O poema é constituído de oito quadras, em um total de trinta e dois versos, assim como cada parte de “Estudos para uma bailadora andaluza” e “A mulher e a casa”, bem como “Rio e/ou poço” e “Mulher vestida de gaiola”. Ou seja, esta é a forma predominante para falar sobre o feminino.
Cada verso do poema possui sete sílabas poéticas e rima toante se dá em /i/, com dois agudos em cada verso. O ritmo ressoa a alternância entre /a/ e /i/ nos versos e até entre as palavras do mesmo verso; alternância esta que, repetida a todo o momento, causa em efeito de circularidade. Ao considerar essas características formais associadas ao que o poema diz em termos de conteúdo, é possível pensar que o movimento em questão evoca o movimento do mar, que é concretizado pelas ondas. A ida e a volta remetem a um movimento de partida e retorno constante, algo que percorre um espaço curto, devido à constância da repetição, e que não cessa, devido à sua grande recorrência.
O verso heptassílabo e a rima toante, de sonoridade facilmente apreensível, são formas usadas em literatura de cordel e ditos populares. A também chamada rima espanhola é a identidade perfeita entre as vogais, ecoando, inclusive, internamente no poema em questão. Ainda em termos de sonoridade, nota-se em “Imitação da água” um encadeamento, em que ocorre a repetição simetricamente disposta de fonemas como /s/, /k/, /f/, /l/, /m/, /n/, /p/.
Desse modo, tanto a metrificação como os aspectos rímicos exprimem clareza e pureza sonora pela marcação que transmite seu aspecto reiterativo ao conteúdo do poema. Ademais, a
grande maioria dos versos é grave, ou seja, terminados em paroxítona, o que representa a entonação de grande parte dos vocábulos em língua portuguesa. Além da assonância, as aliterações também estão presentes, especialmente em /s/.
A objetividade pode ser igualmente notada na pontuação do poema. As orações são bem pontuadas e não há ruptura sintática além do limite do verso, facilitando a inteligibilidade e a compreensão objetiva. Os dois pontos são indicadores de “enumeração” e “explicação” no verso seis e os parênteses, no verso dezoito, responsáveis pelo “isolamento sintático e semântico mais completo dentro do enunciado, além de estabelecer maior intimidade entre o autor e seu leitor” (BECHARA, 2006, p.611-612). Em ambos os casos, há uma ênfase adquirida por meio de uma entonação especial que clareia a leitura e facilita a captação.
Ou seja, há todo um empenho no sentido de garantir o acesso ao significado passível de ser retido a partir de um contato superficial com a linguagem. O uso do código linguístico feito pelo poeta aponta a intenção de garantir, ao menos, a base do entendimento, ou seja, a
legibilidade do texto.
Esse caráter acessível também existe, em partes, em termos de conteúdo. Como se analisa em seguida, as figuras do poema possuem elevado grau de densidade sêmica, o que, aliado ao teor didático do texto advindo de sua estrutura, garantem a entrada para sua significação, para seus níveis mais profundos.
A imagem de “Imitação da água” é construída a partir de duas oposições básicas: sólido versus líquido e ser vivo, animado versus ser não-animado. Ambas as oposições estão unidas pela oposição: movimento versus não-movimento. A princípio, a mulher, ser vivo, equivale à onda, ser inanimado. Em seguida, a partir da transferência de qualidades, do vivo para o não-vivo, este vai sendo moldado de tal maneira que possa, de fato, ser análogo àquele.
O núcleo sêmico de “onda” é constituído por traços como /inanimado/, /líquido/, /fluido/, /móvel/, /incessante/. O que caracteriza de modo mais marcante uma onda do mar é seu caráter de constante movimento, seu ir e vir, sua tensão e derramamento ininterruptos. Tanto que a gíria contemporânea “está na onda” significa “está na moda”, já que o traço semântico /mobilidade/ é também acentuado no semema “moda”, cujos semas são, entre outros, /atualidade/, /novidade/, ou seja, produto da constante renovação, associado a movimento.
Os traços semânticos do núcleo sêmico do semema “mulher” são /animado/, /humano/, além de /sexualidade/. Não havendo qualquer traço comum à onda, uma aproximação semântica
parece sem propósito, porém o eu-poético propõe uma ruptura dessa construção semêmica cristalizada pelo uso, possibilitando inovadoras virtualidades de sentido. O poema, rompendo com o uso corrente, associa ambos os sememas tendo por base traços semânticos muito menos óbvios e, inclusive, manipulando traços do próprio núcleo sêmico de cada um dos sememas. É no campo semântico da forma física que reside o traço comum entre “mulher” e “onda”.
Aqui, o que importa é a forma, o corpo, o concreto, aquilo que se pode apreender. Não sendo a associação tão automática e direta, o impacto é maior e a forma trabalhada no poema aponta para uma técnica de criação inovadora e de alto valor estético.
Na primeira quadra de “Imitação da água” se instaura o símile “mulher deitada de lado igual a onda do mar”, introduzindo a figura curvilínea do corpo de uma mulher deitada de lado sobre a cama.
De flanco sobre o lençol, paisagem já tão marinha, a uma onda deitada, na praia, te parecias.
(MELO NETO, 2003, p.260).
A silhueta entre o quadril e o seio é evidenciada ao ser identificada com uma onda, cuja forma é curva, arredondada. Dirigindo-se ao destinatário feminino, o poeta diz que este se parecia com uma onda deitada, portanto o que está em pauta é o perfil do corpo da mulher, especialmente seu contorno. Assim, a onda serve como comparante, de que o poeta faz uso para melhor falar de outro substantivo, o que ilustra sua preferência por qualificar os substantivos com outros substantivos, ao invés de adjetivos.
Já a segunda quadra aprofunda essa comparação por meio da aproximação das características comuns, segundo o eu-poético, entre seus membros, o que se faz a partir da mudança de foco da mulher para a onda, que assume forma antropomorfa.
Uma onda que parava ou melhor: que se continha; que contivesse um momento seu rumor de folhas líquidas. (MELO NETO, 2003, p.260).
Todas as estrofes seguintes são igualmente dedicadas à exploração das oposições anteriormente explicitadas, aplicadas ao corpo da onda, exceto a última. O recurso utilizado
proporciona ao poeta todo distanciamento necessário para uma análise isenta de qualquer subjetividade que possa ser suscitada pelo olhar masculino diante do corpo de uma mulher. E, para atingir efeitos ainda mais eficazes, lança mão de nova técnica de controle: paralisar e solidificar aquilo que é, por natureza, fluido e se movimenta sem cessar.
Esta última solução possibilita o tempo e o espaço necessários para se observar de modo crítico e analítico algo tão volátil e efêmero como uma onda. É preciso parar o turbilhão, paralisar aquilo que não para em hipótese alguma e ter, então, o domínio sobre a imagem. Apenas transformando esse elemento natural em artifício como a fotografia, a pintura, ou a imaginação é que se pode ver uma onda parada “no alto de sua crista”, contida, interrompida, imóvel como montanha.