Ao chegarem à praia os jangadeiros iniciam os procedimentos de checagem/vistoria da embarcação, das amarrações, dos utensílios, retiram o mastro, colocam o motor no local reservado para este e abastecem com o combustível, no caso daqueles que sairão para pescar com o auxílio do motor. Os jangadeiros que realizarão a pescaria sem o motor, também fazem a checagem/vistoria da embarcação, as amarrações, os utensílios, fecham a vela e abaixam o mastro. Geralmente esta preparação é feita pelo dono da embarcação e/ou com a colaboração do ajudante (figuras 26 e 27).
De acordo com os jangadeiros, o primeiro passo para a realização da pescaria consiste na escolha do pesqueiro. Os jangadeiros de Ponta Negra possuem mais de
Figura 26: Jangadeiro preparando o mastro e vela para a pescaria
Figura 27: Jangadeiro colocando o mastro com a vela para o início da pescaria
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quinze pesqueiros mapeados, com os mais diversos nomes, tais como Cabeço de Chico, Pedra do Ariocó, Cabeço do Pinhão (Alagamar), Navio, Pedra da Cova, Pedra de Barrado, Tarcí de Baieta, Tarcí com a Terra Encostada, Pedra do Morro Amarelo, Cabeço do Morro Amarelo, Baixas, Barreirinha, Leandro, Cabeço Seco, etc. Cabeço, segundo os pescadores, significa um aglomerado de pedras em alto mar e o Navio consiste em um pesqueiro formado a partir do naufrágio de um navio na região próximo a Via Costeira na cidade do Natal/RN. Outros pesqueiros recebem o nome daqueles que os identificaram.
Todos estes pesqueiros foram mapeados pelos próprios jangadeiros da região, os quais fazem a triangulação, denominação dada à organização dos pontos de referência para chegada a um determinado pesqueiro. Os jangadeiros, principalmente os mestres utilizam as vegetações, morros, prédios, antenas, e até estrelas para a orientação da localização do pesqueiro.
À distância percorrida da Praia de Ponta Negra até o local da pescaria é medida em braças. Uma braça equivale a 1,82 metros, sendo à distância percorrida pelos jangadeiros da referida praia aproximadamente 27 a 30 braças (mensurados a partir do local de estacionamento das jangadas). No entanto, às vezes, os jangadeiros podem ir para pesqueiros mais distantes.
Para a realização da atividade jangadeira nessa praia, observou-se que os jangadeiros necessitam de diversos equipamentos para a navegação, pesca e alimentação. Dentre os utensílios utilizados para a alimentação estão às garrafas comuns tipo peti para o acondicionamento da água (1- Fig. 28); colheres para o consumo dos alimentos; (2- Fig. 28); garrafas térmicas (3- Fig. 28) também para o condicionamento de líquidos a serem consumidos durante a pescaria; canecas improvisadas de garrafas peti (4- Fig. 28); mini-fogão ou “fogão a carvão” para a preparação dos alimentos a bordo da jangada (5- Fig. 28).
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A maioria dos jangadeiros deixa os seus instrumentos de pesca, navegação e alimentação na própria jangada, dentro da escotilha trancada com cadeado, para que os mesmo não sejam furtados.
É importante destacar que alguns jangadeiros levam para a pescaria medicações do tipo analgésico, antitérmicos e entéricos (para infecções intestinais), a fim de minimizar os sintomas de doenças que podem acometê-los quando estes estão em alto- mar. Para a proteção do frio e sol intensos, alguns jangadeiros, às vezes, levam camisas de manga comprida e bonés para usarem durante o dia e calças e capas para utilizarem a noite.
A forma predominante da pescaria realizada no local da pesquisa é a de rede. No entanto, percebeu-se que estes podem realizar a pesca com linha e rede, até mesmo só com a linha, covos ou manzuá, além de mergulho a peito livre. A pescaria de linha é comumente realizada durante o período em que as redes estão dentro da água. Segundo o jangadeiro, esta é utilizada para distrair o pescador, enquanto espera o tempo de puxar a rede de volta a embarcação, que é em torno de 40 minutos: “Agente leva a linha na jangada, chega numa poçazinha e quando acaba de arriar as rede agente pesca de linha...para passar o tempo. Enquanto a rede tá lá agente tamo pescando um peixinho de linha” (Jangadeiro- J1).
Figura 28: Utensílios utilizados para a alimentação durante a pescaria Fonte: Acervo fotográfico do projeto jangadeiros /GREPE/UFRN
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A estratégia de trabalho destes pescadores está diretamente relacionada ao tipo de pescaria escolhida. Em Ponta Negra existem dois tipos de pescaria: a pescaria de “ida e vinda” e a pescaria de “gelo”.
Segundo os pescadores da região, a pescaria de “ida e vinda” é comumente realizada nos períodos de inverno (geralmente nos meses de junho a setembro), onde os pescadores iniciam o processo de pescaria por volta da 01h00min da madrugada e retornam em torno das 09h00min ou 10h00min, dependendo da velocidade do vento, para aqueles que utilizam apenas a vela. Para as embarcações que utilizam o motor este tempo é reduzido em torno de 01 horade viagem (ida e vinda).
Se o tempo continuar bom, ou seja, sem ventos e chuvas fortes, comuns no período de inverno, alguns partem novamente no início da tarde (13h30min) e retornam no início da noite (19h00min). Porém, de acordo com relatos dos jangadeiros essa prática é arriscada: “Agora no inverno é de uma da madrugada às nove da manhã. E é muito raro sair um à tarde, porque nessa época agora que a gente tá é muito arriscado sair à tarde” (jangadeiro – J17).
A explicação para este perigo, segundo os jangadeiros, consiste em uma maior probabilidade de chuvas e tempestades surgirem nessa época do ano, o que dificulta a visibilidade noturna para o retorno da pescaria. No entanto, se as chuvas ocorrerem no início da madrugada, mesmo com dificuldades de visibilidade, o retorno ainda é considerado, pelos jangadeiros, ser mais fácil e seguro, do que se ocorresse no início da noite. Este fato justifica a preferência do início da pescaria ocorrer de madruga para que o retorno seja no início da manhã “com dia claro, é mais fácil de ver a terra”,relata o jangadeiro – J17.
Na pescaria de “ida e vinda” os jangadeiros utilizam todos os equipamentos e utensílios referidos anteriormente, exceto o mini-fogão, o gelo em escamas e a caixa de isopor para o acondicionamento do pescado, pois como essa pescaria é considerada rápida pelos jangadeiros, não há uma necessidade de preparar alimentos nem de levar utensílios e equipamentos adequados para o armazenamento do pescado e do alimento.
O peixe, logo após a sua coleta, é armazenado em sacos de estopa e acondicionado dentro da escotilha ou é armazenado em monoblocos situados na proa da embarcação. Ambos os acondicionamentos, sem a utilização do gelo. Isso faz com que o
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jangadeiro tenha que retornar logo para a costa, a fim de tentar preservar a qualidade do pescado para conseguir vendê-lo, como cita o jangadeiro:
“A gente vê a hora que o peixe vai dar pra ficar bom, porque o saco também esquenta o peixe... porque o peixe dura 24hora. Aí a gente pega um peixe, bota dentro do saco, fica lá amontoado dentro do saco, aí quando chega aqui em terra já chega com aquele cheirinho, ta entendendo? Agente tem que chegar com um horário pra ele não ficar com esse cheirinho” (Jangadeiro- J19).
Na pescaria de “gelo”, normalmente realizado durante o verão (nos meses de outubro a maio), os pescadores podem passar até 24h00min no mar. Neste tipo de pescaria levam consigo os equipamentos e utensílios para pesca, navegação, alimentação e salvatagem. Destaca-se que apenas nesta modalidade de pescaria foi observada a utilização de gelo para a conservação do pescado. Infere-se que a pescaria de “gelo” demanda de uma intensa carga física de trabalho, somadas as condições ambientais em que este é desenvolvido.