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Şekil 2.6 Indulgent ve Restrained Toplumlar Arasındaki Farklar.

Ainda na tentativa de perseguir o humor (discursivo), bus- camos nos chistes – aos quais, aliás, Freud (1905) dedicou toda uma obra – pistas para cercá-lo.

14. De acordo com Ducrot (1984b), o enunciador é para o locutor o que o perso- nagem é para seu autor.

O chiste é uma forma de comunicação que necessita, em geral, de três “atores”: o criador, o ouvinte e a pessoa visada pela anedota. Tanto o criador do chiste quanto aquele que ouve a história en- graçada se colocam na posição de “filhos” que se tornaram cúm- plices diante do “pai todo-poderoso”. Tem-se assim uma situação edipiana na qual se inserem o criador, o ouvinte e a pessoa visada (dimensão imaginária) e fora da qual o humor é inconcebível.

Em geral, esse chiste proporciona, àquele que ouve, prazer e o faz rir. Tal sentimento decorre, segundo Freud, da técnica e do propósito do chiste. Nesse sentido, ele pode ser definido enquanto uma ati- vidade que tem como objetivo derivar prazer dos processos mentais (intelectuais ou de outra natureza). A produção de prazer corres- ponde, aqui, a uma economia da despesa psíquica. No caso dos chis- tes verbais, esse princípio de economia se encontra no uso de um número reduzido de palavras ou de palavras parecidas.

Nos jogos de palavras – considerado por Freud como um grupo desses chistes –, a técnica consiste em focalizar a atitude psíquica no que se refere ao som da palavra, assim, a apresentação acústica da palavra ocupa o lugar da significação. Isso garante um alívio para o trabalho psíquico na medida em que não é mais necessário o esforço requerido no uso sério das palavras. Quando são as crianças que fa- zem uso desses jogos, elas esperam que palavras parecidas ou idên- ticas tenham o mesmo sentido – porque para elas as palavras são coisas. É desses jogos e dos equívocos que deles surgem que os adul- tos riem. O prazer que emerge desse jogo, ou ainda desse “curto-cir- cuito” operado entre as ideias, será maior quanto mais distantes forem os dois círculos de ideias ligados pela mesma palavra.

Observando o comportamento da criança durante a aquisição do vocabulário de sua língua materna, é possível notar seu prazer em brincar com as palavras, em reuni-las sem a preocupação de que elas façam sentido, apenas para exercitar sua capacidade – instin- tiva – e a partir delas conseguir efeitos gratificantes, como o ritmo ou a rima (repetição do que é similar, similaridade de som, etc.). São esses efeitos que encorajam a criança a continuar com os jogos, não importa, nesse momento, se as palavras têm sentido ou se as

sentenças têm coerência. Para Freud, esse momento corresponde ao primeiro estágio dos chistes.

Com o passar do tempo, esse prazer – bem como o da atividade imaginativa – vai lhe sendo proibido pela escola (ver item 3.3), pelo pensamento lógico, pelas regras que a língua lhe impõe e pela cons- ciência de que se trata de construções absurdas, que fogem às com- binações previstas dentro dessa língua. Nessa fase, a menos que seja acidentalmente, o jogo é rejeitado.

É só bem mais tarde, sobretudo na adolescência, em que se quer construir uma identidade própria a partir do rompimento com as regras impostas, que os jogos e certas manipulações linguísticas voltam a ter lugar – por exemplo, através da criação de uma lingua- gem secreta que identifique um grupo. A simples atração de ir con- tra aquilo que é proibido pela razão parece justificar esse “retorno à infância” – como o próprio Freud afirma –, o prazer no uso do non-

sense, dos absurdos e das idiotices, característico dos rapazes, dos

estudantes universitários. O que o estudante e depois o adulto que- rem de volta é o prazer na liberdade de pensar como se fosse uma espécie de compensação para a inibição intelectual. Na verdade, para Freud, “o homem é um ‘incansável buscador de prazer’, pra- zer este que procede de uma economia na despesa psíquica ou de um aliviamento da compulsão da crítica” (p.123-4).

É nesse sentido, como uma maneira de transpor as barreiras im- postas pela crítica e prolongar o prazer, que se obtém com o jogo, que Freud fala do surgimento do gracejo. É como se existisse uma intenção, em permanente vigilância, de produzir prazer (verbal), e quando surge uma oportunidade, ela capta a ocasião e entra em ação. O gracejo corresponde ao segundo estágio dos chistes, embo- ra não pareça haver uma fronteira explícita entre ele e o chiste pro- priamente dito. A única diferença parece residir no fato de que o significado que compõe a sentença no gracejo não precisa ter va- lidade, ou ser novo, basta que haja satisfação em tornar possível aquilo que a crítica proibia. Trata-se de atribuir um sentido às com- binações de palavras que não fazem sentido e à união absurda de

pensamentos, e para isso empregam-se nos gracejos os métodos técnicos15 dos chistes. À medida que esse gracejo adquire substân-

cia e valor, ele passa a ser considerado um chiste. A capacidade para produzir gracejos parece estar em qualquer pessoa com boa dispo- sição, já o chiste, apenas algumas pessoas são capazes de fazê-lo, tenham ou não disposição. Freud descreve o momento em que o chiste é produzido como um repentino relaxamento da tensão inte- lectual (p.158). Eles aparecem involuntariamente, não quando queremos. Sobre sua elaboração, o autor assim escreve:

[...] a elaboração do chiste, como já comentamos, revela-se na escolha do material verbal e das situações conceptuais que per- mitirão ao velho jogo com palavras e pensamentos resistir ao es- crutínio da crítica; com esse fim em vista, toda peculiaridade de vocabulário e toda combinação de sequência de pensamento devem ser exploradas da maneira mais engenhosa possível. (p.126)

[...] o chiste é um jogo desenvolvido. (p.168)

Os chistes ensinam, assim, que o prazer (de um chiste) é resul- tado do jogo com as palavras ou da liberação do nonsense, e seu sig- nificado tem como objetivo apenas proteger o prazer ao qual a crítica poria um fim. Freud diz que ele não está ao dispor de qual- quer pessoa, apenas daqueles que possuem “espírito” (witz), uma espécie de capacidade especial herdada ou de determinante psí- quico que favorece sua elaboração.

O chiste é maldosamente engraçado, criativo, cria novas pala- vras e se vale de suas ambiguidades, provoca fusões para evocar novos sentidos, seja a partir dos sons, rimas, trocadilhos, rítmicas sonoras. Para fazer essas fusões, ele ao mesmo tempo se vale do có- digo e o infringe, usa e abusa de figuras de linguagem, tais como a 15. Embora Freud afirme que há pouca coisa a dizer sobre esses procedimentos, ele diz que a técnica consiste no uso de métodos que preservem o prazer apesar das objeções que a crítica impõe.

paranomásia, o calembur, a palavra-valise,16 a onomatopeia, os po-

lissíndetos, isso sem mencionar os anacolutos e as elipses, que se, por um lado, causam uma ruptura no texto, por outro constroem sua estrutura.

Por isso, ele precisa de um interlocutor, não pode ser feito ape- nas para si. A própria pessoa que elabora o chiste não pode rir dele, como acontece com um fato cômico, por exemplo. Assim, pode-se dizer que o cômico depende da existência de duas pessoas: a que conta (primeira) e a em quem se constata o cômico, e a fonte de prazer está nas pessoas – e às vezes nas coisas; o chiste enquanto jogo (estágio inicial) não necessita dessa pessoa-objeto, mas, quan- do se encontra no estágio do gracejo – considerando que se teve su- cesso em protegê-lo da razão –, necessita de uma terceira pessoa a quem se possa comunicar o resultado, e sua fonte de prazer está no próprio sujeito, não em pessoas externas. O chiste se dá, assim, en- tre a primeira e a terceira pessoa e o cômico entre a primeira e o objeto, mas ambos têm como objetivo conseguir prazer de fontes intelectuais.

A realização de um chiste depende, assim, de um reconhecimento

implicitamente partilhado pelos interlocutores – a que chamaríamos

de conivência, nos termos em que ele será descrito no item 2.2 de- dicado ao tema – de que a nova significação produzida pode ser in- serida como mensagem no código da língua.

A esse respeito, Todorov (1978), ao estudar os chistes, traz à tona a necessidade de dois tipos de trabalho: um de figuração, que chame a atenção do ouvinte e o leve a procurar uma nova interpre- tação, e outro de simbolização, que consiste em induzir um se- gundo sentido com base num primeiro. O primeiro sentido está no 16. Nela, dois significados se misturam numa só palavra:

G A, aos 3; 3 anos voltava da escola com a mãe e com o irmão:

M – Vocês querem macarronada com molho de salsicha ou cachorro-quente no

jantar?

G A – Eu quero “cacharronada”. M – “Cacharronada”?

contexto sintagmático, aquele que está contido nas frases vizinhas e na situação enunciativa, é o primeiro que vem à mente; o segundo sentido, o novo sentido que se impõe, está no contexto paradigmá- tico, i.e., no saber compartilhado entre os interlocutores e a socie- dade à qual eles pertencem.

Essa ação simultânea dos dois contextos parece estar presente também nos trocadilhos (calembur) em que um só significante pre- sente evoca dois significados, o seu e o de um parônimo (op.cit., p.292). Mas, de qualquer modo, seja o primeiro sentido (exposto) que aparece, seja o segundo (imposto ou surpresa), ambos contri- buem para a construção do chiste.

Ainda para a realização desse chiste, Freud acrescenta a neces- sidade da existência de uma pessoa convincente na sua performan- ce (voz e corpo), que não possua uma predisposição ao sério; ao contrário, ela deve estar eufórica, embora deva se mostrar séria à terceira pessoa. Por outro lado, a terceira pessoa deve estar em co- munhão com o emissor, deve ser benevolente ou ao menos neutra para colaborar com o sucesso do chiste e evidenciar seu prazer com uma explosão de riso. Esse riso que se origina do chiste é sinal de prazer e, nesse sentido, pode-se dizer que ele é um presente ao ou- vinte. É claro que a pessoa que conta um chiste também está provo- cando seu próprio riso – e prazer – porque quando ela o conta, de modo sério, causando o riso no outro, acaba também por se juntar ao ouvinte com um riso (embora moderado). No caso do humor, a atitude humorística é um dom raro, muitos nem têm a capacidade de usufruir desse prazer que lhes é presenteado.

Entre os métodos técnicos levantados pelo autor – que nem mesmo ele pôde enumerar – estaria aquele que permite livre trân- sito aos pensamentos, que são usuais no inconsciente e que, fre- quentemente, são tomados por “raciocínios falhos” no consciente ou, como ele próprio chama, pelo nonsense. Um chiste que se vale da técnica do raciocínio falho, que se mostra como absurdo, pode produzir um efeito cômico.

Embora Freud tenha uma visão fisiológica do riso que não inte- ressa ao nosso trabalho, algumas de suas observações são perti-

nentes aqui. Por exemplo, o fato de que o riso é resultado de uma distração da atenção (consciente) do ouvinte e de que só se realiza se o chiste se colocar como um elemento-surpresa, ou seja, se for uma novidade para o ouvinte. Desse modo, um chiste, para ser bem-sucedido, necessita sempre de um novo ouvinte.

Um outro recurso que colabora para intensificar o efeito do chiste – embora não seja condição necessária – é o uso do nonsense. Vale dizer sobre o nonsense ou sobre os chistes nonsense17 ou concep-

tuais, como Freud assim os denomina, que se trata de um jogo com pensamentos – e não de um jogo com palavras como os chistes ver- bais. Eles proporcionam prazer a quem os conta, mas irritam o ou- vinte, que, apesar de enganado, não se sente tão aborrecido devido à possibilidade de (re)contá-los em outra ocasião.

Para Freud, o humor não se resigna, desafia. Implica o triunfo do eu e do princípio do prazer que consegue se afirmar diante da rea lidade desfavorável. Para ele, não existe o senso de humor, mas, independentemente da razão, o humor é o alvo ideal das pessoas que riem. Para as que não entendem esse humor, que são privadas dos prazeres raros, ao contrário, pode ser ofensivo, mas sem dúvida revela uma inadequação à sua categoria social ou à sua faixa etária.

Ingenuidade, superioridade e zombaria

A ingenuidade introduzida pela representação infantil evoca o tempo em que o adulto, ainda criança, vivia essa causalidade má- gica. Muitas vezes, rimos de algumas coisas que as crianças falam e em alguns casos elas parecem ignorar o valor cômico de seus ditos. Trata-se, em geral, de descobertas e confusões involuntárias das crianças que agradam mais os adultos e que podem se manifestar através de jogos de linguagem, criações lexicais, confusões foné- ticas (homofonias) e semânticas (polissemias). E a graça que acha- mos de suas produções pode ser reforçada pela persistência da 17. Exemplo: “A vida é uma ponte suspensa”, disse o homem. “Por quê?”, per-

criança em seu “erro” e na sua insistência (séria) em tirar conclu- sões lógicas de um raciocínio que elas não percebem que é falso.

Assim, segundo Freud, um outro efeito que pode originar o riso é o ingênuo. Quando se trata dos chistes inocentes, o efeito que se tem – e que pode ser atribuído ao conteúdo intelectual do chiste – é mais moderado e, em vez da súbita explosão de riso, o que se tem é um leve sorriso que traduz um sentido de satisfação do ouvinte. Esten- dendo essa referência ao chiste ao trabalho aqui em questão sobre o humor, é possível entender nos dados, ora o aparecimento de risos, ora de sorrisos. De acordo com o mesmo, ele seria o tipo cômico mais próximo do chiste. Quando G (3; 11), por exemplo, na hora do lan- che, em casa, sem perceber a troca, diz: essa bolacha tá com pouca

margarida. Nesse caso, ela estaria produzindo algo que se assemelha

a um chiste verbal por similaridade fônica.

O que diferencia a ingenuidade do verdadeiro chiste é que, no caso da criança, ela não pretendeu fazer um chiste tendo um arrière

fond em mente, nem utilizando suas técnicas, mas tentou, de boa fé,

dizer algo sério com base no conhecimento que ela possui – ou na falta dele! Aos olhos do interlocutor – a terceira pessoa do chiste –, é como se o locutor vencesse sua inibição para produzir o enun- ciado que causa riso, mas de fato não há inibição para ser perdida, porque ele não a possui; se ela souber o que está fazendo, não se trata mais de ingenuidade, mas de imprudência. Por isso, o inter- locutor ri – e não se irrita ou se indigna. Apesar disso, seja nos chistes, seja nos enunciados ingênuos, a origem do prazer (verbal e no nonsense) está na suspensão da inibição na pessoa que os produz.

Pode existir, contudo, um tipo de ingenuidade enganadora: acredita-se que a criança tenha falado determinada coisa por inge- nuidade, mas, na verdade, essa ingenuidade não existe, ela está apenas desfrutando dessa posição de liberdade que adquiriu diante do adulto. Nesse caso, o resultado é a gozação ou a zombaria18 por

parte da criança.

18. Os termos “zombaria” e “gozação” aparecem no dicionário Houaiss como si- nônimos – aliás, o termo “ironia” também aparece como sinônimo deles. Des-

Mas às vezes é o adulto quem zomba da criança ao fazer uso dessa ingenuidade. Feuerhahn (s. d.) diz que o riso, nesse caso, corresponde a uma negação de qualquer identificação com a criança – que ele foi um dia – e reforça a identificação com o adulto agressor que um dia fez a mesma coisa com ele.

A criança é sensível à presença do adulto e às expectativas que ela supõe nele. Diante disso, seus comentários de certa forma ex- pressam uma necessidade que ela tem de mostrar que sabe, que conhece a verdade, que é esperta e não se deixa enganar; uma ne- cessidade de afirmar sua superioridade, sua melhor adaptação. Para tanto, ela se vale de brincadeiras “bobas”, absurdos, adivinhas que lhe permitem manipular a revelação da solução que o outro geral- mente não consegue descobrir. A alegria da vitória sobre a adversi- dade implica a degradação de seu rival, ambos os componentes se misturando no divertimento das crianças.

A desventura (a queda, os tropeços, a perseguição) é cômica não só na infância, mas também na idade adulta; nós rimos da posição inferior do outro, porque ela conforta, eleva nossa autoestima.

Benzer Belgeler