A palavra Giroletras nomeia um complexo de atividades que se desenvolvem no decorrer do ano, que têm como culminância uma feira anual de livros, organizada pela instituição Balão Vermelho desde 1995, e que, segundo seus mentores, difere de outras de natureza semelhante por se basear na crítica infantil. Constitui, assim, grande evento para o qual mobilizam-se os mais variados projetos exibidos ao público por ocasião da feira, cujas apresentações constituem ponto de convergência das ações articuladas durante o ano, em torno da leitura literária.
A escola Balão Vermelho encontra-se situada em bairro de classe média alta de Belo Horizonte - bairro residencial Mangabeiras - e tem, nos seus aproximadamente 30 anos (na época da pesquisa de campo, ano 2000, 28 anos), uma reconhecida trajetória marcada por iniciativas pedagógicas diferenciadas, consideradas de vanguarda para o contexto educacional belorizontino.
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Projeto de leitura literária que vem sendo desenvolvido pela Escola Balão Vermelho e por escolas da Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte, entre elas a Escola Municipal Antônio Sales Barbosa da Regional Barreiro.
Em decorrência da idéia inicial e como parte de uma política socializadora do evento, em 1996, pensou-se na ampliação do projeto de leitura literária, através de doações de livros, para a composição de bibliotecas de classe de escolas públicas de Belo Horizonte, como parte de uma política de intercâmbio que previa ações como a troca de correspondências e a realização de feiras, inicialmente centralizadas na escola de origem do projeto e depois separadas como eventos culturais distintos.
As feiras Giroletras vêm acontecendo há quatro anos. Para legitimá-las e alimentá-las, começamos em 96 uma ciranda de intercâmbios: algumas classes de escolas públicas passaram a trabalhar conosco em parceria, contando com nossa ajuda na aquisição de bibliotecas de classe, o que temos feito com a renda das feiras. Para os professores, a parceria implica compromisso em assumir a mesma postura com relação às diferentes formas de lidar com a literatura na escola. Para os alunos, essa parceria se consolida na troca de correspondências, visitas, ensaios, e realização das feiras com participação ativa das turmas envolvidas.26
Esse diálogo ganharia contornos mais nítidos e maior sistematização, no entanto, dois anos depois, na parceria criada com outras instituições de ensino, entre elas, escolas da Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte, coordenadas pelo Departamento de Educação da Regional Barreiro.
Bairro popular, com quase 150 anos de história27, o Barreiro caracteriza-se por uma complexa rede de educação que congrega 27 escolas municipais e 24 creches, muitas das quais podem ser consideradas referências para a Escola Plural. No ano 2000, participavam do Giroletras 16 creches e 27 escolas, dados que mostram uma plena representatividade, que significava um amplo interesse de participação por
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BRITO, 1999. p. 26 - 27.
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Fazenda Barreiro, assim eram chamadas as terras do Distrito e Freguesia do Curral Del Rey, desde 1855, muito antes da capital mineira se transferir para onde se encontra hoje Belo Horizonte.
adesão ao projeto. A Escola Plural, projeto político-pedagógico, implementado pela Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte, em fins de 1994, tendo sido colocado em prática a partir de 1995, favoreceu um maior investimento pedagógico em práticas tradicionalmente pouco usuais na escola. E, nesse contexto, surge a proposta de incentivo à leitura literária, que o Projeto Giroletras prometia e que vinha ao encontro desse clima de mudanças consideradas significativas do ponto de vista renovador. Escolas da Regional Barreiro da Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte28, além do Instituto São Rafael para deficientes visuais, deram início de forma mais sistemática ao intercâmbio, em continuidade a atividades voltadas para a leitura literária, com ênfase, a partir de 1998, na correspondência individual entre alunos das instituições de ensino envolvidas, que se estenderia posteriormente a outras escolas da Rede, ganhando novos contornos.
Em depoimento da diretora da Escola Municipal União Comunitária, à qual o projeto inicialmente se estendeu, recupera-se um pouco dessa história e dos anseios criados pelas novas metas pedagógicas que se ligam ao projeto maior da Escola Plural:
A participação da escola no projeto GIROLETRAS, em parceria com o "Balão Vermelho", possibilitou para professores e coordenação pedagógica da EMUC uma reflexão sobre a importância da literatura na vida das crianças e a necessidade de incorporá-la na rotina da escola.
A partir da organização de uma caixa de leitura (biblioteca de classe) para cada turma, procuramos propiciar aos alunos a descoberta do prazer da leitura. Ler, não para responder a um questionário sobre o livro, nem para fazer uma avaliação, mas porque é muito bom ler, é prazeroso.
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Foi fundamental na organização da caixa de leitura a escolha criteriosa de livros: histórias bem escritas com uma boa trama e personagens instigantes que levassem as crianças a conhecerem um mundo diferente, a viajarem junto com os personagens para lugares nunca vistos, nunca imaginados.
A partir da leitura dos livros os alunos fizeram releituras, teatro, resenhas literárias e percorreram outras salas de aula contando histórias. A realização da Feira do Livro como culminância da GIROLETRAS surpreendeu a todos nós, pois conseguimos que vários pais participassem do evento marcado pela presença do contador de histórias Roberto Carlos, pela apresentação dos alunos da EMUC e do Balão Vermelho. Apesar da escola estar situada na periferia da cidade, com uma clientela de baixo poder aquisitivo, os pais visitaram o stand de livros e chegaram até mesmo a realizar algumas compras, numa demonstração de que haviam percebido o crescimento das crianças através da leitura.
Nossa expectativa é ampliar a parceria estabelecida na GIROLETRAS para outras escolas da rede pública, tecendo uma rede de intercâmbio literário entre as mesmas.29
O relato de experiência, imbuído de representações da leitura literária voltadas para o prazer gratuito da leitura30, explicitamente avesso aos processos escolares tradicionais de avaliação, aponta o esforço de que o projeto devesse se estender para outras escolas nos anos seguintes, como uma proposta mais ampla daquela regional.
No ano 2000, quando iniciei a pesquisa de campo, a coordenação da Regional Barreiro trabalhava no sentido de intensificar as ações de implementação e ampliação do Projeto Giroletras para outras escolas da região, inclusive creches.
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Depoimento da então diretora da EMUC, Edna Martins Borges, divulgado juntamente com outros fragmentos de depoimentos de alunos, pais, escritores, com o intuito de ampliar a adesão de outras escolas da Rede.
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Trataremos, no corpo dessa tese, de algumas representações presentes nos discursos de professoras (Capítulo II), bibliotecárias (Capítulo I), alunos (Capítulo III) nas quais repercutem imagens recorrentes como a da leitura enquanto viagem simbólica e definições "impressionistas" que buscam caracterizar as boas obras para jovens como "bem escritas", de "boa trama" com "personagens instigantes".
Entre essas escolas encontra-se a Escola Municipal Antônio Sales Barbosa, situada no Tirol, região assim conhecida no bairro. Foi possível a esta pesquisa comparar práticas de leitura literária observadas na escola particular em questão a práticas de leitura de jovens da escola pública. A escolha desta escola e não de outra do Barreiro se deveu à indicação da então Coordenadora Pedagógica do Departamento de Educação do Barreiro, uma das responsáveis pelo contato inicial e posterior desenvolvimento da parceria na regional. Pressupunha-se, segundo esse critério de escolha, que a indicação garantisse uma efetiva participação da escola no Projeto.