ELISA IgG
6. SONUÇ VE ÖNERİLER
Há um generalizado consenso sobre o Brasil que a ninguém é dado contestar: o de que somos uma sociedade extremamente desigual. (Fórum Social Nacional, 1990).
Já nos anos 30, Gilberto Freyre, ao intitular suas duas obras-mestras de Casa- grande & Senzala (1933) e Sobrados e Mocambos (1936), ressaltava o dualismo social que marcou a formação da família brasileira, resistindo à decadência do patriarcado rural e acompanhando o desenvolvimento do urbano – ainda que, na visão gilbertiana, esses antagonismos, tão contundentes, tenham sido amortecidos pelas condições peculiares de convivência, miscigenação e mobilidade étnico-sociais, prevalecentes na Colônia e no Império.
No pós-guerra (década de 50), essa imagem social binária reverbera na Europa. É conhecida a oposição dos “dois Brasis”, de Jacques Lambert: entre um país novo e próspero e outro velho, colonial e miserável; o primeiro predominantemente urbano e o segundo, rural: dois mundos justapostos que permitem ao observador “predizer para o Brasil seja uma evolução na direção dos Estados Unidos, seja na da Índia”. Como é também antológico o “Brasil dos contrastes, de Roger Bastide, que, a despeito de ser sociólogo, tende a reduzir a “distância social” que identifica a um problema fundamentalmente econômico, desconsiderando outros fatores enraizados na nossa herança sócio-cultural. E, por assim entendermos, o Brasil do passado, somente por pressões internacionais, em especial da Inglaterra, começou a combater a escravidão, que teve início com a expansão da lavoura cafeeira, tornando-se símbolo das nossas desigualdades. O primeiro passo foi em 1850, com a
Lei Eusébio de Queiroz, proibindo o tráfico de negros oriundos da África. Em 1871, surge a Lei do Ventre Livre, dando liberdade aos filhos de escravos nascidos a partir daquela data, e em 1885, a Lei dos Sexagenários que libertou os negros com mais de 65 anos de idade. Finalmente, no dia 13 de maio de 1888 é promulgada pela Princesa Isabel, a Lei Áurea, efetivando-se a partir de então, a Abolição da Escravatura no território pátrio.
Num outro plano – o dos desníveis espaciais -, patenteiam-se, com a divulgação, em 1951-52, das primeiras estatísticas nacionais de renda e produto do país e de cada região, os desequilíbrios inter-regionais, mais acentuados entre o Nordeste e o Sudeste, fenômeno que, embora só se tenha agravado após a I Guerra Mundial, já era percebido desde o Império, sublinhado, seja pelo drama das secas, seja pelo empobrecimento relativo acarretado pelos chamados “saldos do Norte” (que, na geografia regional de então, estendia-se do Amazonas à Bahia), transferências líquidas de recursos fiscais que financiavam, em grande parte medida, tanto os “melhoramentos materiais” da Corte do Rio, quanto a política imperial de imigração européia para o Brasil meridional.
A questão regional ocupou grande parte do espaço na discussão sobre as desigualdades no Brasil nos anos 50 e 60 – induzindo iniciativas políticas em benefício das regiões menos desenvolvidas, como a criação do Banco do Nordeste do Brasil S.A. (1951), da SUDENE (1959), do Banco da Amazônia S.A. e da SUDAM (1966) e a formulação e execução dos programas de desenvolvimento regional que essas agências passaram a coordenar.
A primeira metade da década de 70 foi, em grande medida, dominada pelo debate sobre a distribuição interpessoal da renda nacional, suscitado pelo agravamento das desigualdades, constatado a partir da comparação dos dados sobre rendimentos colhidos pelos Censos Demográficos de 1960 e 1970, entre outros por Hoffmann e Duarte, Fishlow e Langoni (1972-73).
A partir de então, o Brasil passa a ser visto como campeão das desigualdades de renda. Essa liderança é confirmada, ao longo dos anos 70 e 80, pelas sucessivas Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (PNADs), empreendidas pelo IBGE, bem como, pelo Censo Demográfico de 1980.
Em fins dos anos 70 e início da década de 80, a ênfase da discussão desloca-se das análises da desigualdade relativa para a consideração da pobreza absoluta, intentando-se seja para medir a sua dimensão, seja para indagar sobre suas causas ou sobre as estratégias para combatê-la. O marco divisório passa a ser o que separa os pobres dos não-pobres (a chamada linha da pobreza) e a preocupação com o atendimento das necessidades básicas da população carente. Essa abordagem ainda se mantém presente e foi recentemente revivida, no plano
internacional, pelo Banco Mundial (que, de resto, desde o início a estimulou) e pela Organização das Nações Unidas – ONU.
Contudo, o debate atual sobre a questão da distribuição de renda parece esgarçar- se entre aqueles que se dedicam a constatar e a procurar compreender as razões da persistência das desigualdades relativas e da pobreza absoluta e os que, sem negá-las, suspeitam ter havido, sobretudo nos anos 70, uma considerável melhoria no nível de vida geral da população, inclusive dos mais pobres, e avança a hipótese segundo a qual o Brasil estava (no final dos anos 70), “e está, em pleno processo de formação de uma economia e de uma sociedade de massas”, respaldando suas conclusões na análise da evolução de indicadores da acessibilidade a bens e serviços de uso domiciliar por grandes e crescentes parcelas de famílias: desigualdade e pobreza, sim, afirmam, porém acompanhadas de considerável progresso social, compartilhado pela maioria dos brasileiros.
Sem sombra de dúvidas, essa constatação de melhoria nos níveis sociais no encerramento da década de 70, mesmo que a desigualdade e a pobreza continuem ainda em níveis elevados, não deixa de ser algo alentador, passível até mesmo de comemoração. Infelizmente, tais avanços não evoluíram ao longo dos anos que se seguiram, tendo em vista, recentemente a Fundação Getúlio Vargas – FGV Projetos ter realizado pesquisa inédita, que culminou com a apresentação de dados levantados através de um amplo diagnóstico das mazelas e conquistas socioeconômicas dos nove estados nordestinos no período compreendido entre os anos de 2001 a 2007. O levantamento traçou um retrato detalhado do atraso da região Nordeste com base em 36 micro-indicadores oficiais agrupados em oito temas: saneamento básico, qualidade de moradia, educação, segurança pública, renda, emprego, desigualdade e pobreza.
O estudo concluiu que “a renda da população do Nordeste, região mais carente do Brasil, cresceu nos últimos anos impulsionada pelo fortalecimento da economia nacional e pelos programas de transferência de recursos, como o Bolsa Família”. O dado negativo é que isso não refletiu em melhoria na qualidade de vida das pessoas que apenas sobrevivem nesses estados e nem contribuiu para um desenvolvimento local sustentável.
Serviços essenciais a que todos deveriam ter acesso, como: saúde de qualidade, educação universal, moradia adequada e segurança apresentaram crescimento bem abaixo da média do aumento da renda.
O resultado da pesquisa é um alerta e também um guia para as autoridades públicas. O estudo, concluído em junho/09, atribuiu a falta de reflexos do aumento da renda nos indicadores sociais diretamente à escolha de políticas públicas equivocadas por parte dos
governos. “O modelo de pensar o desenvolvimento do Nordeste não trouxe impacto sobre a qualidade de vida e os indicadores de desenvolvimento socioeconômicos da população”. Das nove unidades da Federação que formam a região, sete estavam em 2007 na faixa de classificação de estado com baixo grau de desenvolvimento – somente Sergipe e Rio Grande do Norte estavam no grupo de médio desenvolvimento.
Impossível não enfatizarmos isso e a história de nosso país registra que desde nossa origem sempre estivemos voltados à satisfação de demandas externas. Disso são testemunhas os ciclos econômicos vividos por nós e que, grosso modo, contribuíram para a consolidação das identidades das diversas regiões brasileiras. Aos poucos, porém, desenhamos nossa consciência de povo e, na Constituição de 1988, firmamos como objetivos da Nação “erradicar a pobreza e as desigualdades inter-regionais no solo brasileiro”.
Ainda não erradicamos a pobreza e persistem as desigualdades entre regiões. Proliferam bolsões de miséria, crescem as desigualdades, agravadas nas últimas décadas pela adoção de políticas de recorte neoliberal. E, o que é pior: eliminaram-se as agências responsáveis pelo planejamento e coordenação das políticas de desenvolvimento regional – em seu lugar foram colocados órgãos meramente burocráticos. Perdeu-se parte da memória regional. Estudos de caráter periódico deixaram de ser feitos, do que decorre a descontinuidade de levantamentos em série, para desespero de pesquisadores. Os bancos de fomento foram fragilizados. A ação do Estado, fragmentada, optou por apoiar nichos com potencial de inserção no mercado competitivo internacional, sob a égide da mundialização da economia.
Milanovic, comparando a concentração de renda entre as sociedades modernas e pré-industriais, concluiu que 1% dos brasileiros mais ricos em 1872, respondiam sozinhos por 11,2% da renda nacional. Já, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2006, realizada pelo IBGE, já apresenta uma realidade mais clara quanto a nossa situação: as famílias entre o 1% das mais ricas detinham 11,1% da renda, percentual igual ao detido por 40% dos mais pobres. Essas comparações, para alguns historiadores e economistas, são consideradas imprecisas, por se apresentarem com estatísticas não confiáveis; o que torna a tarefa praticamente impossível de se realizar em sociedades tão distintas. Por outro lado, tenta-se medir a desigualdade histórica através do Índice de GINI, que é utilizado nos dias de hoje, o qual identifica a concentração de renda e classifica os países de Zero, menor nível possível de desigualdade, a 100, o maior. Pelo Índice de GINI, a desigualdade do Brasil comparada historicamente, passou de 43,3 em 1872 para 58,8, em 2002. Mesmo se considerando as imprecisões do passado, diversas fontes históricas acabam concordando que o Brasil, e demais nações latino-americanas, sempre formam extremamente desiguais.
O tempo passa, a realidade das regiões deprimidas torna-se mais e mais complexa. Acompanha, sob alguns aspectos, a modernização conservadora do país, entretanto, por outro lado, crescem problemas não sanados, para cuja solução é imperioso aplicar mais recursos humanos e financeiros, desenvolver novas tecnologias e adaptar as de ciclos anteriores. Como nunca, urge integrar esforços de diferentes áreas do conhecimento; casar recursos escassos com criatividade; unir a capacidade de agir em rede ao potencial de culturas generosas, porém até hoje isoladas; fundir fé, filosofia e ciência. Por fim, o Estado não deve e nem pode se negar ao seu papel relevante na redução das desigualdades e promoção do desenvolvimento regional; as políticas públicas de desenvolvimento legitimadas mundo afora, tanto do ponto de vista teórico quanto empírico; o Nordeste não sairá da estagnação sem vincular-se a um projeto nacional de desenvolvimento e se ficar alheio às sinergias positivas advindas de um bloco econômico da América latina e do conjunto da dinâmica internacional.
Contudo, nos últimos 10 anos, percebe-se uma evidente estabilização dos indicadores de desigualdade na região Nordeste (CAVALCANTE, 2003).
Desse modo, em resumo, observa-se que o Brasil viveu e está passando por uma importante mudança social no período recente. Os motivos, que merecem estudo mais aprofundado, parecem assentar-se no crescimento econômico recente somado às políticas sociais e de previdência social realizadas pelos governos federal, estadual e municipal.
Se assim for, torna-se mais uma vez relevante atentar para o crescimento econômico do país, suas bases, sua qualidade e, fundamentalmente, sua continuidade. Talvez o país esteja vivendo uma importante fase em sua história, em que começa a superar quase 25 anos de baixo dinamismo e pouca perspectiva econômica e social.
1.3Um Enfoque Conceitual sobre Pobreza e Desigualdade Social
Na análise da evolução da pobreza e da desigualdade, é de fundamental importância antes de tudo, entender exatamente o que se quer dizer com referidos termos e como medir as grandezas a elas associadas. Sob este aspecto a medição de ambas as grandezas depende do conceito atribuído a elas, o que de alguma forma por trás desses conceitos estão valorações implícitas que podem ser muito diferentes. Tanto para a análise da desigualdade como da pobreza, existem duas perguntas cuja resposta define em grande