Acompanhei uma visita domiciliar à casa de uma jovem de 26 anos. Fui em companhia de dois trabalhadores em um veículo da prefeitura. Durante o trajeto, conheci um pouco da história de vida da usuária. Segundo os profissionais, a mesma estaria em sofrimento em função de uma infância difícil que teria passado com o pai (morto em acidente de trânsito ainda na infância da filha) que abusava de álcool e violentava a mãe. Já era a terceira visita realizada ao domicílio e a usuária não estabelecia vínculos mais potentes com a equipe e, como consequência, não frequentava o CAPS. Todas as visitas foram solicitadas pela mãe através de outro técnico do CAPS que era vizinho das duas. Em uma conversa anterior com um dos profissionais, soube que os técnicos lhe aplicaram à força uma medicação antipsicótica que, segundo os mesmos, “faz efeito durante um mês”. No trajeto, fiquei sabendo que um dos objetivos da visita era fazer com que a usuária aceitasse a sua condição de pessoa com transtorno mental: “O maior problema dela é que ela não aceita a sua condição e não quer aceitar o tratamento que a gente tem para oferecer.”; “Ela tem dificuldade de aceitar a medicação”. Ao entrarmos na casa, fomos bem acolhidos e começamos a estabelecer um diálogo com a jovem, que falou um pouco das angústias e pensamentos negativos que vinha passando e, como consequência, a mesma não saía de casa. Em certo momento, uma técnica resolveu intervir: “você estudava, passou no vestibular, começou um curso e trabalhava com sua mãe no centro da cidade e deixou de fazer tudo isso; você acha isso legal? Se você aderir ao tratamento você pode voltar a fazer tudo que fazia”, ao que recebeu a seguinte resposta: “Olha, teve um dia que estava voltando do trabalho e fiquei com o pescoço só para cima e os olhos só olhando para cima, com o pescoço sem querer voltar para baixo. Isso eu não quero mais”; uma das trabalhadoras retruca: ”mas a gente pode pedir uma nova consulta com a equipe médica para rever essa medicação, pois o que aconteceu com você foi um efeito colateral que é comum para quem toma essa medicação”. Logo após, a jovem seguiu: “Acho que essas coisas que eu passo é por causa do que minha mãe sempre me falou e eu fico assim pensando” Mais uma vez, a técnica responde sinalizando acerca da importância da mesma aderir ao tratamento: “A gente tem de marcar um dia para sua consulta com o psiquiatra para rever os remédios e também um espaço para o tratamento psicológico, o
que você me diz?” - “Eu acho que quero sim, acredito que tudo isso é por causa daquilo que eu vivi, das coisas que eu já vivi”. Neste momento, resolvi intervir e perguntei: “Que coisas são essas?” com o questionamento, a usuária embarga a voz, cai em lágrimas e esboça uma fala acerca do passado e da relação dela com o pai e com a mãe, mas não se sente à vontade, naquele momento, de desenvolver um relato mais longo e resolvemos respeitar seu movimento. Por fim, disse que iria ao CAPS para uma nova consulta psiquiátrica e acolhimento com o psicólogo. No caminho de volta, uma das técnicas mencionou: “Foi a primeira vez que eu a vi chorar; isso nunca havia acontecido.” Fiquei a me perguntar se, talvez, a minha pergunta não tenha sido o único momento, até então, que a usuária teve para tratar de suas questões pessoais, o primeiro espaço que ela encontrou para que seus processos subjetivos pudessem emergir, se acabei operando o antigo e prudente conselho de Franco Basaglia de colocar a doença entre parênteses.
O encontro com esta jovem, apesar de sinalizar uma preocupação da equipe junto ao território para buscar uma usuária em sofrimento, indicou certas linhas tradicionais de ação do CAPS, perfazendo o agenciamento do saber-poder psiquiátrico e de formas manicomiais e violentas de atuar. Primeiramente, os técnicos revelaram que, em visita anterior, de algum modo, a usuária foi contida fisicamente e uma medicação lhe foi aplicada contra a sua vontade; dessa forma, delineia-se uma crença comum no CAPS deste estudo de que a principal forma de atuação reside na medicalização, ou seja, na única confiança na ação médica e no uso dos psicofármacos prescritos (YASUI; COSTA-ROSA, 2008). O privilégio de tal prática também se delineia a partir de uma imposição de uma condição identitária de doente que a usuária deveria assumir, sem abrir espaço para a integralidade dos olhares e das ações (COSTA-ROSA, 2006).
Outra ação tradicional naquele espaço intersubjetivo foi a não abertura para o acolhimento da singularidade, de seus processos subjetivos e de sua história de vida. Por mais que as lágrimas indicassem afetos de tristeza e de sofrimento, elas também cartografaram que não havia espaço para acolhimento do sujeito enquanto existência singular e que os trabalhadores direcionam mais seus trabalhos preocupados com diagnósticos e transtornos do que com desejos e projetos de vida dos usuários (AYRES, 2009). Resolvi nomear este encontro de “olhar adiante” para justamente tensionar os olhares presentes: uma usuária que é forçada a olhar para cima em função de efeitos colaterais da medicalização e não pode lançar certo olhar para trás e trabalhar seu passado de sofrimento para olhar adiante; os técnicos olhavam para sinais e sintomas, retomando o caminho mais tradicional da psiquiatria, e não
olhavam para usuária e sua pulsação de vida; desta forma, como fundir olhares adiante para um horizonte?