrativos que compõem o PAF), requerendo-se subsidiariamente a condenação do Estado, que responderá objetivamente. Assim, pune-se o agente – o efetivo causador do dano – e subsidiariamente o Estado.

Essa é a forma mais correta de proceder-se, posto que toda vez que o Estado é condenado, quem acaba pagando são todos os contribuintes, pois o dinheiro decorre dos próprios tributos pagos pelo povo; assim, muito melhor e mais justo que o agente público arque – ao menos em parte, caso o seu patrimônio não cubra todo o ressarcimento do dano – com os ônus de sua conduta indevida.

CONCLUSÃO

Podemos estabelecer ao menos as seguintes conclusões com base nas explanações realizadas ao longo deste trabalho:

1. Os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil podem ser considerados verdadeiros “sobreprincípios”, pois norteiam as ações do Poder Público em todas as suas esferas (Executivo, Legislativo e Judiciário), de modo que todos os atos do Poder Público devem ser direcionados para a consecução dos objetivos previstos nos quatro incisos do artigo 3° da Constituição Federal.

2. Os princípios são normas que possuem força normativa superior às demais normas do sistema, e servem para nortear a exegese e aplicação destas demais normas.

3. O Princípio Republicano é a base da República Federativa do Brasil. Dele decorrem praticamente todos os demais princípios constitucionais, a noção da tripartição dos poderes e da responsabilidade dos agentes públicos por seus atos perante o povo. É com base principalmente neste princípio que os agentes públicos são obrigados a agir sempre da melhor forma para com os cidadãos, pois o Estado existe pelo povo e para o povo – e os agentes públicos, na condição de representantes do povo, devem agir sempre cumprindo com os desígnios constitucionais.

4. O princípio da moralidade administrativa, previsto no caput do artigo 37 da Constituição Federal, é corolário do próprio princípio republicano, e também determina que os agentes públicos devem agir de acordo com a lealdade e a boa-fé que os cidadãos esperam do Estado (em sentido amplo), servindo, de certa forma, como um reforço ao próprio princípio da legalidade.

5. O princípio da eficiência determina que os agentes públicos devem agir sempre da forma mais eficiente para atender aos cidadãos; contudo, na prática, pela forma como as leis administrativas foram concebidas em nosso país, concedendo a terrível estabilidade sem metas claras e com efetivas sanções por descumprimento das mesmas, o princípio da eficiência virou mero discurso.

6. Interesse público ou primário é o pertinente à sociedade como um todo e ele é que deverá sempre prevalecer, já que o Estado enquanto ente jurídico, existe para o povo e pelo povo, com o único intuito de servir à coletividade; enquanto interesse público secundário é aquele que se refere ao interesse do Estado enquanto pessoa jurídica individual, é o interesse do próprio ente jurídico, desconsiderando-se sua função e propósito de existência de servir às pessoas.

7. O Interesse público primário deverá sempre prevalecer sobre interesses secundários, que somente deverão ser observados quando estiverem de acordo com o interesse primário.

8. O § 6° do artigo 37 da Constituição Federal é o principal dispositivo que rege a responsabilidade civil no âmbito constitucional, determinando que o Estado responde objetivamente e o agente público, à princípio, subjetivamente, via ação regressiva do Estado contra o agente, pelos danos causados aos cidadãos.

9. O direito do Estado à ação regressiva não inviabiliza o direito do cidadão/contribuinte eventualmente lesado entrar com ação indenizatória diretamente contra o agente público causador do dano, pois o agente público é, antes de tudo, um cidadão em um regime republicano, sendo, pois responsável pelos seus atos enquanto cidadão também, aplicando-se ao mesmo às normas do Código Civil.

10. A responsabilidade civil do agente público se baseia em diversos pontos. No âmbito constitucional, baseia-se principalmente no princípio republicano, no princípio da moralidade, no princípio da eficiência, na correta interpretação do princípio da supremacia do interesse público sobre o privado, e na noção (decorrente dos princípios da razoabilidade e equidade) de que com os bônus de trabalhar para o poder público vêm os ônus.

11. No âmbito infraconstitucional, por sua vez, a responsabilidade civil do agente público decorre antes de tudo da noção de que antes de ser agente público, agente é um cidadão, e permanece em tal condição ainda que tome posse como ocupante de cargo público; logo, diante do Estado Republicano em que vivemos, não há qualquer razão para conceder-lhe privilégios de rei, como, por exemplo, conferir-lhe imunidade às normas de responsabilidade civil.

12. A previsão da responsabilidade subjetiva do § 6° do artigo 37 da Constituição Federal não impossibilita que norma infraconstitucional – válida para todos os demais cidadãos – incida sobre o agente público, que é mero serviçal do povo, que lhe paga os salários e lhe dá o sustento.

13. No momento de definição de qual das várias cláusulas de responsabilidade civil objetiva se aplicaria à uma hipotética responsabilização objetiva do agente fiscal, observa-se que: (a) muitas vezes haverá a sobreposição da incidência das cláusulas, por terem, em última análise, o mesmo fundamento de falta do dever de cuidado; e, (b) que, na prática, a cópia do PAF será suficiente para demonstrar ao menos a culpa na modalidade de imperícia do agente fiscal no ato administrativo em que tenha ocorrido o erro na lavratura (e o consequente dano ao contribuinte por Autuação Fiscal sem respeito ao princípio da legalidade).

14. Pelo motivo exposto no item anterior, na letra (b), fica claro que acaba se tornando irrelevante discutir-se e mesmo sustentar-se a responsabilidade objetiva, posto que a cópia do PAF será suficiente para comprovar a culpa por alguma de suas modalidades (geralmente imperícia) na lavratura do ato administrativo que tenha sido lavrado erroneamente, gerando o consequente dano ao contribuinte que será cobrado por crédito tributário constituído ilicitamente; logo, a responsabilidade subjetiva, nos casos de responsabilização do agente fiscal em especial, é mais do que suficiente para proteger os direitos do contribuinte.

15. A responsabilização civil do agente público por danos causados ao contribuinte, em especial do agente fiscal, gera inúmeras vantagens: redução do número de erros dos demais agentes que verem que o colega “sentiu no bolso” o erro; prevenção da reincidência após a primeira condenação a ressarcir o contribuinte; evita-se que o agente fiscal corrupto use o Auto de Infração como forma de retaliação contra os contribuintes que não se sujeitaram a dar-lhe propina, além de fazer com que os agentes lavrem Autos de Infração sempre que encontrem irregularidades, para justificar a sua função fiscalizadora (estão recebendo todo mês; logo, precisam arrecadar e cumprir suas metas, para que não sejam apenas despesas para o Estado).

16. A única “desvantagem” existente, geralmente levantada pelos agentes fiscais, é a insegurança jurídica decorrente da complexidade da legislação tributária em nosso país. Trata-se de argumento sem fundamento, pois quem legisla

é o Poder Público, e até mesmo os próprios órgãos fazendários – ilicitamente, é verdade, mas o fazem –, de modo que o ônus da insegurança jurídica deve recair sobre eles, por uma questão de razoabilidade e equidade – e não sobre os contribuintes, que, além de terem de conviver com a insegurança jurídica, sofrem pesadas multas em caso de eventuais irregularidades na visão dos auditores.

17. A responsabilização dos agentes fiscais (e demais agentes públicos envolvidos na relação jurídico-tributária) tenderá a fazer com que os mesmos se reportem aos seus superiores no caso de dúvidas, gerando a padronização de comportamentos, conforme comentado rapidamente anteriormente. Na prática, o que acontecerá será que os agentes públicos de hierarquia superior começarão a emitir atos administrativos concretos com orientações para seus subordinados (denominados “comunicados”, “portarias”, etc.), que servirão como uma instrução de trabalho em uma empresa privada, para fins de orientar a rotina de trabalho do dia-a-dia de cada agente fiscal.

18. A padronização de comportamentos é a base do sistema de gestão da qualidade total – conceito de administração que engloba uma série de ferramentas para otimizar a produtividade e eficiência das empresas –, e a responsabilização civil dos agentes públicos forçará cada repartição pública – inclusive as fazendárias – a se organizar devidamente por meio desses métodos, tornando mais clara a forma como se deve proceder tanto para o contribuinte como para os próprios agentes fiscais; logo, fica claro que, além de haver sólida fundamentação sob o ponto de vista jurídico em si, analisando a questão de forma pragmática observam-se somente consequências positivas para todos os envolvidos na relação jurídico-tributária.

19. Toda a argumentação exposta neste trabalho de dissertação evidentemente demanda sua efetiva aplicação por parte dos operadores do Direito, principalmente os advogados, provocando o Judiciário para fins de responsabilização civil dos agentes públicos que insistem em lavrar Autos de Infração sem qualquer cuidado e zelo, por saberem que na prática não são responsabilizados. Caso isso ocorra – e há, como demonstrado neste trabalho, fundamentos jurídicos para embasar a responsabilização civil do agente público – com toda a certeza teremos uma melhora gigantesca à médio prazo na qualidade

dos serviços prestados pelos agentes públicos envolvidos direta ou indiretamente com a relação jurídico-tributária.

20. Sob o ponto de vista processual, a melhor forma de resolver-se a questão é processar o agente público responsável pelo dano (a cópia do PAF será na maioria das vezes, a nosso ver, mais do que suficiente para arguir sua imperícia – uma das modalidades de culpa – na lavratura de algum dos atos administrativos que compõem o PAF), requerendo-se subsidiariamente a condenação do Estado, que responderá objetivamente. Assim, pune-se o agente – o efetivo causador do dano – e subsidiariamente o Estado. Essa é a forma mais correta, a nosso ver, de proceder-se, posto que toda vez que o Estado é condenado, quem acaba pagando somos nós mesmos, pois o dinheiro decorre dos próprios tributos pagos pelo povo; assim, muito melhor e mais justo que o agente público arque – ao menos em parte, caso o seu patrimônio não cubra todo o ressarcimento do dano – com os ônus de sua conduta indevida.

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Benzer Belgeler