A sexta, sétima e oitava quadras constituem o último e mais longo período do poema, introduzido pela conjunção adversativa “mas”, o que indica uma mudança de rumo no texto, pois o que se diz depois do “mas”, e caminha para a conclusão, se sobrepõe às ideias anteriores. Se até essa parte do poema impera a negação do que possivelmente igualaria a figura feminina e a palavra seda, a partir de então se passa a afirmar determinado ponto de convergência entre ambas.
Mas em ti, em algum ponto, talvez fora de ti mesma, talvez mesmo no ambiente que retesas quando chegas, há algo de muscular, de animal, carnal, pantera, de felino, da substância felina, ou sua maneira, de animal, de animalmente, de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta persiste na coisa seda. (MELO NETO, 2003, p.247).
A anáfora constituída pelo termo “talvez”, no primeiro e segundo verso da sexta estrofe; a repetição no primeiro verso da oitava estrofe de “de animal”, do segundo verso da sétima estrofe, reforçada ainda em “animalmente”, também no primeiro verso da oitava estrofe; a posição diagonal de “mesma” e “mesmo”, no segundo e terceiro verso da sexta estrofe, respectivamente; e, sobretudo, as gradações que preenchem as duas últimas estrofes são indicadoras de uma nova, e mais intensa, ativação do ritmo e da ânsia pelo fim. Além disso, é válido retomar o fato de essas três últimas quadras do poema constituírem um só período, de modo que são lidas em ritmo rápido e constante, acelerando a tensão e a intensidade do transe do poema.
Esses recursos exprimem, ainda, a reflexão hipotética típica da poética do feminino aqui estudada, em constante e inquieta busca pela apreensão da desejada figura feminina. No entanto, deve ficar claro que a intensidade dessa procura aumenta ao longo do poema, pois o eu-poético almeja simultânea e igualmente à figura feminina e à sua apreensão em si, as quais não
concorrem, mas se alimentam e caminham na mesma linha de força até se tornarem indissociáveis, ao final, quando a linguagem da poesia é a figura feminina inscrita.
Concluído o esvaziamento do conteúdo que faz de “seda” uma palavra “impossível de poema”, o eu-poético pode apontar para os semas do signo “seda” que se prestam ao sentido do poema, antes encobertos pela superfície sufocadora dos semas excluídos. Há na figura feminina, em algum ponto, ou mesmo fora dela, algo que “persiste na coisa seda”, ou seja, a impressão do eu-poético é marcada pela indeterminação, pois não se sabe o que é exatamente nem o local onde se encontra o elemento comum entre mulher e seda. No entanto, a indefinição não se deve ao fato de os semas perseguidos pelo eu-poético serem por ele desconhecidos. A questão é que a superfície impede que as significações que estão “sob a palavra gasta” venham imediatamente à tona. Desse modo, o embate travado pelo eu-poético, cuja percepção é suficientemente apurada e apta à apreensão dos sentidos mais escondidos pelo uso cotidiano das palavras, se dá no sentido de entreabrir essa camada que envolve a palavra para revelar, enfim, a riqueza de sentidos que há por debaixo dela. Com isso, dá a ver a plenitude da figura feminina, da linguagem verbal e da poesia, pois faz com que a superfície de cada uma “ceda”, se esgarce, se abra e se deixe vencer. Nesse sentido, a palavra seda remete também à homófona ceda, do verbo ceder.
Ao fazer com que a palavra ceda, o poeta empreende novo esforço, o de perseguir o sentido exato dentre os sentidos que encontra sob a superfície da palavra, como se um estivesse na frente do outro e todos se ocultassem entre si. Então, na sétima quadra, o poeta revela o primeiro sema, que encobre todos os outros, “muscular” e o tira da frente do seguinte, “animal”, que abre o caminho para “carnal” e assim sucessivamente segue até a última estrofe. Esse fazer fica explícito por meio da colocação adjacente dos sentidos achados, em forma de sequência, de gradação, entre vírgulas e algumas vezes precedidas pela preposição “de”, ou seja, lidas imediatamente após as anteriores e completando o mesmo período iniciado na sexta estrofe.
Fica, então, evidente que os semas escolhidos pertencem ao campo semântico do que se pode chamar de a natureza da seda, sua origem animal, seu estado bruto, essencial, rústico, primitivo. No entanto, uma vez que estão elencados para definir o ponto interno ou externo à figura feminina, esses semas integram também o campo semântico do feminino. Portanto, nesse momento do poema, após a desconstrução do símile mulher-palavra seda, o eu-poético instaura o símile que identifica a figura feminina e aspectos específicos da seda. Portanto, nota-se o critério redobrado do poeta ao aproximar o feminino mais da palavra que do objeto que esta designa. Ele
nega o símile que engloba a aparente semelhança e, apenas ao final, afirma o símile revelador da verdadeira ligação entre a figura feminina e a palavra seda.
O traço semântico “animal” é o dominante da sequencia de semas, assim, é possível dizer que está, de alguma forma, presente em todos os lexemas, de modo que a locução “de animal” inicia o segundo e o primeiro verso da sétima e oitava estrofe, respectivamente, dividindo em duas as iterações que compõem a gradação maior. Além disso, ainda no primeiro verso da última quadra, segue “de animalmente” e a ideia de animal felino está presente em toda a sétima quadra, em “pantera”, “felino”, “substancia felina” e “sua maneira”. Esse traço pertence tanto à seda, que é uma matéria-prima de origem animal, como à mulher, ser humano, portanto pertencente à classe dos animais racionais. Fêmeas felinas são, frequentemente, associadas à mulher, desde a mitologia grega, romana, egípcia e celta, no que diz respeito à fertilidade, à sexualidade e, em muitas lendas, como nórdicas e hebraicas, ao maligno. Esse caráter selvagem, essa “substância felina”, assim como os sentidos de “muscular”, “carnal” e da gradação peculiar da extensão dos sufixos que ocorre em “cru”, “cruel”, “crueza” remetem aos instintos, à sedução e à sexualidade feminina. Remetem, inclusive, à sedução da seda em seu estado bruto, ao fascínio e à força de seus fios que envolvem e prendem.
Com isso, a seda como uma das matérias-primas mais caras utilizadas na produção de um dos mais luxuosos tecidos, que servem de adorno ao corpo feminino, é “destecida”, bem como a figura feminina é despida de suas vestes tradicionais, para melhor atingir e transformar as atmosferas que a envolvem. Do mesmo modo, a poesia é desconstruída de seu lirismo “falso” e “acadêmico” e se reconstrói a partir do novo trançado da seda, que é seu trançado primitivo, e da trama sedutora emanada da figura feminina, que “retesa” e “transforma” sua atmosfera-poesia. E, com esse trabalho o poeta mostra que sob a superfície etérea da atmosfera feminina dos poemas que cantam a mulher, sob a superfície cintilante e suave do tecido seda e sob a superfície das palavras gastas, impossíveis de poema, persiste a essência da poesia.