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Quanto à noção de homem e de emancipação em Marx e Habermas, na história do pensamento moderno, parte-se da relação entre as concepções de trabalho e de linguagem. Relação esta que foi estabelecida pelo jovem Hegel, principalmente, nas obras Sistema da vida ética de 1802 e Primeiro sistema de 1803-1804. Para Habermas, conforme o artigo “Trabalho e interação”, publicado na obra Técnica e ciência como “ideologia”21, o jovem Hegel observa que na relação entre trabalho e linguagem, os instrumentos de trabalho e o nome das coisas são o que permanecem nas atividades de trabalho e de percepção, tratando-se, portanto, de universais que se fixam pelas regras de utilização. E, a esta concepção acrescenta outras duas, a primeira é a que estabelece a anterioridade da linguagem em relação ao trabalho, e, a segunda é a que concebe a linguagem e o trabalho enquanto vetores de uma direção, mas de sentidos opostos22.

Em Marx quando buscamos pelo critério que distingue o trabalho humano das formas primitivas e instintivas do trabalho animal, encontramos que a diferença básica é dada pela racionalidade. É pelo pensamento, pelo projetar humano, pela intencionalidade, pois ao fim do processo de trabalho cria-se um produto que já

21 HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência como “ideologia”. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições

70. 2011.

22 Estas reflexões sobre a relação entre linguagem e trabalho encontradas no pensamento do jovem

Hegel perdem importância no desenvolvimento da teoria hegeliana, principalmente a partir de 1805 com a publicação da obra Fenomenologia do espírito, passando a ser entendidas no interior do processo concebido segundo o modelo da autorreflexão.

existia idealmente na imaginação do trabalhador. O critério que encontramos é o de que, na transformação da matéria ou da natureza, o ser humano imprime um projeto anterior, conscientemente formulado. Quanto ao marxismo, alguns pensadores sugerem uma primazia do trabalho em relação à linguagem. É o caso de Friedrich Engels que defende uma primazia do trabalho e faz remontar a origem da linguagem ao trabalho. Neste sentido, Georg Lukács leva ao extremo a hipótese de Engels compreendendo o trabalho enquanto modelo de todas as atividades humanas, não só da linguagem. Já os filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer, influenciados pela teoria marxista, na obra Dialética do esclarecimento23, entendem que nem o trabalho tem primazia sobre a linguagem e que nem a linguagem tem primazia sobre o trabalho (ADORNO; HORKHEIMER, 2006).

Em Habermas, no entanto, existe uma compatibilização entre sua leitura do jovem Hegel e a pesquisa em antropologia, que se mostra na compreensão da relação entre trabalho e linguagem a partir da perspectiva jovem hegeliana, da precedência e primazia da linguagem em relação ao trabalho. Para Habermas, segundo Fernando Haddad, na obra Trabalho e linguagem24, é o sistema social de papéis, o sistema de reconhecimento, fundado num conjunto de normas que pressupõe a linguagem completamente constituída, o que encerra o processo de hominização. E estas estruturas do agir conforme um papel designa, com relação às estruturas do trabalho social, um novo grau de desenvolvimento, não sendo possível reduzir as regras do agir comunicativo às regras do agir instrumental ou estratégico (HADDAD, 2004).

Temos em Habermas, todavia, um diálogo hermenêutico com as posições dos textos de Kant, de Hegel e de Marx, numa comparação das virtualidades relativas do procedimento transcendental e do procedimento fenomenológico de elaborar a teoria da racionalidade. Neste sentido, a apropriação do procedimento fenomenológico, como correção da perspectiva transcendental, permite compreender a relação transcendental entre sujeito e objeto enquanto processo evolutivo, enquanto história transcendental da consciência. E esta compreensão

23 ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antonio

de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

24 HADDAD, Fernando. Trabalho e linguagem: para a renovação do socialismo. Rio de Janeiro:

fundamenta a crítica de Habermas a Marx. Neste sentido, a crítica é Marx não esclareceu de forma suficiente a conexão entre trabalho e linguagem. A concebeu como práxis social reduzindo, assim, a ação comunicativa à ação instrumental. Isto, fez com que não pudesse compreender o intrínseco valor evolutivo que existem nos subsistemas regidos por meios generalizados de trocas.

Para Sergio Sevilla, Habermas, ao compreender desta forma a teoria de Marx, acaba reduzindo a noção de trabalho e de práxis social em Marx à ação instrumental ou estratégica25. Se considerarmos que é Habermas quem produz

uma leitura redutiva e vermos em Marx uma teoria da racionalidade formada pelo sujeito do conhecimento e pelo sujeito da ação, poderemos ter outra apropriação crítica do proceder fenomenológico. Poderemos entender que em Marx, ao se desmitificar a fenomenologia hegeliana, incorpora-se na teoria marxista a dimensão da produção e, o mais importante, a totalidade das relações sociais humanas, historicamente construídas. Assim, aparecem incluídas na história da autoconstituição humana todas as interações, sistêmicas e práticas. Deste modo, supondo que exista uma história empírica da consciência transcendental, ou uma história empírica e transcendental da consciência da espécie, nesta história estariam incluídos os processos formativos das diversas formas de interação social, não unicamente a história da tecnologia (SEVILLA, 1989).

O conceito de emancipação encontra-se presente tanto no pensamento de Karl Marx, quanto no pensamento de Jürgen Habermas e encontra-se presente a partir de categorias distintas, respectivamente, trabalho e interação. Assim, nossa hipótese é que se estabelece uma relação de distinção entre os pensamentos concorrentes destes autores, mas que possibilitará uma aproximação e compreensão da teoria da emancipação de ambos, surgidas a partir de influências da filosofia do humanismo e da filosofia do Iluminismo.

25 Em Haddad também encontramos a ideia de que Habermas faz uma redução da teoria de Marx

compreendendo o trabalho enquanto ação instrumental. Para Haddad, Marx afirma que o trabalho não modifica apenas as condições objetivas, mas transforma também as condições subjetivas, desta forma, seria Habermas quem se equivocaria ao conceber o trabalho em Marx exclusivamente sob a ótica do agir instrumental ou estratégico (HADDAD, 2004).