Mas, afinal, é possível dissociar o humor dessas noções que apresentamos até o momento (riso, chiste...)? Para responder a essa pergunta, partiremos de uma distinção proposta por Almeida (1998):
Localização psíquica:
a) Chiste: inconsciente. b) Humor: superego.
c) Cômico: do pré-consciente para o consciente.
Pessoas envolvidas:
a) Chiste: três. b) Humor: uma. c) Cômico: duas.
Registros:
a) Chiste: relação com o real. b) Humor: simbólico. c) Cômico: imaginário
.
Ainda que concordemos com essa diferenciação, ela não dá conta de explicar os enunciados humorísticos infantis, principal- mente quando se trata de analisar diálogos que envolvem duas ou três pessoas, como é o caso desta pesquisa. Na verdade, essa, como outras tentativas de “separação”, parecem mais evidenciar a difi- culdade de se distinguir esses termos. Aliás, um primeiro obstáculo aparece logo no momento de defini-los – problema este que já apontamos no item 1.1 deste capítulo. No livro de Emelina (1996), ele se transformou até em título de um dos capítulos “O irritante problema do humor...”.
Já se sabe que o humor é uma das mais altas manifestações psí- quicas e que já foi objeto de pensadores. Freud fala do humor como um modo de conseguir prazer (risos) apesar dos afetos dolorosos da infância, no caso do adulto, e dos dias atuais, no caso do humorista. O prazer humorístico seria, assim, uma maneira de distanciar aquilo que causa sofrimento – e consequentemente provoca estra- nhamento – para o homem. É através de uma palavra ou de um fato inesperado que a dúvida aparece criando o distanciamento.
Esse distanciamento também é mencionado por Emelina (1996, p.84)25 em sua definição sobre o cômico: “a condição necessária e
suficiente do cômico é uma posição de distância em relação a todo fenômeno considerado como normal e em relação a suas eventuais consequências”.
No que se refere especificamente ao cômico verbal, à fantasia verbal, ao trocadilho, ao chiste, ao humor, o riso aparecerá se se tratar de um jogo por si só, fora do real, e se se referirem a persona- gens com os quais não vislumbramos nenhum tipo de vínculo.
Mas essa sutil fronteira que parece existir entre o cômico e o humor – e que contribuiu para a confusão que se estabelece entre eles – também é encontrada em relação a outros termos.
Entre o cômico e o riso, temos dois grandes exemplos de autores que associavam essas noções: Bergson e Freud.
Bergson (1900, p.51-2) fala em mécanisation de la vie no que se refere ao aspecto cômico. Para ele, o inanimado que se opõe ao “animado” (pessoa viva) faz rir, tem um efeito cômico. Sua ideia inicial a respeito do cômico é que se trata de um efeito que acontece depois das alegrias da infância. “Com frequência, temos dificul- dade em reconhecer o que ainda há de infantil na maior parte de nossas emoções felizes.”26
Em sua teoria, o absurdo tem um papel importante porque diz respeito à estranha lógica do personagem cômico. Mas só é cômico o absurdo que é uma inversão do bom senso: aquele que molda as coisas com uma ideia – e não o contrário.
Freud diz dar um passo além de Bergson: o cômico não é um prazer recordado, ele surge da comparação: entre mim e uma pessoa (nesse caso, a pessoa pareceria uma criança); no interior da outra pessoa (aqui, ela se reduziria a uma criança); no interior do eu (eu descubro a criança em mim).
Uma das condições enumeradas por Freud para a produção do prazer cômico é a disposição ou a inclinação da pessoa para o riso. Para quem possui essa disposição, tudo parece cômico.
Para ele, as crianças não têm esse sentimento. Os enunciados que em outras pessoas poderiam ser considerados chistes ou obs- cenidades, nas crianças não passam de ingenuidade cômica, na medida em que permanecem fiéis à sua natureza – seu prazer é puro. Esse sentimento do cômico só começa a partir de um deter- minado momento do desenvolvimento mental. Ela não diz “ele faz assim, eu tenho que fazer assim, assim eu faço”, porque ela
26. “Trop souvent surtout nous méconnaissons ce qu’il y a d’encore enfantin, pour ainsi dire, dans la plupart de nos émotions joyeuses.”
não tem essa consciência; para ela é simplesmente “assim se deve fazer”, por imitação. Assim, seu riso, mesmo que igualmente de superioridade, é diferente do adulto, ele é apenas reflexo de um puro prazer. Se rimos de alguém que cai na rua, rimos porque o fato é cômico, a criança ri da sua posição de superioridade: Você caiu, eu não.
Freud também falou sobre o cômico e o chiste. Ele dizia que a humanidade não se contentou em desfrutar do cômico, quis intencionalmente produzi-lo. Para ele, o humor, assim como a ironia – no item anterior já fizemos menção aos limites entre ela e o humor –, era, na verdade, uma das espécies do cômico. O hu- mor se realiza apenas com a participação de uma pessoa, isto é, do sujeito com ele mesmo, embora outras pessoas possam estar presentes como espectadores ou ouvintes. Para que ele se realize, uma expectativa emocional deve ser frustrada; desse modo, o sen- timento é economizado e transformado em fonte de prazer. Se o prazer triunfa, triunfam igualmente a rebeldia e a rejeição da rea- lidade – operada pelo superego com o objetivo de consolar o ego e protegê-lo do sofrimento – para que a ilusão prevaleça. O humor parece ter uma “grandeza e elevação” que nem o chiste nem o cômico possuem.
De qualquer modo, não é muito clara a linha que separa o cô- mico do chiste, mas essa terminologia não parece ganhar muita im- portância, já que uma das funções dos chistes é justamente tornar
novamente acessíveis ocultadas fontes de prazer cômico.
Assim, para tentar responder à questão que intitula este item, e a julgar pela maneira como esses termos aparecem intimamente li- gados – inclusive ao longo deste capítulo, dificultando, aliás, a pró- pria divisão em seções, já que os capítulos, assim como as noções, estão interligados –, não acreditamos ser possível dissociá-los total- mente, sobretudo quando o termo “cômico” está envolvido.
Na verdade, ao que parece, o humor, o chiste, a ironia – e tam- bém a caricatura, o grotesco, o satírico, o burlesco e outros tantos mais termos existentes – não constituem “formas reduzidas do riso” (Bakhtin, 1999, p.103) nem se dispõem em hierarquias em
que uma noção estaria abaixo de outra: há uma interligação entre elas, ainda que se possam estabelecer algumas distinções; todas elas organizam e ao mesmo tempo fazem parte de um grande gênero: o cômico.
Se fizermos uma retrospectiva no tempo, encontraremos a co- média, enquanto gênero, surgindo na Grécia, a fim de glorificar o trabalho e comemorar as colheitas (rito profano). Assim, o foco dos cultos deixam de ser os deuses e seus poderes e passa a ser o fruto de um trabalho realizado pelo homem. Através de danças, cantos e re- presentações de si próprios de um modo alegre, e principalmente com a criação de máscaras, os agricultores buscavam provocar o riso por meio de caricaturas grotescas do corpo, gestos obscenos, exageros e o rebaixamento de tudo que é elevado. A própria lin- guagem revelava esse espírito, era mais despojada, livre, se valia de obscenidades, grosserias, palavrões. E na medida em que desmiti- fica deuses e costumes, a comédia cria um mundo às avessas, onde tudo aparece invertido.
É esse mesmo espírito que parecemos encontrar no humor infantil, algo que tenta “desmitificar” aquilo que se impõe como regra (social ou linguística). Elas riem dos exageros, dos defeitos corporais, dos palavrões; riem igualmente daquilo que é anormal com relação ao uso, ao comportamento esperado, à linguagem, etc.:
G (4; 10 anos) está assistindo a um de seus desenhos japoneses
preferidos quando, para anunciar a chegada de um dos perso- nagens no episódio, o narrador diz: “a força ascenden::te::” e G, sem conhecer a palavra, ri muito e começa a repetir:
G – A força sem de::nte, a força sem den::te.
Desse modo, ainda que assim o desejemos, não é possível isolar o humor de suas modalidades vizinhas ou ainda reduzi-las a um único modelo, visto vez que suas distinções se baseiam em orien- tações teóricas diferentes. Sempre que tentarmos fazê-lo, corre- remos o risco de atribuir-lhes o conteúdo que bem desejarmos.
Nesse sentido, essas distinções – ou a falta delas – não parecem colaborar muito com as pesquisas de um modo geral, nem com esta em particular, uma vez que se trata apenas de uma visão – como outras que vimos no item anterior – dentro da qual daremos ao humor uma definição que sintetizará o conjunto de seus consti- tuintes neste trabalho.
É por essa razão que falaremos, a priori, indistintamente do humor, do cômico, do rísível e, quando necessário, estabelece- remos algumas oposições ou falaremos mais especificamente de cada um deles.
No próximo capítulo, trataremos de questões linguísticas e dis- cursivas – que podem ser utilizadas em outros domínios, além do humor – com vistas ao estudo do humor infantil.