Outra noção/produção de sujeito, que difere das propostas elencadas acima acerca do cuidado na atenção psicossocial e na política de saúde mental brasileira, a partir do conceito de modos de subjetivação, que encontramos problematizada no pensamento foucaultiano, auxiliou na compreensão de boa parte das situações e conversas acompanhadas no cotidiano do serviço durante a cartografia. As relações de poder são agenciadas com contundência no cotidiano do CAPS, mas não qualquer relação, mas exercícios de poder de forma autoritária e despótica, cujos efeitos perpetuam e produzem dominação, tutela, docilização e certa utilidade. Talvez, uma reflexão aproximativa dessas relações possa ajudar a nos aproximarmos dos modos de subjetivação que se produzem nesse contexto.
Foucault, conhecido como um estudioso do poder, em um texto intitulado Sujeito e Poder (1995), onde tenta fazer uma pequena análise de sua produção dos anos 60 e 70, procurou apontar que seu objetivo em seus estudos não foi promover uma análise do poder nem de seus eixos fundamentais. Tentou traçar uma história das redes complexas e das
práticas concretas que fazem com que os seres humanos se tornem sujeitos. A constituição do sujeito é a preocupação central de Foucault nos domínios do saber, do poder e da ética: como o sujeito se insere e aparece no âmbito do conhecimento científico (As Palavras e As Coisas), como o sujeito aparece nas práticas divisoras e normativas (História da Loucura, Vigiar e Punir, O Nascimento da Clínica) e como o sujeito se torna objeto para ele próprio (História da Sexualidade) (FOUCAULT, 2004; ARAÚJO, 2008).
O estudo acerca do poder tomou grande espaço em suas produções, pois, segundo ele, as relações de poder, quando analisadas a partir das formas de resistência aos mesmos, tem a potencialidade de revelar como o poder se exerce no cotidiano de vida dos indivíduos, produz marcas que os identificam, essencializa identidades, impõe verdades que devem ser reconhecidas por todos. Logo, a compreensão do sujeito passa pela análise das relações de poder agenciadas (FOUCAULT, 1995; FONSECA, 2007).
A abordagem do poder deve caminhar em busca mais do como se exerce o poder? do que em busca do o que é o poder?. Tal exercício permite um deslocamento crítico em direção às relações de poder e não em direção a um poder fundamental; o que pode dar acesso à complexa rede de relações de poder no cotidiano, dar acesso ao modo como tais relações se dão no âmbito das práticas humanas, nos âmbitos microssociais (FOUCAULT, 1995).
Para Foucault, o que define uma relação de poder diz respeito a uma ação sobre a ação, a uma condução de conduta. Dessa forma, as relações de poder não se configuram no âmbito da violência, que imobiliza o outro ou o destrói. O poder necessita do outro e, ao mesmo tempo, abre um campo que permite certas reações, certas respostas e algumas criações. O poder só é exercido a partir de sujeitos livres, conduzindo suas condutas e organizando probabilidades.
O poder não é algo que se concentra ou se possui, é uma estratégia de localização, é da ordem relacional entre homens ou grupos de homens; é algo que se exerce e se apoia nos despossuídos, ao invés de desapossar. Não se encontra convergido para um ponto específico, mas encontra-se espargido, borrifado, derramado nas mais diversas relações, enfim, nas micro-relações (FOUCAULT, 2009b; ARAÚJO, 2008).
Foucault apontou, nesses debates, definições importantes para a noção de sujeito que auxiliam na compreensão de seus trabalhos: um sujeito a alguém a partir de ações de controle e dependência, e um sujeito aprisionado à sua própria identidade a partir de um certo auto- conhecimento ou consciência. A partir dessas discussões, podemos perceber que o estudo do sujeito necessariamente passa pela aproximação das relações de poder travadas no cotidiano e
nos mais ínfimos espaços bem como pelas formas de resistência que se insinuam em relação aos poderes que prescrevem modos de vida, que produzem sujeitos.
Algumas linhas tradicionais de poder se entrecruzam no serviço deste estudo e, como levantado no início desta seção, forjam uma trama de modos de subjetivação marcada pelo assujeitamento. Dentre as várias linhas que se conjuram nas práticas do CAPS deste trabalho, podemos destacar: a) o vetor histórico de vinculação da cultura piauiense ao saber-poder médico, materializado nas práticas de medicalização, entendida a partir da centralidade de discursos e ações médicas e direcionada pelo uso dos fármacos como resposta principal para as questões entorno da saúde mental (COSTA-ROSA, 2006; YASUI; COSTA-ROSA, 2008); b) ações marcadas pela segmentação e apartamento em relação ao louco, seja na organização do espaço, sejam nas normativas impostas; c) discursos e práticas baseados nas naturalizações das relações entre loucura e periculosidade ou uso de drogas e marginalidade; d) moralizações na imposição de papéis e condutas a partir de corrigendas, repreensões e admoestações; e) o agenciamento da arquitetura pelo princípio da vigilância (FOUCAULT, 2009b); f) agenciamento de eventos violentos, tais como, a contenção física, o dano psicológico através do acossamento e da ameaça, o uso da força policial; g) olhar centralizado em sinais e sintomas em detrimento da integralidade; h) exercício autoritário de poder, seja na concentração decisiva dos rumos administrativos ou na reifícação do poder psiquiátrico através da tutela; i) produção de demanda para o manicômio; j) reposição do papel de incapacidade na construção do próprio cotidiano por parte do usuário; entre tantas outras linhas que acompanharemos em algumas situações/cenas cotidianas que descreveremos na próxima seção. Também foi sentida e acompanhada no serviço, uma tradição gerencial assentada numa lógica de ajuste neoliberal na configuração da atenção oferecida aos usuários, que aliada ao histórico descaso do Município de Teresina para a com a saúde mental, como assinalado no capítulo sobre a história da assistência no Piauí, e ao secular preconceito, compõem um quadro que também reverbera nas práticas do dispositivo.
As marcas e os cruzamentos dessas diferentes linhas e algumas pistas de novas práticas de cuidado em saúde mental vinculadas a atenção psicossocial tomando corpo é o que trataremos no próximo capítulo num exercício de descostura e costura. Compartilharemos situações/cenas que estiveram (e estão) em curso durante nossa imersão cartográfica de modo a dar visibilidade/passagem/voz/cheiro/lágrima/sorrisos de tais linhas e demais vetores que amalgamam a cotidianidade do CAPS deste trabalho. Procurarei descrever não somente os dados objetivos e informações precisas, mas também as minhas experiências e impressões a partir dos encontros em um plano intensivo de afetos, sendo elas acompanhadas de uma
multiplicidade de vozes presentes, sejam dos intercessores teóricos utilizados, dos sujeitos envolvidos, e a minha (BARROS; KASTRUP, 2010); ao mesmo tempo, irei trazendo as linhas de modos de subjetivação e apresentando as situações/cenas com títulos que indicam esses processos de subjetivação. Mergulhemos nesse espaço...
CAPÍTULO III